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Sexto sentido — aprenda a usar o seu

Graças a ele, você não titubeou para escolher sua casa ou seu grande amor. A intuição é uma habilidade natural do cérebro — e viola a lógica até para tomar as decisões mais importantes

O PODER DO SEXTO SENTIDO
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Um jogador de xadrez faz cerca de 30 movimentos por partida. A cada reação do rival, surgem mil novas possibilidades. Mas mestres do jogo não lidam nem com 10% dessas alternativas. O tempo curto para tomar uma decisão não os deixa analisar racionalmente os zilhões de opções até escolher a que o aproximará do xeque-mate. Eles levam menos de 10 segundos para fazer um movimento certeiro 90% das vezes. Estudos sobre o movimento dos olhos revelam que os enxadristas mais experientes identificam a área em que está a melhor jogada em apenas dois segundos.

O xadrez imita a vida. Você usa os mesmos 10 segundos que o prodígio norueguês Magnus Carlsen, campeão mundial aos 23 anos, para tomar decisões muito mais vitais do que fazer uma torre atacar o rei. Muito provavelmente você escolheu sua profissão, um companheiro para a vida e a casa onde mora em uma velocidade supersônica graças a uma faculdade misteriosa que vem ganhando cada vez mais atenção da ciência: o sexto sentido. Sim, alguns cientistas já estão mais confortáveis em usar o termo, pelo menos em textos menos acadêmicos, para definir a intuição: essa habilidade natural do cérebro, que ignora estatísticas e viola as leis da lógica para tomar decisões ultrarrápidas e não racionais.

A intuição quer dizer muita coisa ao mesmo tempo. A grosso modo, ela comporta três tipos de abordagem. A primeira – por onde começamos este texto – tem a ver com o processo de tomada de decisão, isto é, quando automatizamos tarefas altamente complexas como jogar xadrez ou tomamos decisões importantes que apenas “sentíamos” ser as mais corretas sem conseguir explicar por quê. A segunda perspectiva trata de uma intuição que flerta com o sobrenatural. São pressentimentos que surgem, do nada, de que algo irá acontecer – e, não raro, o fato realmente ocorre. A terceira forma enfoca a habilidade do ponto de vista emocional. Trata-se da capacidade de intuir o que os outros pensam e sentem – popularmente, podemos chamar isso de sabedoria. As três perspectivas aparecem misturadas o tempo todo. A seguir, vamos conhecer melhor cada uma.

Superando a razão

Desde a antiga Grécia, a razão nos define como espécie. Crescemos aprendendo que somos seres racionais e lógicos a maior parte do tempo. Nesse mundo de objetividade extrema, falar em palpites que surgem no vácuo, de conexões aleatórias que viram ideias geniais, de impressões como “não fui com a cara daquele sujeito” sem justificativa plausível, é tachado de esoterismo – ou de bobagem mesmo. Ponto. A ciência não tinha de se ocupar com isso. Até os anos 1990 funcionava assim.

Os cientistas que se arriscavam a estudar esse sentido mal compreendido da mente sentiam-se constrangidos. “Eu era criticado por sugerir que seria ok tomar decisões sem comparar opções”, lembra o psicólogo americano Gary Klein, em The Power of Intuition (O Poder da Intuição, sem edição em português). Nesta época, Klein até evitava usar o termo “intuição”, percebendo que seus colegas paravam de prestar atenção. Historicamente, esse tipo de percepção até contava com defensores da estatura de Albert Einstein e de Steve Jobs, que era avesso a pesquisas de mercado que pudessem pôr água nas suas criações intuitivas de gadgets perfeitos. Mas aí a discussão virava coisa de gênios, e o debate não avançava. Também era difícil aceitar alguém tentando explicar que você vai ficar mais feliz se não pensar muito antes de comprar um apartamento. Mas foi essa a conclusão de um estudo da Universidade de Amsterdã, publicado em 2009.

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Os pesquisadores aplicaram testes envolvendo compras hipotéticas, de apartamentos a produtos de higiene. Eles queriam comparar o grau de satisfação dos voluntários que escolheram o produto racionalmente, pesando prós e contras, com o de quem não teve tempo para pensar. Os mais satisfeitos estavam entre os que tomaram as decisões num sopetão. Vários estudos semelhantes foram feitos para comprovar essa vantagem e encontraram a mesma resposta. De compras de carro a de obras de arte, escolhas intuitivas ganhavam das racionais, pelo menos em deixar os consumidores mais contentes. Além disso, elas parecem ganhar de lavada da razão no mundo do trabalho. Um levantamento feito por Klein com oficiais do Exército dos EUA mostrou que a intuição foi usada em 96% das decisões. O mesmo se repetiu em gerentes de plataformas de petróleo, oficiais da Marinha e presidentes de empresas.

O curioso é que a intuição parece não ser coisa de novatos. O pesquisador em planejamento organizacional Eugene Sadler-Smith, da Universidade de Surrey, Inglaterra, reuniu executivos em diferentes estágios da carreira, desde os mais júniores até os sêniores. Smith avaliou como eles tomavam as decisões e qual era a participação da intuição ou da análise em cada uma delas. Entre os gestores no topo da carreira, a intuição foi para as cabeças, mas figurou como última colocada entre os novatos.

62% de executivos declararam recorrer à intuição – e que ela deveria ter o mesmo peso que os dados para tomar decisões

Fonte: Fortune Knowledge Group

O pensamento analítico não raro pode bagunçar as decisões. Shabnan Mousavi, um professor da Escola de Negócios da Universidade Johns Hopkins, EUA, perguntou a estudantes alemães e americanos qual era a maior cidade, Detroit ou Milwaukee, ambas nos EUA. Curiosamente, os alemães acertaram 90% das vezes enquanto entre os americanos o score foi de 60%. Qual é a explicação? Os alemães sabem mais? Provavelmente não. Eles apenas citaram a cidade de que mais tinham ouvido falar. Afinal, Detroit, a resposta correta, é bem mais conhecida dos estrangeiros do que Milwaukee. Um chute certeiro, no caso. Já os americanos, que tinham mais informações sobre as cidades, pararam para pensar. A razão entrou em cena, começou a vasculhar os arquivos de conhecimentos acumulados e atrapalhou a resposta.

Para os cientistas, há pelo menos dois motivos que fazem o sexto sentido ganhar a disputa. Ambos têm a ver com o modo de funcionamento do nosso cérebro. O primeiro é a pequena capacidade de processamento de informações da nossa consciência. Por pura falta de memória RAM, ela considera apenas uma parte dos dados relevantes na hora de fazer escolhas. Simplesmente ela não consegue lidar com estatísticas, previsões de mercado, gostos pessoais, orçamento doméstico e toda a gama de critérios envolvidos com uma decisão complexa, como é a compra de uma casa. E a atenção só piora conforme aumenta a quantidade de informação disponível. A partir do momento que temos sete alternativas para tomar uma decisão, nosso desempenho tende a cair. Isso já é sabido pela ciência há quase 60 anos, desde que o psicólogo americano George Miller publicou o artigo The Magical Number Seven, Plus or Minus Two: Some Limits on Our Capacity for Processing Information (sem tradução para o português).

29% é o percentual de executivos que priorizam a análise de dados nas tomadas de decisões

Fonte: PwC

O segundo motivo tem a ver com os pesos que o pensamento consciente dá aos critérios de escolha. A pessoa tenta racionalizar os motivos e acaba dando mais valor àqueles que consegue traduzir em palavras, mas que não são necessariamente os que mais importam para ela. Nessa hora, deixar o sexto sentido agir pode ser melhor. Isso porque ele é comandado pelo nosso inconsciente, que é muito mais vasto que o consciente. Pelo contrário, estima-se que ele ocupe 95% dos nossos processos cerebrais. É como uma enorme enciclopédia de desejos, emoções, dados e pensamentos que sabe de nós muito mais do que nós mesmos. Na hora da decisão, a mente faz conexões associativas entre a nossa experiência prévia, traumas, medos e desejos ocultos num piscar de olhos. Nesse momento, você sente um calafrio e uma certeza: “quero aquele apartamento de frente para o parque”. “Temos palpites que parecem surgir do nada, mas isso ocorre porque não estamos conscientes das associações e conexões que nos levaram até eles”, explica o psicólogo Gary Klein. Em Gut Feelings (“Intuição”, sem tradução para o português), o diretor do Instituto Max Planck para Desenvolvimento Humano, Gerd Gigerenzer, chama isso de “benefício da ignorância”. Não fosse isso, nossa consciência iria travar como um computador atolado de programas rodando simultaneamente.

Mesmo sem envolver a consciência, há inteligência no processo. E é claro que o sexto sentido está sujeito a erros de avaliação, mas Gerd Gigerenzer defende que essa habilidade misteriosa da mente tem sua própria racionalidade e é capaz de maquinações complexas. Imagine um jogador de basquete fazendo uma cesta de três pontos. Para acertar racionalmente, ele teria de calcular a trajetória da bola, que não é uma coisa fácil. Teria também que estimar sua distância até a tabela, a velocidade impressa no arremesso e o ângulo de saída da bola. Se estivesse num parque, precisaria levar em conta a resistência do vento. Mas ele não faz cálculo nenhum: suas mãos “sabem” o caminho da cesta. O psicólogo David Myers, autor de Intuition: Its Power and Perils (Intuição: Seu Poder e Perigos, sem edição em português), tem uma frase que ilustra bem essa situação de termos um manancial de conhecimento obscuro à nossa consciência: “Nós sabemos mais do que nós sabemos que sabemos.”

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