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Soberba

O pior dos pecados ou a maior das virtudes? A soberba virou o jogo e hoje é tão bem vista que é considerada uma característica dos vencedores

Fêcris Vasconcellos

A soberba é o pior dos pecados. Pelo menos para a igreja. Experimente, seja você religioso ou não, entrar em uma missa para observar o movimento. Verá que todos rezam de mãos postas, ajoelhados, cabeça baixa. Está na Bíblia: bem-aventurados os humildes. Na tradição católica, o próprio inferno surgiu da soberba, com a queda do então anjo vaidoso Lúcifer. “A soberba é a crença de que se poderia estar no plano sem a presença divina”, explica o doutor em ciência da religião Rodrigo Caldeira. Mas se os humildes ganham o reino dos céus, aqui, na Terra, o mundo é dos soberbos.

Da igreja, vá a um estádio de futebol, e observe o atacante, o zagueiro: ombros para trás, cabeça erguida. Não é apenas uma questão de postura. No futebol, crer – e levar o adversário a acreditar também – que é o melhor assusta e inibe o inimigo. E na vida também. “A sociedade contemporânea é mais narcisista e individualista. Um certo grau de arrogância e soberba é premiado”, diz o psiquiatra José Outeiral, membro da Associação Psicanalítica Internacional e especialista em crianças e adolescentes. Desde pequenos somos incentivados a trabalhar nossa autoestima, com, basicamente, uma única mensagem: você precisa se amar acima de todas as coisas – enquanto o primeiro mandamento avisa que quem deve ser amado acima de tudo é Deus.

Dá para ver de longe

Em campo, um time soberbo entra de salto alto. Imaginar a expressão pode servir para identificar os orgulhosos pelas ruas, mostram estudos reunidos no artigo A Naturalist¿s View of Pride (Uma Visão Naturalista do Orgulho, em tradução livre), de autoria dos pesquisadores Jessica L. Tracy, Azim F. Shariff e Joey T. Cheng, do Departamento de Psicologia da Universidade British Columbia, no Canadá. O soberbo anda literalmente de peito estufado, ombros jogados para trás, queixo erguido, braços dobrados a 90° e mãos postas sobre a cintura. No rosto, um sorriso constante, leve e sem mostrar os dentes, que mistura satisfação e desdém. Deu para visualizar direitinho, não?

O gestual do soberbo não é aprendido por imitação – estudos com atletas cegos durante as Paraolimpíadas mostram que eles repetem os mesmos movimentos dos outros soberbos. Também não muda conforme a cultura – arrogantes nos Estados Unidos, na Itália e no Burkina Faso adotam a mesma pose.

Este cenário levou cientistas a procurar – e encontrar – evidências de fatores biológicos para o orgulho. Os pesquisadores da Universidade British Columbia procuraram as regiões do cérebro que entram em alta atividade quando esse sentimento surge e descobriram que a manifestação física da soberba é encontrada também no córtex de primatas.

A maior probabilidade é de que, há milhares de anos, o orgulho e suas manifestações físicas tenham surgido como forma de intimidar rivais que tenham ameaçado o poder do líder. Seria uma resposta adaptativa a ameaças, uma forma rápida de mostrar quem manda aqui. Estar cheio de si significa poupar recursos que despenderiam energia – como a raiva – caso fossem usados toda vez que um novo competidor surgisse. Afinal, vá que o inimigo acredite que aquele gorila é mesmo superior.

Há consenso sobre onde, no cérebro, mora o pecado: é no lobo frontal – mais precisamente, no córtex pré-frontal – que se concentra a atividade neural quando nos achamos melhores do que outros. É a região mais associada à formação da personalidade – e a soberba está intimamente ligada a isso. É a mesma área com defeito em psicopatas. Lesões nessa região do cérebro, assim como o uso frequente de drogas, podem prejudicar as estruturas capazes de controlar o impulso de se ver como a última bolacha do pacote.

Muitas pesquisas foram feitas a respeito das relações entre a produção de hormônios e a soberba. Os pesquisadores Allen Mazur e Theodore A. Lamb, da Syracuse University, de Nova York, descobriram que em eventos positivos em que o mérito é do ser humano ocorreram aumentos consideráveis de testosterona, comprovando que o hormônio masculino é importante na formação dessa emoção.

Isso não significa, porém, que haja saída cirúrgica ou medicamentosa para extirpar o Napoleão Bonaparte dentro de você. O médico e neurocientista argentino Ivan Izquierdo duvida que exista uma abordagem apenas física ou química que possa garantir que o sujeito atinja um nível aceitável de orgulho próprio. Já para Daniel Martins de Barros, coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Hospital das Clínicas de São Paulo, mesmo que possa haver falha nos impulsos cerebrais, o pecado da soberba ainda está mais ligado à formação do caráter – sim, àquilo com que seus pais deveriam ter se preocupado na hora de ensinar que todos somos iguais. “O caráter é justamente essa possibilidade de você considerar o outro, levar em conta necessidades alheias, ser mais altruísta, menos egoísta. Existe alguma explicação biológica? Claro, nada no ser humano é puramente psicológico, mas nada também é exclusivamente biológico”, afirma.

Traço de líderes

Em algum momento entre 177 e 192 d.C., um imperador romano chamado Cômodo obrigou seu povo a adorá-lo como se fosse Hércules – o herói dos 12 trabalhos – e promoveu falsas batalhas em arenas para se exibir como gladiador. Não foi o primeiro líder a querer ser adorado como um deus, tampouco seria o último. A coleção de dominadores envolvidos pela vaidade tem gente que se entrega até no nome, como Alexandre, o Grande, o autoproclamado imperador Napoleão Bonaparte e ditadores sanguinários como Adolf Hitler e Mao Tsé-Tung.

Porém, o orgulho ilegítimo ou exagerado, segundo o artigo da Universidade British Columbia, também serve para equipar a mente para manter ou ampliar, a qualquer custo, o poder que conseguiu adquirir. Esse sentimento motiva comportamentos que promovem a reputação de um dominador, como agressividade, hostilidade e tendência ao conflito físico. A sensação de ser cheio de si se retroalimenta e, como poucas outras, nos faz sentir bem com nosso próprio ser. Por isso, é tão inebriante.

Insidiosa, a soberba se esgueira no cotidiano e ataca mesmo quem se esforça para não escorregar no pecado. Quem se define como simples e altruísta acaba se enxergando no topo de um pódio ao contrário – o mais humilde dos humildes é melhor do que os que não são tão humildes, correto? “A humildade extrema, fora do padrão, se colocando abaixo dos outros, e a soberba se colocando muito acima dos outros são faces da mesma moeda”, diz Martins de Barros. Até na Igreja o excesso de humildade é visto com desconfiança. O doutor em ciência da religião Rodrigo Caldeira concorda e resume: “É um soberbaço”.

A soberba premiada

Antes de respirar aliviado, atenção: deve haver um ditadorzinho dentro de você, e isso não é necessariamente ruim. Por não se permitir perder para o vizinho, o arrogante tende a aumentar seu desempenho em todas as atividades, o que pode servir de estímulo para fazer mais e melhor – afinal, não pode correr o risco de perder o motivo que originou sua soberba. Um exemplo é o vendedor que recebe elogios frequentes sobre sua performance – o profissional tende a se esforçar ainda mais e aumentar a produtividade – um caso de “quanto eu mais treino, mais sorte tenho”. Ou seja, é o orgulho gerando ainda mais orgulho.

É a mesma alavanca que motiva grandes especialistas, participantes de shows de talentos, atletas rompendo barreiras até o limite. Tudo para ver o seu nome sob holofotes. Tudo para ser alguém na multidão. O culto ao sucesso a qualquer custo e às celebridades torna a soberba uma patologia social. “Vivemos em uma sociedade narcísica, do espetáculo”, afirma o psiquiatra José Outeiral.

E não é errado sentir orgulho por seus feitos, porque há uma diferença entre o orgulhoso legítimo e o soberbo. “Quando o indivíduo está orgulhoso de si, mantém contato com a realidade e contextualiza esse orgulho dentro da percepção de que tem dificuldades, como todo mundo”, afirma Outeiral. Já o soberbo só vê qualidades no que faz, perdendo o senso crítico sobre si mesmo.

O orgulho genuíno é inconstante, ou seja, não é sentido o tempo todo, nasce de fonte específica (diz respeito a um evento) e é controlável (não patológico). A soberba é diferente: um sentimento constante, não ocorre a partir de nenhum evento específico – ele se acha o tal o tempo inteiro e não tem controle sobre essa superestimação de si mesmo. Outeiral completa: “Não há soberba normal. A soberba já é um sentimento exagerado”.

Quantas vezes você ouviu alguém afirmar que “Se você não se valorizar, quem vai”? A pessoa que não se acha ao menos um pouco melhor que os outros ou que se identifica como na média é frequentemente apontada como depressiva ou com baixa autoestima. Quando um paciente se enxerga no mesmo nível dos outros, há quem logo receite um antidepressivo, medida que pode se tornar perigosa. Outeiral ainda alerta para o perigo de haver uma virada maníaca, quando o remédio provoca a inversão da característica a ser combatida – transformaria um depressivo até em um eufórico descontrolado.

Se a causa é tão complexa, o tratamento também. O doutor em ciência da religião Rodrigo Caldeira acredita que o caminho a seguir seja uma vida mais ligada a Deus e à busca do perdão. Já os neurocientistas não apontam para o mesmo lado, obviamente. Para eles, que apostam que a soberba tem mais elementos comportamentais que neurológicos, a salvação está em um tratamento psicológico. Se hoje colocamos cada vez mais lenha na fogueira das vaidades, talvez buscar uma resolução eficaz para o caso seja impossível.

Já que parte da culpa pela soberba está na sociedade, parte no cérebro e parte na personalidade, estaríamos lidando com um pecado menos ou mais desculpável? Talvez essa seja a pergunta errada. A questão é aprender o limite no qual o peito estufado deixa de fazer a diferença para evoluir e, como aprendeu Lúcifer, nos empurra para a queda.

Demônio Lúcifer

O pior dos pecados só poderia ser representado pelo próprio coisa-ruim. Lúcifer, que era um dos mais bonitões anjos do Senhor, não queria servir a uma criação de Deus, o homem, e se rebelou, porque se achava mais especial. Sua soberba o levou a cair do céu, junto com seus seguidores, que se tornaram demônios. Conforme a interpretação cristã, a soberba leva à arrogância e ao desejo de glória, o que bloqueia a presença de Deus, um pecado que destruiria todas as virtudes – afinal, nada pode ser pior que querer ser superior ao próprio Deus.

Eu me amo
Dominador, agressivo, chefe à base da intimidação? Ou um líder nato? Confira qual o seu tipo de orgulho

ELE é O BOM

Seu chefe é centralizador, pensa que só ele é capaz de resolver problemas, ter ideias? Ele pode ser o soberbo clássico: o orgulho que sente de si não tem uma razão específica, é permanente e incontrolável.

Frase: “Sou bom neste assunto porque sou a pessoa mais inteligente que existe”.

Associado à personalidade: agressiva, líder à força.

PERTENÇO AOS DEZ MAIS
Aquele colega que é colaborativo e, mesmo dominando uma determinada área, é capaz de reconhecer os méritos dos demais e suas próprias falhas e qualidades, é também expert no “bom orgulho”: é instável (não é sentido o tempo todo), específico (diz respeito a um tema) e controlável.

Frase: “Sou bom neste assunto porque estudo sobre ele”.

Associado à personalidade: passiva, líder nato.

Pose de pavão
Barriga para dentro, peito para fora e ar de quem domina o ambiente: a pose da soberba também aparece nos primatas e em diferentes culturas

Leve sorriso
O sorriso do soberbo é também usado quando está diante de uma situação ameaçadora para demonstrar confiança.

Queixo erguido
Oposto da cabeça baixa do submisso, o queixo erguido também é uma forma de aumentar a estatura.

Peito estufado
A posição é similar à de chimpanzés antes e depois de derrotar um rival. A ideia é parecer maior e mais ameaçador.

Mãos na cintura
Para os primatas, as mãos na cintura servem para aumentar o tamanho frente ao inimigo. Já os punhos equivalem àquela batida no peito dos macacos.

E no cérebro?
Em situações dignas de orgulho, algumas áreas do cérebro são ativadas

Córtex pré-frontal medial
Lobo temporal esquerdo
Sulco temporal superior

Não posso mais viver sem mim
No poder e nas artes, o mundo está repleto de soberbos. E eles não costumam se dar bem no final.

Cômodo

Quando viveu? 161-192

Por que foi soberbo? Filho do imperador e filósofo Marco Aurélio, Cômodo chegou ao poder aos 16 anos compartilhado com o pai e, definitivamente, aos 19 anos. Era conhecido por amar a si mesmo e às lutas de gladiadores, em confrontos arranjados para sempre vencer. Modestamente, chamava a si de Hércules. Alterou o nome de Roma para Roma Colonna Commodiana.

Como terminou? A própria amante mandou estrangulá-lo.

Maria Antonieta

Quando viveu? 1755-1793

Por que foi soberba? Maria Antonieta fez a corte respeitá-la usando a personalidade forte. Inventou moda, mudando de cortes de cabelo, desafiou os costumes da monarquia em vários aspectos, inclusive escolhendo não dar à luz em público. Em plena Revolução Francesa, chamou a Áustria, seu país de origem, para defendê-la. Amava a própria aparência acima de tudo.

Como terminou? Guilhotinada em praça pública.

Napoleão Bonaparte

Quando viveu? 1769-1821

Por que foi soberbo? Aparece em todas as reproduções já feitas dele com os ombros para trás, leve sorriso e queixo erguido – a postura da soberba. Depois de algumas vitórias militares, Napoleão promoveu um golpe em 1799 para tomar o poder. Tornou-se imperador e começou uma expansão pela Europa com a desculpa de lutar contra todos os países que mantivessem relações comerciais com a Inglaterra.

Como terminou? Exilado em uma ilha.

Adolf Hitler

Quando viveu? 1889-1945

Por que foi soberbo? Depois de lutar na Primeira Guerra Mundial, associou-se ao que seria o Partido Nacional-Socialista Alemão. Quando foi indicado ao poder, instaurou uma ditadura e eliminou todos os seus inimigos. Estava tão convencido de que era a melhor resposta para reerguer a Alemanha pós-guerra que convenceu massas de que pertenciam a uma raça superior.

Como terminou? Com a guerra perdida, se matou.

John Lennon

Quando viveu? 1940-1980

Por que foi soberbo? Um exemplo de “soberbo do bem”, John Lennon criou, com Paul McCartney, a banda mais cultuada de todos os tempos. E teve de dar explicações por ter dito que era mais famoso que Jesus Cristo. Depois que os Beatles acabaram, seu novo objetivo era mudar o mundo – até protestando nu em uma cama, com a mulher, Yoko Ono.

Como terminou? Levou tiros na saída do prédio em que morava.

Para saber mais

A Naturalist View of Pride
Jessica L. Tracy, Azim F. Shariff, Joey T. Chang, University of British Columbia, 2010 http://abr.io/pride (em inglês)