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Como os personagens da Bíblia aparecem no Corão

Jesus, Maria, Adão, Eva, Moisés, Abraão, Davi. Eles também são personagens do livro sagrado do islã.

O anjo Gabriel procurou a Virgem Maria para anunciar a boa-nova do nascimento de Cristo e revelou para ela: “Allah te anuncia o Seu Verbo, cujo nome será Messias, Jesus, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro.”

A jovem, espantada, perguntou ao mensageiro divino: “Como poderei ter um filho, se mortal algum jamais me tocou? Disse-lhe o anjo: assim será. Allah cria o que deseja e, quando decreta algo, basta dizer: seja”.

Não fosse pelo nome “Allah”, a passagem acima poderia estar na Bíblia. Mas ela faz parte do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos.

Pode causar estranheza que vários versículos do Corão tratem das figuras centrais da fé cristã. Cristã e judaica: Adão, Moisés e outros heróis bíblicos são retratados em diversas passagens corânicas.

Algumas histórias possuem detalhes dramáticos que não constam no Velho Testamento: nem todos os filhos de Noé (Nuh, em árabe) puderam entrar na Arca. Um deles foi castigado por Allah com a morte na grande inundação.

Segundo a tradição islâmica, a saga dos muçulmanos começa justamente com aquele que os judeus têm como patriarca: Abraão (Ibrahim na versão árabe). Allah teria revelado um livro sagrado a Ibrahim (assim como faria séculos mais tarde com Maomé, ao ditar-lhe o Corão).

Mas este livro teria sido perdido. O Corão, então, seria a restauração desse livro antigo, e o Islã, um retorno à religião primordial abraâmica. “Abraão não foi judeu; foi, sim, monoteísta, muçulmano, e nunca se contou entre os idólatras”, relata um versículo corânico.

Outro desacordo está na negação de que Cristo seja uma encarnação divina na Terra. “Jesus Cristo foi uma criatura também”, diz o sheik Muhammad Ragip, da ordem sufi Halveti Jerrahi, em São Paulo.

“Cada profeta, e Cristo é um profeta para o Islã expressou qualidades específicas de Deus, o Ser infinito. A principal qualidade de Cristo foi a de ser imensamente puro. Ele foi um espelho perfeito da natureza divina”, completa.

A inclusão de personagens da Bíblia no Corão não é incidental, claro. O islamismo surgiu no século 7, mais de mil anos depois de os livros que compõem o Velho Testamento terem ganhado sua forma final, e 600 anos depois da composição dos textos do Novo Testamento, que dão base ao cristianismo. O islã é um amálgama entre tradições tribais árabes, judaísmo e cristianismo. Veja abaixo um pouco dessa mistura religiosa.

 

ABRAÃO

O centro da história de Abraão na Bíblia é o momento em que Deus lhe pede que sacrifique o próprio filho. No Corão, também. O filho oferecido no texto judaico é Isaac, que ele teve com Sara, sua esposa. Na versão islâmica o filho a ser sacrificado é outro, Ismael, que ele teve com sua escrava Hagar. A narrativa islâmica diz que os judeus são os descendentes de Isaac e os árabes, de Ismael.

O que o Corão diz: Abraão estava com 85 anos e não tinha filhos. Sua esposa Sara, já sem esperanças de gerar uma criança, entregou ao marido a escrava egípcia Hagar, para que ela lhe desse um descendente. Assim, nasceu Ismael. Quando o menino atingiu a adolescência, Allah impôs um teste a Abraão: sacrificar o filho preferido.

“Filho meu, sonhei que te degolava; que opinas?”, perguntou o velho homem. Respondeu-lhe Ismael: “Meu pai, faze o que te foi ordenado!” Quando ambos aceitaram o desígnio divino e Abraão preparava seu filho para o sacrifício, o Senhor o chamou: “Abraão, já realizaste a visão! Em verdade, assim recompensamos os benfeitores. Certamente que esta foi a verdadeira prova.” Depois de testar a sinceridade de Abraão, Allah anunciou que ele seria o patriarca de dois grandes povos. Um deles lhe seria próximo e descenderia de seu segundo filho, Isaac, a quem Sara, aos 90 anos, dera à luz.

O outro povo descenderia de Ismael, e lhe seria distante. Mais tarde, Allah mandou Hagar partir com Ismael para o deserto da Arábia, rumo a uma localidade chamada Meca. Ali, ela e o filho quase morreram de sede, até que milagrosamente viram nascer uma fonte de água chamada Zamzam. Depois disso, Abraão visitou a ex-escrava e o filho muitas vezes. Em Meca, construiu a Caaba, templo que se tornaria o epicentro do Islamismo (nota do editor: não se sabe a origem histórica da Caaba; a hipótese mais aceita é que se trata de um templo erigido por tribos árabes no local da queda de um meteorito – com o advento do islã, no século 7, o culto à caaba seguiu respeitado).

MOISÉS

Corão conta que, temendo ver o filho morto, a mãe de Moisés o abandonou num cesto às margens do Nilo. Salvo pela mulher do faraó do Egito, o israelita foi criado na corte. Após matar um homem, fugiu para a região de Midian, na península arábica, onde se casou e viveu durante algum tempo, até decidir libertar seu povo do cativeiro no Egito. Quem conhece a Bíblia sabe: é exatamente o que está no livro sagrado dos cristãos, incluindo a menção a uma terra na atual Arábia Saudita.

O que o Corão diz: Certo dia, ele disse à família: “Avistei fogo, trar-vos-ei notícias dele, ou trar-vos-ei as brasas, para acenderdes uma fogueira que vos aquecerá.” Quando, porém, se aproximou das sarças, ouviu uma voz: “Eu sou Allah, o Poderoso, o Prudentíssimo.” Moisés pensou em correr, mas Allah o repreendeu: “Não temas, porque os mensageiros não devem temer a Minha presença.” Assim Moisés recebeu o título de Kalimullah, aquele que fala com Deus diretamente, sem intermediação dos anjos.

ADÃO E EVA

Assim como a Bíblia, o Corão diz que Adão foi criado a partir do barro. Mas quando se trata do episódio da tentação por Satanás, as narrativas divergem. Segundo o livro sagrado dos muçulmanos, Adão e Eva comeram juntos o fruto proibido. Este ato, porém, não é encarado no Islã como pecado, e sim como parte natural da busca humana por conhecimento, representada pelo fruto. “Com essa experiência, Adão e Eva perderam a pureza primordial, mas obteve o discernimento que permite ao ser humano escolher entre a virtude e o pecado”, diz o sheik Muhammad Ragip. Ao nascer, todo ser humano refaz, em seu microcosmo, segundo a doutrina islâmica, a trajetória de Adão e Eva.

O que o Corão diz: “Do barro criarei um homem”, disse Allah. “Quando o tiver plasmado e alentado com o Meu Espírito, prostrai-vos ante ele”, ordenou aos anjos, que se prostraram, unanimemente. Uma única criatura angelical, porém, não se prostrou diante do homem criado, que se chamava Adão. Seu nome era Lúcifer. Ele se ensoberbeceu, e dali em diante passou a se contar entre os incrédulos. Foi Lúcifer, então chamado de Satanás, quem tentou Adão, sussurrando-lhe: “Adão, queres que te indique a árvore da eternidade e do reino eterno?” Adão e Eva comeram os frutos da árvore. Suas “vergonhas”, então, foram manifestadas e eles puseram-se a cobrir seus corpos com folhas das plantas do Paraíso. Adão desobedeceu ao seu Senhor, deixando-se seduzir. Mas logo o seu Senhor o absolveu.

DAVI

Na tradição  judaica, o rei Davi é um personagem dúbio. Trata-se de um estrategista militar brilhante e um político que levou Israel ao seu auge – consolidado pelo rei Salomão, seu filho e sucessor. Por outro lado, aparece retratado como um homem promíscu, e que comete abusos de poder. No Corão, porém, Davi é um homem sem máculas – mais ou menos como um santo do cristianismo.

O que o Corão diz: Maomé teria se chocado ao ler as passagens bíblicas que denegriam o rei de Israel. No Corão, estes trechos surgem como obra de escribas mal intencionado, que teriam alterado textos “originais”, mais amigáveis ao pai de Salomão: “Ai daqueles que copiam o Livro [a Bíblia], alterando-o com as suas mãos para negociá-lo a preço irrisório. Ai deles, pelo que suas mãos escreveram! E ai deles pelo que lucraram!”

JESUS E MARIA

Maria ocupa o topo da hierarquia espiritual feminina no Islã. Jesus, muitas vezes chamado de “Espírito da Santidade”, tem também um papel de destaque no Corão. A tradição islâmica diz, inclusive, que o nazereno retornará no fim dos tempos para criar um reino de paz na Terra, até o dia do Juízo Final.

O que o Corão diz: As dores do parto constrangiam Maria, e ela retirou-se para um lugar afastado. Sozinha, buscou refúgio junto a uma tamareira. Disse: “Quem dera eu tivesse morrido antes disso, ficando completamente esquecida.” Uma voz, porém, a chamou: “Não te atormentes, porque teu Senhor fez correr sob os teus pés um riacho. E sacode o tronco da tamareira, de onde cairão sobre ti tâmaras maduras e frescas.” Desta maneira, ela encontrou alimento e água e pôde dar à luz o Messias, chamado de “Jesus, o filho de Maria”. Deus falou à Virgem: “Ele (Jesus) ensinará a escrita, a sabedoria, a Torá e o Evangelho. E será um mensageiro para os israelitas.”

Com o beneplácito de Allah, Jesus apresentou uma série de sinais ao seu povo e disse: “Eis que plasmarei do barro a figura de um pássaro, na qual assoprarei, e a figura se transformará em pássaro; curarei o cego de nascença e o leproso; ressuscitarei os mortos, pela vontade de Allah, e vos revelarei o que consumis e entesourais em vossas casas. Eu vim para confirmar-vos a Torá, que vos chegou antes de mim, e para liberar-vos algo que vos estava vedado. Eu vim com um sinal do vosso Senhor. Temei a Allah, e obedecei-me. Sabei que Allah é o meu senhor e vosso. Adorai-O. Essa é a senda reta.” Diante da incredulidade entre seu povo, Jesus encontrou apoio nos discípulos, que disseram: “Nós seremos os colaboradores, porque cremos em Allah, e testemunhamos que somos muçulmanos”.