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Fomos em um tanque de privação sensorial – o mesmo que Eleven usa em Stranger Things

Fora das telas, eles são usados como uma “terapia” alternativa. Saiba como é estar em um deles.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 5 ago 2022, 16h11 - Publicado em 3 ago 2022, 11h57

Primeiro, ela coloca uma roupa estranha. Depois, entra em uma banheira e flutua sem fazer esforço algum. Os olhos ficam vendados e ela consegue focar totalmente em seus poderes psíquicos. É assim que um tanque de privação sensorial funciona para Eleven, em Stranger Things.

O tanque aparece logo na primeira temporada da série. O Dr. Brenner (chamado pela Eleven de “papa”) usa o recipiente para expandir as habilidades especiais das cobaias do projeto MK Ultra – crianças como Eleven. No tanque, os estímulos sensoriais externos são reduzidos, fazendo com que as cobaias foquem mais na própria mente e poderes.

Os amigos de Eleven até fazem um tanque de privação improvisado na primeira e quarta temporadas. Tudo que eles precisam é de uma banheira com água e quilos de sal dissolvidos. O sal aumenta a densidade da água, fazendo a garota flutuar – sem ele, Eleven precisaria fazer algum esforço para manter a cabeça fora da água, o que acaba com o propósito do tanque. Quando está flutuando, a personagem consegue “transportar” a mente para o mundo invertido ou mesmo para a cabeça de outras pessoas.

Imagem da Eleven de Stranger Things em um tanque de privação sensorial improvisado.
Netflix/Reprodução

Por mais que não possam fazer o mesmo na vida real, os tanques de privação sensorial existem. Na maioria das vezes, eles são usados para sessões de relaxamento, como se fossem uma câmara de meditação. Existem empresas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro que oferecem o serviço. E nós fomos conhecer.

Inibição dos sentidos

Já fazia tempo que eu queria ir em um tanque de privação sensorial. Ouvi falar deles pela primeira vez no início do ano, no vídeo de um jornalista americano que busca “trips” diferentonas (spoiler: não é isso que acontece no tanque). Depois de assistir ao último episódio da quarta temporada de Stranger Things, marquei uma sessão no Flutuar Float Center, em São Paulo.

O formato do tanque lembra um sapato Crocs gigante. A “tampa” pode ser fechada, o que elimina os estímulos de barulhos externos (ou quase isso: mesmo com protetores auriculares e tanque fechado, ouvi algumas ambulâncias passando pela movimentada Pedroso de Morais).

Foto de um tanque de privação sensorial.
Domínio público/Wikimedia Commons

 

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Com o som quase eliminado, qualquer barulho feito dentro do tanque parece ensurdecedor. Percebi isso ao engolir saliva pela primeira vez. Tomei um susto quando ouvi o ruído de cada músculo se movimentando para mover a água goela abaixo. (Quando minha barriga roncou, então, pareceu um trovão).

Lá dentro, é possível ligar uma luz azul ou ativar o modo “cromoterapia”, que fica alternando entre cores diferentes. Também dá para deixar tudo escuro, eliminando o estímulo visual também. De fato: com o tanque fechado e sem a luz colorida, não há diferença entre estar de olhos abertos ou fechados (a atendente do local chama essa parte de “experiência intrauterina”).

O sal utilizado na maioria dos tanques é o sulfato de magnésio, também conhecido como sal de Epsom. O sal em si não parece impactar a maneira como eu sinto a água – ele serve mesmo para aumentar a densidade do meio e me fazer flutuar com facilidade.

E bota sal nisso. A moça que me acompanha até o tanque informa que há 500 quilos de sal de Epsom ali – um quilo para cada litro de água. Eu lembro da série: no tanque improvisado construído por Mike e seus amigos na primeira temporada, eles colocam 680 quilos de sal em uma piscina de plástico.

Inicialmente consigo perceber qual parte do meu corpo está acima ou abaixo d’água, mas essa distinção vai ficando menos clara com o tempo. É uma sensação semelhante ao que já senti em algumas sessões de meditação guiada. De vez em quando, minhas mãos ou pés encostam nas laterais do tanque, o que dispara uma explosão sensorial pelo corpo. Em determinado momento, toco a minha barriga e percebo que a pele está extremamente sensível.

Mas e quando estou só flutuando, sem relar em nada? Sem estímulo visual, tátil auditivo, o que sobra é um turbilhão de pensamentos. Talvez seja necessário mais prática para atingir o estado de relaxamento proposto pela empresa, assim como acontece com a meditação. No meu caso, tudo que eu conseguia pensar eram em problemas pessoais, tarefas inacabadas e pendências para os próximos dias.

Em determinado momento, quis brincar de Eleven. Fingi me “transportar” para um outro lugar. Imaginei um ambiente que eu conhecia bem, mas que não visitava há anos: o shopping center da cidade em que cresci. Caminhei pelos corredores, vislumbrei as posições das lojas e até o rosto de alguns vendedores que eu conhecia na época. Fiquei intrigada por lembrar de tantos detalhes de um lugar que não visito há pelo menos dez anos.

Outra parte interessante é a completa falta de noção de tempo. Em alguns momentos, achei que já tinha passado mais de uma hora (a duração total da sessão); em outros, parecia que tudo aquilo tinha durado dez minutos. Quando recebi o aviso para sair do tanque, achei que ainda estivesse na metade da sessão.

No final, é preciso tomar um banho para tirar todo o sal do corpo. Me senti menos relaxada do que em uma sessão de meditação, mas definitivamente mais tranquila do que se tivesse gastado essa hora mexendo no celular. Posso imaginar como alguém com poderes psíquicos consiga focar melhor em um tanque desses. Para mim, só deu um boost interessante para começar mais um dia de trabalho.

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