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Como a erupção do Krakatoa pode ter dado origem a “O Grito”, de Munch

As nuvens laranjas da obra de Edward Munch são um pôr do Sol real registrado no diário do pintor norueguês – e a meteorologia tem duas explicações para ele

Por Bruno Vaiano Atualizado em 27 ago 2021, 16h46 - Publicado em 24 abr 2017, 19h27

Um grupo de pesquisadores dedicou um artigo científico inteiro a explicar algumas das nuvens mais famosas (e assustadoras) da história da arte: a massa laranja atrás do homem desesperado na pintura O Grito, do norueguês Edvard Munch.

É claro que esse céu apocalíptico não precisa ter existido na prática – a graça das artes plásticas é que a nuvem que você pinta pode ser da cor que você quiser. Mas há bons motivos para acreditar que o laranja não seja só imaginação.

A hipótese atmosférica mais famosa sobre O Grito data de 2003, e envolve a explosão do vulcão Krakatoa na Indonésia em 1883 – uma das maiores erupções da história moderna, contemporânea do quadro.

Naquele ano, o vulcão em si e os tsunamis subsequentes vitimaram pelo menos 36 mil pessoas. Passada a pior parte, uma enorme quantidade de dióxido de enxofre (SO2) pegou carona nos ventos de grande altitude, e a substância se espalhou por toda a atmosfera. Reações químicas posteriores com o novo “ingrediente” aumentaram a concentração de ácido sulfúrico (H2SO4) em nuvens Cirrus, que passaram a refletir a luz do Sol com mais intensidade.

Resultado? Uma queda de 1,2 °C nas temperaturas médias do Hemisfério Norte no verão daquele ano – e meses à fio com o pôr do Sol mais bonito da história registrada (a estrela chegou a ficar púrpura ou lavanda em certas regiões). O fenômeno diário cessou lentamente, conforme todo o ácido sulfúrico caia em forma de chuva ácida, e o céu só voltou ao normal em fevereiro de 1884, quase um ano depois.

Em uma curta matéria publicada na Reuters em 2003, astrônomos vão ao ponto de Oslo, capital da Noruega, em que Munch observou a cena que inspirou sua pintura – e encontram bons motivos para acreditar que o vulcão tem culpa no cartório artístico.

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“É muito satisfatório estar no exato ponto em que o artista teve essa experiência”, afirmou, na época, Donald Olson, da Universidade do Texas. “A real importância de encontrar o lugar, porém, era determinar o ângulo e a direção do olhar na pintura. Nós verificamos que Munch olhava para o sudoeste – exatamente onde apareceram os crepúsculos do Krakatoa no inverno de 1883.”

Dito isso, caso encerrado, certo?

Não, é óbvio. Mais de dez anos depois, nesta segunda-feira (24), um artigo apresentado em uma reunião da União Europeia de Geociências em Viena contesta a teoria explosiva com uma explicação mais amena: uma rara aparição de nuvens estratosféricas polares, conhecidas em inglês como “nuvens de madrepérola” pela maneira peculiar como refletem a luz.

Típicas do inverno em regiões próximas dos polos, elas são onduladas, e batem com precisão com as anotações no diário do pintor. Em um coletiva de imprensa, Helene Muri, da Universidade de Oslo, afirmou: “crepúsculos com cor de fogo perduram por anos após a erupção. Já a visão de Munch, da forma como é descrita em seu diário, foi uma experiência única em sua vida.”

Segundo ela, cientistas que documentaram o fenômeno em 2014 também ficaram de queixo caído com a felpuda psicodélica. “São tão bonitas que você pensa que está em outro mundo.”

É difícil desempatar a disputa. Há lindas fotos das madrepérolas no céu – mas não há boas imagens do pôr do Sol pós-Krakatoa, o que torna a comparação impossível. Na dúvida, fique com a imagem abaixo, de uma nuvem estratosférica polar sobre a Antártida.  

A foto mostra um fenômeno atmosférico raro que deixa as nuvens com uma aparência ondulada e multicolorida.
Alan R Light | CC BY 2.0/Reprodução
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Cultura
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