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O que aconteceu com a Hollywood brasileira?

Há 20 anos, Paulínia, no interior de São Paulo, investiu milhões de reais para erguer um polo cinematográfico. Hoje, a maior parte está abandonada.

Por Bela Lobato
19 fev 2026, 14h00 • Atualizado em 19 fev 2026, 16h37
  • Nos anos 2000, uma cidade no interior de São Paulo mobilizou um plano ambicioso. No começo, a Prefeitura fazia exibições gratuitas de filmes em DVD. Depois, vieram os cursos livres de cinema e teatro. Logo havia peque nas mostras, palestras com diretores consagrados – e os canteiros de obras.

    Um supermercado virou estúdio de cinema. E, bem na frente da nova Prefeitura, num lote de 12 mil m², foi erguido um cubo de vidro. A fachada destoava do resto da construção: seis pilares decorativos em estilo clássico, a pedido do prefeito. Em cima da enorme porta, um letreiro em uma fonte à la Roma Antiga: “Theatro Municipal de Paulínia”.

    Paulínia fica a 20 km de Campinas e a 117 km de São Paulo. Na época, tinha 80 mil habitantes (hoje, são 116 mil). O município abriga a Replan, maior refinaria de petróleo do Brasil em capacidade de processamento. A empresa é a principal responsável pelo fato de a cidade ter o quarto maior PIB per capita do País. Em termos absolutos, ela é mais rica do que 17 capitais brasileiras.

    O teatro, também voltado para a exibição de filmes, ficou pronto em 2008. O então prefeito, Edson Moura, dizia que era necessário diversificar a economia municipal e se preparar para o inevitável fim do petróleo. Se mesmo hoje muitos países resistem à transição energética, 20 anos atrás, no interior de SP, essa argumentação era, no mínimo, ousada.

    Mas o orçamento permitia certas extravagâncias. Foram R$ 89 milhões na construção do teatro (R$ 281 mi, em valores atuais), e mais outros tantos milhões nos estúdios, festivais, cursos e editais de financiamento.

    Na noite de inauguração do teatro, em 2008, os primeiros resultados pareciam estar à altura do investimento. Ao contrário do clima pacato rotineiro da cidade, estrelas do primeiro escalão do cinema e da TV brasileira desfilavam pelo tapete vermelho.

    Dentro do teatro, o clima era de encanto com os 1.300 lugares e com os sistemas de som e acústica, que estavam entre os melhores da América Latina. A mestre de cerimônias, Fernanda Montenegro, disse: “Ainda que possua igreja, hospital, saneamento, uma cidade sem teatro não é cidade. Paulínia é Paulínia a partir deste teatro”.

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    Foi o início de uma mudança brusca na cidade, que chegou a ser considerada uma Hollywood brasileira (ou Pauliwood, para os admiradores), mas que não se sustentou. Essa é a história de um fenômeno que foi cenário de filmes famosos, palco de estreias históricas e que entrou para o mapa da indústria cinematográfica nacional quase tão rápido quanto sumiu.

    Trajes de gala

    Em uma noite gelada de julho de 2011, 2 mil pessoas se empoleiravam na frente do Theatro Municipal para o segundo dia do 4º Festival Paulínia de Cinema. Parte da plateia do filme anterior se recusava a liberar os assentos, e um tumulto do lado de fora começava a crescer.

    O motivo do caos: às 21h haveria a sessão de estreia de O Palhaço, longa-metragem dirigido e estrelado por Selton Mello – e que foi gravado, em grande parte, no polo de Paulínia.

    A solução foi anunciar uma sessão extra às 23h. No dia seguinte, uma ter ceira sessão se esgotou novamente, às 11h. “Estou colocando um filho no mundo”, disse Selton Mello ao Correio Popular de Campinas, logo depois da première. “Foi a melhor sessão de cinema da minha vida.”

    Selton não era o único empolgado. “É chato dizer isto, mas a cidade, pela riqueza, não parece estar no Brasil. É outro país, um Brasil que deu certo”, disse o cineasta Fernando Meirelles, em 2006, ao ser convidado pelo prefeito para “conhecer o projeto e dar palpites”. “Acho que não existe um teatro igual a este no Brasil”, disse o ator Rodrigo Santoro em 2008.

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    A acústica foi projetada pelo mesmo escritório que se encarregou da Sala São Paulo, na capital pau lista, considerada uma das mais modernas salas de concerto do mundo. O sistema de som, por sua vez, era da THX, marca de George Lucas e reconhecida pela fidelidade do áudio.

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    Além disso, foram construídos quatro estúdios de gravação e um grande estúdio de animação. Trabalhadores do ramo se mudaram para desbravar o local que prometia descentralizar uma indústria focada no eixo Rio-São Paulo.

    A essa estrutura se somavam os festivais anuais, com filmes selecionados por um comitê independente. Eles concorriam pelo Troféu Menina de Ouro, além de um prêmio em dinheiro (no primeiro ano, foram R$ 650 mil, distribuídos em 41 categorias).

    O que também atraía os profissionais do ramo eram os incentivos para produção. Usando o orçamento turbinado pela Replan, a prefeitura criou chamadas públicas para propostas de filmes. O primeiro edital distribuiu R$ 9 milhões (R$ 26 mi atuais) entre dez projetos (1). O valor não era suficiente para financiar um filme inteiro, mas era um complemento para tirá-los do papel.

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    A grana saía dos cofres do Fundo Municipal de Cultura, que recebia 1,5% da arrecadação de dois impostos sobre mercadorias e serviços (o ISS e o ICMS). Em 2009, esse pedacinho era de R$ 15 milhões anuais. O valor representa R$ 43 mi de hoje – o que equivale ao orçamento de 2026 da SPCine, órgão de fomento ao audiovisual da cidade de São Paulo (2).

    Os projetos seleciona dos podiam usar os estúdios de Paulínia, monta dos por meio de parceria público-privada e seguindo o padrão dos melhores estúdios do RJ e de SP. A contrapartida era que as produções precisavam gastar 50% da verba na cidade e gravar, no mínimo, entre 25% e 50% das cenas na região.

    Quanto custa um filme

    Para fazer um longa-metragem, leva-se anos e há centenas de profissionais envolvidos, direta ou in diretamente. O plano de Paulínia era fazer a verba do audiovisual girar a economia local. O cadastro de figurantes, por exemplo, tinha mais de 2 mil pessoas. Restaurantes se adaptaram para servir aos bastidores das gravações, e um hotel começou a ser construído.

    Cada uma dessas etapas envolvia o recolhimento de impostos. Assim, o dinheiro investido voltava aos cofres públicos. É essa lógica que orienta os instrumentos de fomento à cultura no Brasil, mesmo que com diferentes fins e origens da verba.

    Um exemplo: com a Lei Rouanet, sancionada em 1991, o Estado permite que uma parcela do que uma empresa pagaria em impostos seja usada para financiar um projeto cultural escolhido por ela (eventos, exposições, curta-metragens… A lei não inclui longas de ficção, diga-se). Um relatório da FGV sobre a Rouanet apontou que, a cada R$ 1 investido dessa forma, R$ 7,59 circulam na economia – e R$ 1,39 chegam diretamente aos cofres públicos (3).

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    Embora suscitem polêmicas constantemente, as políticas de financiamento de cultura não são invenção brasileira. Vários países adotam esse tipo de medida, sobretudo para proteger a indústria interna da dominância de Hollywood.

    Ao perceberem o poder político e econômico do cinema, alguns países começaram a tratá-lo estrategicamente. A histórias do cinema francês e do sul-coreano – que se destacam no cenário internacional – é marcada pelas cotas de telas. Por décadas, seus governos delimitaram porcentagens mínimas de sessões que deveriam ser reservadas para filmes nacionais (o Brasil também adota cotas de tela, que variam entre 7,5% e 16% das exibições).

    Outro incentivo comum é o cash rebate. Se uma produção escolhe gravar em determinado lugar, o governo local de volve entre 20% e 40% do que foi gasto na produção.

    Budapeste, na Hungria, tornou-se uma das cidades mais filmadas da Europa ao investir em infraestrutura de ponta e crédito fiscal. Não só ela: conjuntos de incentivos, aliados à oferta de mão de obra mais barata que a de Hollywood, têm levado um número maior de produções a filmar no Canadá, no Reino Unido, na Alemanha… Na última década, o número de produções gravadas em Los Angeles caiu um terço.

    O plano original de Moura era tornar Paulínia parte desse clubinho. Os conselheiros do prefeito o convenceram a ir devagar e estabelecer uma base firme, para só depois mirar em atrair produções que pagassem em dólares e euros. Mas não deu tempo.

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    Tudo o que você podia ser

    Quem visita Paulínia hoje sente na boca o gosto do que poderia ter sido. Bem em frente à Prefeitura, o teatro é um elefante branco: está fechado desde a pandemia, tem vidros quebrados, teto interno despencando, goteiras e pilastras tomadas pela ferrugem.

    As escolas de cinema não existem mais. O estúdio de animação deu lugar a um espaço da Prefeitura para formação de professores.

    Alguns prédios que fariam parte do complexo nunca chegaram a ser utilizados para seus fins originais. Viraram uma delegacia e um Poupatempo (órgão do governo paulista de atendimento aos cidadãos). Já o hotel que começou a ser constru ído para atender à nova demanda só ficou pronto em 2015, quando já não havia rastro do boom de quatro anos antes.

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    (Vanessa Gomes/Superinteressante)

    Os estúdios são uma exceção. A empresa que os construiu – a Quanta, que é dona de outros grandes estúdios no Rio e em São Paulo – manteve a manutenção em dia durante os últimos 14 anos.

    Em entrevista à Super, o sócio-diretor da Quanta, Hugo Gurgel, disse que os estúdios estão em plena condição de uso – o que depois confirmamos em uma visita às instalações. Gurgel, porém, relata que é difícil atrair produções para a cidade.

    Mas, afinal, como é que o plano esboçado na gestão Moura deu errado? Para entender como o cinema da cidade foi de um clima de euforia e esperança para esse baixo astral, vamos voltar no tempo.

    Os primeiros quatro festivais de Paulínia aconteceram com sucesso e alcance progressivo. Mesmo que a iniciativa tenha começado caríssima, por conta da estrutura montada do zero, os custos diminuíam a cada ano – e os patrocínios privados só cresciam.

    Mas, para muitos paulinenses, os retornos de toda a empreitada não eram imediatos nem óbvios. Muitos ainda não enxergavam uma mudança na qualidade de vida que justificasse o tamanho do investimento.

    Em 2012, a Prefeitura estava nas mãos de um adversário político de Edson Moura, José Pavan Jr. Ele pegou a todos de surpresa quando, em uma reunião com jornalistas, anunciou a suspensão temporária dos editais e do festival, alegando que o custo era alto demais, que faltava patrocínio e que o dinheiro seria redirecionado para políticas sociais, como saúde e educação.

    O prefeito sustentou a sua decisão em meio à repercussão nacional e uma enxurrada de críticas. Uma frente com posta por cineastas, críticos e produtores tentou viabilizar uma edição do festival somente com verbas privadas, sem sucesso.

    A decisão de Pavan Jr. de redirecionar os gastos para políticas públicas não fazia tanto sentido diante da administração pública. Um governo não pode passar dinheiro de uma pasta para outra num passe de mágica. Orçamentos municipais são definidos pela Prefeitura e pela Câmara com antecedência e cheios de regras e procedimentos.

    À Super, a Prefeitura de Paulínia não soube informar se realmente houve uma mudança no direcionamento das verbas naquela época. Mas o orçamento previsto para 2026 (4) dedica proporcionalmente menos dinheiro aos setores de assistência social, saúde, trabalho, educação, cultura, urbanismo e esporte do que o que foi efetivamente gasto em 2009 (5), no auge do festival.

    Embora seja dona do maior PIB per capita do estado de São Paulo (6), as escolas públicas de ensino fundamental de Paulínia ocupam a posição 331º no ranking estadual (de 645 municípios) (7), e de mortalidade infantil, 158º (8) – dois indicadores importantes de educação e saúde.

    A Prefeitura de Paulínia foi palco de sucessivas mudanças de rumo motivadas por investigações, cassações, liminares e brigas entre aliados. Entre 2009 e 2019, foram 16 trocas de prefeitos.

    Um ano após o anúncio do fim do festival e dos editais, Pavan Jr. foi afastado do cargo. A posição foi ocupada pelo filho de Edson Moura, Edson Moura Jr. Em oito meses, ele promoveu apressada mente mais dois festivais – um deles, internacional – e abriu um novo edital para longas.

    Mas a retomada durou pouco: Pavan Jr. regres sou ao cargo em 2015 e suspendeu as políticas de cinema de forma definitiva – decisão que permanece até hoje.

    O orçamento de cultura de Paulínia ainda é mais robusto do que o da imensa maioria dos municípios brasileiros. Atualmente, essa grana vai sobretudo para cursos de dança e música para a população, além de shows de grande porte, que costumam acontecer no sambódromo da cidade. Mas só na pista: é que as arquibancadas estão comprometidas e não podem ser usadas.

    Outra opção para receber atrações fica ao lado do teatro, em um terre no descampado onde a prefeitura ergue toldos temporários. Em 2023, um vendaval durante um show de música sertaneja levou embora toda a estrutura – e, em pânico, o público quebrou os vidros do teatro em busca de abrigo. Fazia anos que o espaço não via tanta gente ali dentro.

    Em entrevista à Super, a atual secretária de Cultu ra, Turismo e Eventos de Paulínia, Andréia Perini, disse que estuda formas de retomar os editais e de revitalizar o teatro e o sambódromo. Ainda não há, entretanto, planos concretos.

    “Comida, diversão e arte”

    Desde o início dessa saga, apoiadores apontavam que o Festival de Paulínia e os editais de fomento eram frágeis, porque eram vinculados a um único mandato, e não a uma política de Estado mais robusta. Transferir essas políticas para uma fundação ou programa estatal poderia ter sido decisivo para que Pauliwood durasse.

    Seria um caminho possível, mas longe de ser fácil. Ainda hoje, há quem olhe torto para investimentos em cultura. Mas a verdade é que existem várias formas de distribuir fomentos para o audiovisual – que é, também, uma indústria (no País, o setor movi mentou em 2024 R$ 70,2 bilhões e gerou mais de 600 mil empregos)(9).

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    (Vanessa Gomes/Superinteressante)

    No Brasil, desde 2008 o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) usa impostos de empresas de audiovisual e telecomunicações para financiar produções – plataformas de streaming serão incluídas na conta em breve. Ele é gerido pela Ancine (Agência Nacional do Cinema, vinculada ao Ministério da Cultura), que envia a grana para os escolhidos via edital.

    Os projetos selecionados precisam prestar contas detalhadas, e uma parte do lucro volta para o FSA. É uma forma de o setor se autoalimentar.

    Essas políticas ajudam a roda da economia a girar, mas não só. Um filme começa com um bocado de ideias, tomadas e contratos, e acaba de frente para um monte de desconhecidos que, com a boca cheia de pipoca, podem se emocionar, aprender e encontrar inspiração.

    No fim, é essa pulsão de interesse pelo nosso mundo que movimenta os desejos individuais, as referências e a cultura em si. Das telas surgem sonhos, piadas, fantasias de Carnaval – e, de vez em quando, um Oscar.

    A experiência nacional e internacional mostra que tratar o fomento à cultura como política de Estado pode ser um bom negócio. O futuro do polo de Paulínia é incerto. Mas discutir estratégias que envolvam o poder público (e atraiam a iniciativa privada) é um bom jeito de recomeçar. Não é preciso muito, nesse caso. Afinal, a parte mais difícil era construir a infraestrutura, e o teatro e os estúdios já existem. Que eles ecoem aplausos, e não o silêncio.

    Fontes: livro Paulínia: Uma história de cinema; (1) notícia “Festival de Paulínia atrai nata do cinema brasileiro com prêmios milionários”, da Folha de S.Paulo de 14/07/2009; (2) Lei Municipal de São Paulo, Nº 18.377, de 29 de dezembro de 2025; (3) relatório “Impacto econômico da Lei Rouanet”, da Fundação Getulio Vargas; (4) Lei Municipal de Paulínia Nº 4666, de 22 de dezembro de 2025; (5) artigo “A territorialização do polo cinematográfico de Paulínia, São Paulo”; (6) IBGE, 2023; (7) INEP, 2023; (8) Datasus, 2023; (9) relatório “A contribuição econômica da indústria audiovisual no Brasil em 2024”.

    Agradecimentos: João Nunes, jornalista e autor do livro Paulínia: Uma história de cinema; Maria do Rosário Caetano, jornalista da Revista de Cinema; Marina Rodrigues, consultora de editais e políticas públicas de audiovisual; Ivan Melo, produtor de cinema e ex-diretor do Festival Paulínia de Cinema; Hugo Gurgel, sócio-diretor da Quanta; Thiago Amaro, diretor do departamento de comunicação da Prefeitura de Paulínia; Andréia Perini, secretária de Cultura, Turismo e Eventos de Paulínia.

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