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Os artigos que já foram recuperados dos escombros do Museu Nacional

Crânio de Luzia, de 12 mil anos, e meteorito avaliado em R$ 3 milhões estão na lista. Pesquisadores devem iniciar as buscas após perícia do local

O incêndio que tomou conta do Museu Nacional do Rio de Janeiro na noite de 2 de setembro destruiu 90% de seu acervo, composto por mais de 20 milhões de itens. Após as chamas consumirem o local durante seis horas, dois andares desmoronaram sobre o térreo e 80% da estrutura foi comprometida.

Laboratórios de pesquisa foram perdidos e coleções inteiras, agora, são apenas história não documentada. Neste artigo, a SUPER contou a trajetória de algumas das principais relíquias que viraram cinzas – neste outro, falamos especificamente sobre a coleção de múmias do museu.

Não se sabe ao certo, porém, as dimensões totais do estrago. “Infelizmente, ainda não conseguimos mensurar o dano total ao acervo, mas precisamos mobilizar toda a sociedade para a recuperação de uma das mais importantes instituições científicas do mundo”, afirmou Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, em carta aberta aos presidenciáveis divulgada em 17 de outubro.

Quase dois meses após a tragédia, o trabalho de restauração do prédio e recuperação do arquivo não começou. Isso porque a Polícia Federal ainda continua trabalhando na perícia do local. Há ainda, uma empresa terceirizada, contratada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que faz a gestão do museu, para escorar a estrutura e fazer uma cobertura provisória no Palácio de São Cristóvão. A ideia é diminuir, assim, o risco de desabamentos.

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Ainda que não haja uma expedição formal no interior do Museu com o intuito de resgatar itens dos escombros, já é possível cravar que itens importantes sobreviveram ao fogo. Algumas peças estavam no caminho dos bombeiros e das equipes que entraram para fazer o reconhecimento da área.

Nesse grupo, estão os meteoritos que ficavam exposotos na entrada. Coube à pesquisadora Elisabeth Zucolotto, que já havia recolhido outros 30 fragmentos de meteoritos no dia anterior ao incêndio, encontrar o mais valioso deles. O Angra dos Reis, pedaço de rocha espacial de 65 cm e 4 bilhões de anos encontrado no Rio de Janeiro, tem valor estimado de R$ 3 milhões.

Tudo por conta de sua raridade: de tão única, a descoberta do “Angra” inaugurou uma série nova de classificação de meteoritos, batizados, em sua homenagem, de “Angritos”. Cobiçada por mercadores de rochas, a peça chegou a ser furtada em 1997 – mas recuperada antes que os ladrões deixassem o país.

Outro meteorito, o Bendegó, também aparece na lista de sobreviventes. Trata-se do maior exemplar já encontrado no Brasil, pesando mais de 5 toneladas e com idade avaliada em 4,5 bilhões de anos. Ainda no acervo geológico, há exemplares de minerais da primeira coleção do museu, a Coleção Werner, que também resistiram ao fogo.

Um dos achados mais comemorados, no entanto, vem da área de antropologia: o crânio e parte do fêmur de Luzia, considerada a “primeira americana” e que propiciou novas teorias sobre a ocupação do continente.

Os fósseis têm 12 mil anos e foram encontrado em 1975 na região de Lagoa Santa, Minas Gerais. 80% deles já foram identificados como pertencentes a Luzia. O restante ainda passa por um trabalho de limpeza.

Completam a lista de itens encontrados partes de um dinossauro que, segundo especulam os pesquisadores, pode pertencer ao Maxakalisaurus topai. Com 13 metros de altura, esse gigante herbívoro viveu na América do Sul há 80 milhões de anos.

Os artigos recuperados estão em processo de triagem e catalogação por profissionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fala-se que 25 pessoas trabalhem, atualmente, na tarefa. Segundo reportagem do jornal O Globo, a relação dos objetos, por recomendação da Polícia Federal, não será divulgada no momento.

A previsão é de que as operações de resgate de peças levem pelo menos até o fim do ano para serem concluídas. A reconstrução do palácio só poderá começar após o término desse trabalho.

Em entrevista ao Nexo Jornal, a historiadora do Museu Nacional e pesquisadora da história da instituição Regina Dantas, estimou que existam cerca de dois milhões de itens, em lotes ou coleções, que não se perderam. Apenas 1% dos 20 milhões de artigos estavam expostos ao público.

De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o processo de restauração do Museu Nacional levará cerca de dez anos.