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Oscar: como irão funcionar as novas regras de inclusão?

Com novas diretrizes para a categoria de Melhor Filme, a Academia tem como objetivo deixar Hollywood mais diversa – mas as alterações no regulamento são menos impactantes do que parecem.

Por Carolina Fioratti - 10 set 2020, 18h47

Não é de hoje que o Oscar sofre críticas devido à falta de diversidade em suas premiações. Em 2016, a campanha #OscarsSoWhite (“Oscar Tão Branco”) ganhou força após nenhum ator ou atriz negro(a) ou latino(a) ser indicado às principais categorias. Desde então, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Ampas, na sigla em inglês) têm revisto seus conceitos para tornar a cerimônia mais inclusiva.

Um novo passo foi dado na última terça-feira (8), quando foram publicadas as novas regras de representação e inclusão que as produções terão que seguir para concorrer ao prêmio de Melhor Filme a partir de 2024.

Novas regras de inclusão

Para começar, é importante ressaltar que o filme deverá atender a, no mínimo, dois dos quatro padrões para participar da competição. Todas essas diretrizes envolvem grupos sub-representados, como mulheres, LGBTQI+, pessoas com deficiências cognitivas ou físicas e grupos étnicos (asiáticos, latino-americanos, negros, indígenas, havaianos, pessoas do Oriente Médio, norte da África, entre outros).

O primeiro padrão, chamado de padrão A, abrange três critérios. Para se encaixar no primeiro critério, pelo menos um dos atores principais ou coadjuvantes relevantes devem se encaixar em algum grupo étnico sub-representado. No segundo critério, 30% do elenco secundário, no mínimo, deve se encaixar em dois dos grupos sub-representados. Já no terceiro, o tema principal do filme deve se centrar em um desses grupos.

Mas vale dizer: basta cumprir apenas um dos critérios para que o filme se enquadre no padrão A. 

O padrão B é mais relacionado com quem está por trás das câmeras. Ele também conta com três critérios – assim como o A, só é necessário cumprir apenas um deles. O primeiro critério diz respeito aos líderes criativos e chefes de departamento, desde diretores, editores e produtor até figurinistas, maquiadores e cenógrafos. Para validá-lo, deve-se ter, pelo menos, dois profissionais de grupos sub-representados.

Para o segundo critério, ao menos seis cargos técnicos, como o de supervisor de script, devem ser preenchidos por alguém que pertença a esses grupos. No terceiro, 30% da equipe, no mínimo, deve atender a esse requisito. 

No padrão C, uma diferença: os dois critérios devem ser necessariamente seguidos. O estúdio precisa oferecer oportunidades de estágio remunerado à pessoas de grupos sub-representados e deve disponibilizar oportunidades de treinamento e capacitação para este mesmo público. 

Por fim, temos o padrão D, com apenas um critério: representação nas áreas de marketing, publicidade e distribuição. Para este padrão, não foram especificados números ou porcentagem de profissionais nas equipes.

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Vale ressaltar: apenas 50% padrões devem ser seguidos e em, alguns deles, não é necessário se encaixar em todos os critérios. Fora que as regras valem apenas para o prêmio de Melhor Filme.

Vencedores Anteriores

Há alguns filmes que nem precisamos olhar muito a fundo para saber que, mesmo com as novas regras, poderiam ser indicados ao Oscar de Melhor Filme. O vencedor sul-coreano de 2020, Parasita, e o indicado mexicano de 2019, Roma, são alguns exemplos. Mas será que todos os filmes do Oscar começarão a fazer mudanças drásticas? Não necessariamente. 

O Irlandês, de Martin Scorsese, não perderia sua indicação – mesmo que seu elenco seja majoritariamente branco. Por trás das câmeras, havia mulheres nos cargos de produtora, diretora de elenco e a editora, sem falar no diretor de fotografia, que é mexicano.

Além disso, o filme foi financiado e distribuído pela Netflix, empresa com foco na diversidade e inclusão, que abrange em sua equipe executiva muitas mulheres e pessoas não brancas. Adoráveis Mulheres, Senhor dos Anéis, 1917…Todos atendem aos requisitos. Até Green Book, que recebeu críticas por sua visão branca sobre o racismo, passaria pelo crivo.

Mudança?

Com a notícia das novas medidas, muita gente questionou a função delas (uma vez que boa parte das produções já se enquadram nos critérios). Basicamente, o objetivo da Academia é institucionalizar e tornar regra algo que já vem acontecendo aos poucos. Por mais que isso já aconteça em alguns filmes, as normas servem como um lembrete para os estúdios sobre a importância de inclusão em todos os setores.

As novas diretrizes passam a valer em 2024, mas antes disso, estúdios que indicarem produções para Melhor Filme deverão entregar antecipadamente um formulário confidencial dos Padrões de Inclusão da Academia para 2022 e 2023. Assim, eles poderão revisar as lacunas que ainda devem preencher. 

Por outro lado, enquanto o Oscar tenta tornar Hollywood mais diversa, a própria Academia está longe de ser. A maior parte dos membros são homens brancos com mais de 50 anos. Mas algumas mudanças, ainda que tímidas. têm aparecido: dados mostram que, entre 2015 e 2020, as mulheres passaram de 25% para 33%. No mesmo período, os membros de grupos étnicos sub-representados passaram de 10% para 19%. Ainda há um longo caminho pela frente – mas, aos poucos, as coisas estão mudando. 

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