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Paz amor e baioneta

Por Da Redação Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
30 set 2004, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h49
  • Texto Fernando Rosa

    “Houve uma vez um ‘Verão do Amor’. Então, uma nova cultura veio à luz, em meio à alucinação vertiginosa da anterior.” Era assim que Naomi Sunshine começava a falar sobre o bairro de Haight-Ashbury, em San Franscisco, espécie de “Terra Prometida” para hippies do mundo todo.

    De fato, o ano de 1967 havia trazido o festival Monterey Pop e toda aquela explosão da música e cultura psicodélica. Já tinham se passado cinco anos (o texto de Naomi é de 1972, do jornal Rolling Stone brasileiro), e aquele vórtice cultural levou mesmo muita gente a buscar alternativas à sociedade “careta”. Muita loucura e muita frustração rolaram entre uma data e outra. A celebração popular daquele sonho hippie veio em 1969 com outro festival – o de Woodstock, no Estado de Nova York. Foram três dias de música que acabaram construindo uma espécie de comunidade hippie gigante e, via discos e filmes, espalharam o espírito do “drop out” (cair fora) pelo mundo. As tribos começaram a se formar em todo canto, reunindo jovens descontentes com a sociedade de consumo. Algumas delas apenas voltadas para a subsistência de seus membros. Muitas, especialmente nos EUA, dedicadas à resistência política contra a Guerra do Vietnã, e ainda outras, como a argentina La Confradia de la Flor Solar, dedicadas à produção musical.

    Naquele mesmo ano de 1969, jovens paulistanos liderados pelo artista plástico Antonio Peticov tentaram promover o seu “happening”. O Festival Primavera estava agendado para os dias 15 e 16 de novembro de 1969, no Parque do Ibirapuera (São Paulo). Seria gratuito, com shows de Mutantes, Beat Boys, Beatniks, Som Beat, Gal Costa, Rogério Duprat, Os Leif’s e Tim Maia.

    O festival, no entanto, não ocorreu. “Recebi um recado para ir à prefeitura e falar com um assessor. O cara me disse: ‘Seu hippie de merda, vocês tratem de suspender essa bagunça, porque quem for para lá vai ser recebido na ponta de baioneta!’ Curto e grosso!”, conta Peticov.

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    Diante da ameaça que, naquela fase da ditadura, certamente seria concretizada, o evento foi suspenso. “Saí correndo pra avisar todo mundo. Mas, mesmo assim, no dia foi muita gente”, lembra Peticov, que tem sua memória reforçada por Bogô (Beatniks): “Vieram de todo o Brasil, em alguns casos a pé. Pegamos uns violões e tocamos até o pessoal dispersar”.

    No Brasil, a experiência de viver em comunidades também afastou muitos jovens, pelo menos por algum tempo, dos planos familiares de um futuro seguro, do diploma universitário e de uma profissão tradicional. Mas foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão das grandes cidades prosperou com mais sucesso. A partir de 1970, diversos grupos transformaram em realidade o sonho de uma “casa no campo”, como bem traduziu Zé Rodrix em sua canção de 1971.

    Talvez a comunidade mais famosa tenha sido a que reuniu os Mutantes na Serra da Cantareira, próxima à capital paulista. Por algum tempo, em uma casa com estrutura de som projetada pelo irmão Cláudio César, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rita Lee, Liminha e Dinho, e mais uma penca de malucos, viveram e produziram música. Alguns anos depois, Serginho repetiu a experiência com os reformulados Mutantes, dessa vez na serra fluminense de Petrópolis.

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    No Rio de Janeiro, outra comunidade fez de sua convivência um centro de produção musical. Em Jacarepaguá, no povoado de Moca do Mato, entre rodadas de som com direito à presença de João Gilberto e eventuais batidas da polícia, vivia a trupe dos Novos Baianos, banda formada em 1969, em Salvador. “Fomos obrigados a promover um sistema de administração que conseguisse manter as pessoas juntas, sem que se sentissem agredidas por normas e ordens”, diz Luiz Galvão, letrista do grupo, na biografia Anos 70, Novos e Baianos. “Tínhamos de fazer com que essa metodologia fosse assimilada por aquela juventude que considerava careta a informação do sistema.”

    Ainda no Rio, no início dos anos 70, a Equipe Mercado instalou-se em uma casa em Santa Teresa. Ali, segundo o historiador Nélio Rodrigues, “ela formulava seu elixir psicodélico, o ingrediente surreal de suas músicas”. Com a Equipe, a juventude compartilhou as aventuras de “Mary K no Esgoto das Maravilhas”; se emaranhou no “Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze”; e fez macrobiótica nos “Campos de Arroz”.

    Comunistas

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    Em meio à onda de “paz e amor”, músicos e cineastas de Nova Friburgo (RJ) mergulharam na produção do “primeiro filme hippie brasileiro”. Geração Bendita talvez seja o único registro de época da vida em uma comunidade. A trilha, de mesmo nome, foi gravada pelo Spectrum, formado por ex-membros da banda 2000 Volts. Porém, antes de seu lançamento, toda a equipe foi presa, com a alegação de que aquela montoeira de gente seria uma “célula comunista”. O filme foi lançado dois anos depois com o nome É Isso Aí, Bicho. Uma das obras de psicodelia mais procuradas, a trilha foi relançada na Europa em versão vinil 180 gramas e em digital.

    No Recife, o mesmo espírito mobilizou músicos (Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson) e bandas (Ave Sangria, Flaviola & o Bando do Sol). Nessa época, aconteceu a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, uma espécie de Woodstock local, com dois dias de música na cidade-teatro de Nova Jerusalém (onde é realizado o espetáculo Paixão de Cristo). “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”, relembra Lailson, que coordenou o evento. Em produção artesanal, o grupo registrou suas experiências em obras como Paêbirú, O Caminho do Sol e Satwa

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