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A origem do “Penso, logo existo”

Você já deve conhecer o postulado central da obra de Descartes. Mas o que, afinal, ele quis dizer com isso?

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni) - Atualizado em 15 Maio 2019, 15h51 - Publicado em 11 dez 2015, 12h00

Livro: Discurso sobre o Método
Autor: René Descartes
Ano: 1637
Por que ler? Nos deu a receita de como chegar à verdade.

Em 1633, René Descartes concluiu um livro ambicioso chamado O Mundo ou Tratado da Luz. Na obra, o filósofo francês de 37 anos pretendia lançar ideias revolucionárias, como sua proposta para a mecânica do sistema solar. Mas, naquele mesmo 1633, Galileu Galilei foi condenado pela Inquisição pela heresia de defender que a Terra girava ao redor do Sol. Com medo de represálias, Descartes suspendeu a publicação do livro – a obra só veio a público após sua morte -, mas não paralisou os estudos do pai da filosofia e da matemática modernas.

Nascido com um problema nos pulmões, Descartes era pouco afeito às agitações, embora tenha se alistado no Exército aos 24 anos de idade. O filósofo gostava mesmo era de ficar no seu quarto estudando matemática, física e filosofia. Quando largou o uniforme militar, foi estudar na antiga universidade de Franeker, Holanda, onde teria paz para colocar suas ideias no papel.

O período foi fértil: Descartes criou a geometria analítica, aquele sistema de coordenadas que é pesadelo de alguns estudantes e fundamental para a matemática – e também conhecida como geometria cartesiana, homenagem ao seu criador, Renatus Cartesius (o nome latinizado de Descartes).

Nas aulas da prestigiada escola holandesa, Descartes sentia tédio. Via professores repetindo conceitos que não eram questionados apesar da falta de evidências que os sustentassem. Achava que faltava às ciências uma forma de comprovação de supostas verdades.

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Quatro anos depois de engavetar O Mundo, em 1637, satisfeito com seus progressos, Descartes publicou Discurso sobre o Método (ou Discurso do Método, as duas traduções circulam em português), no qual desenvolve uma forma universal de investigação científica. Mas, em vez de escrever um livro acadêmico, fez uma breve autobiografia.

Desde a primeira página, o pensador tenta passar a imagem de autor humilde: “Não é meu propósito ensinar aqui o método que cada um deveria seguir para o bem orientar a sua razão, porém somente demonstrar de que modo procurei conduzir a minha”. Mas era exatamente o que estava fazendo: ensinando um método de busca pelo conhecimento que lançava uma nuvem de ceticismo sobre toda a sabedoria difundida até então.

Por que a cautela? Medo da Inquisição? Talvez. Lido no contexto da perseguição religiosa, o Discurso tem algo de dissimulado. A humildade de Descartes escondia o quanto de crítica havia no livro. Para ele, qualquer conhecimento, não importa o quão divino ou tradicional, pode e deve ser questionado. Ou seja, Descartes não acreditava em quase nada do que era ensinado na época.

“Passei a não crer com muita firmeza em nada do que fôra inculcado por influência da exemplificação e do costume. E deste modo me libertei (…) de inúmeros erros que podem obscurecer a nossa lucidez natural (…)”

Mas, no século 17, era difícil fazer uma afirmação dessas. O pensador precisou dar voltas para fugir do confronto com a Igreja. Porque, na prática, as famosas quatro regras do seu método constam num curto parágrafo de 854 caracteres (na versão em português) na segunda parte da obra. E são tão claros que nem precisariam de preâmbulo:

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1) ser cético e não tomar nada como certo até que haja evidência de que seja certo;
2) dividir os problemas em dificuldades menores;
3) ordenar os problemas do mais simples ao mais complicado, até que não existam mais problemas, e sim evidências, conclusões;
4) enumerar e revisar as conclusões.

O método cartesiano influenciou toda a ciência que veio a seguir. Ao adotar o procedimento padrão, os pesquisadores passaram a compartilhar não só os resultados e argumentos, mas o passo a passo da investigação, que permitia testar os resultados. Discurso já seria um sucesso se tivesse sido encerrado aí.

Mas, nas cerca de 80 páginas do livro, Descartes ainda achou espaço para desenvolver a tese de que existe uma única verdade que não pode ser questionada: a nossa existência – pensamento resumido na famosa frase “penso, logo existo”, que aparece na quarta parte da obra.

Diante de tanto ceticismo, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

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Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que somente somos capazes de duvidar dos nossos sentidos (ou seja, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. É filosoficamente possível que a nossa existência seja uma cruel enganação arquitetada por uma entidade do mal capaz de enviar estímulos para o nosso cérebro que criam essa sensação de um mundo físico quando, na verdade, somos apenas chips de computador recebendo bits de informação (como propõem filmes do quilate de Matrix).

Mas ao menos podemos ter a mínima certeza de que existimos – ainda que enquanto chips e não como humanos. Nas poucas páginas de Discurso, Descartes tentou outro golpe: provar a existência de Deus argumentando que o fato de concebermos a ideia de perfeição e de infinito, sendo imperfeitos e finitos, era prova do divino.

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