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Por trás do Popcorn Time

Ele é bem parecido com a Netflix. Mas tem filmes mais recentes, todos os lançamentos, e não cobra um centavo. E surgiu onde menos se esperava. Viaje conosco à Argentina conhecer os bastidores do serviço mais polêmico da internet.

“Nós éramos dois, no começo. Cada um em sua casa. No primeiro dia, já tínhamos uma versão do programa. Em uma semana, ele estava 80% pronto”, conta à SUPER o portenho Federico Abad. Ele, junto com um amigo que se identifica apenas como Sebastián, é o criador do software mais inovador, e polêmico, dos últimos tempos: o Popcorn Time, que permite ver filmes e séries assim que são lançados sem pagar nada. O software está ganhando 100 mil usuários por dia – um ritmo de crescimento explosivo, similar ao da Netflix. Estima-se que haja de 4 a 10 milhões de pessoas usando o programa.

E isso tem gerado uma enorme controvérsia, por um motivo simples: o maior parte dos filmes e das séries disponíveis no Popcorn Time é pirata. São cópias ilegais, vindas da rede BitTorrent – que existe desde 2002. A diferença é que o Popcorn torna a coisa infinitamente mais fácil. Antes, era preciso entrar num site de torrents, procurar o filme desejado, esperar o download terminar e só aí começar a ver. Com o Popcorn, é diferente. Ele mostra uma tela bonita, com os cartazes dos filmes todos organizados. Basta dar um clique no que você quer ver, e o filme começa a rodar instantaneamente (e já com as legendas). É que o Popcorn consegue tocar o arquivo de vídeo “em tempo real”, ou seja, enquanto ele ainda está sendo baixado. Uma inovação tecnológica considerável – e que fez o programa ser apelidado de “Netflix dos piratas”. Tudo começou porque Sebastián e Federico estavam insatisfeitos com a Netflix – que geralmente só recebe os filmes um bom tempo depois que foram lançados. É assim por uma questão de custo (para incluir todos os filmes recentes, a Netflix teria de investir muito mais, e isso deixaria a mensalidade muito mais cara), e pelas barreiras geográficas impostas por Hollywood. Um filme lançado nos EUA pode demorar meses até ser lançado na América Latina – ou nem ser.

“Nós odiamos não poder ver certos filmes em casa. O Popcorn Time é uma experiência para mostrar que é possível fazer algo melhor para os usuários”, declararam os dois ao lançar o programa, em março de 2014. Com a ajuda de mais algumas pessoas, eles terminaram o software, inventaram um mascote – um saquinho de pipoca chamado Pochoclín (variação de pochoclo, “pipoca”) -, e jogaram na internet. E aí ganharam um empurrão involuntário. Foi quando, ainda em março de 2014, o diretor argentino Juan José Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por O Segredo dos Seus Olhos, resolveu se manifestar no Twitter.

– Parabéns, “Sebastián”, criador do Popcorn Time. Você é mais um ladrão argentino em nossa longa lista.

O tiro saiu pela culatra. Graças a Campanella, que tem 340 mil seguidores, muito mais gente ficou sabendo da existência do Popcorn, e surgiu uma onda em defesa do programa. “Para ser ladrão, primeiro é preciso ter roubado algo”, disse um dos seguidores de Campanella. “Nem todos os torrents são piratas. E Sebastián só fez uma interface (para acessá-los)”, replicou outro. Os downloads dispararam. Os criadores do Popcorn foram procurados pela MPAA, a associação de estúdios de Hollywood, e ameaçados com processos judiciais.

Ficaram com receio. Guardaram o saquinho de milho, apagaram o fogo.

“O Popcorn Time vai acabar hoje”, disseram eles numa carta de despedida. Insistiam que o programa não era ilegal, mas que não tinham condições de enfrentar a indústria do cinema. “Temos que seguir com as nossas vidas.” Para o pessoal de Hollywood, foi uma lufada de alívio. “O aplicativo de pirataria de filmes Popcorn Time está morto”, decretou a revista Variety, maior publicação de cinema dos EUA.

Era cedo para cantar vitória. Outras pessoas pegaram o código-fonte do programa, e trataram de ressuscitá-lo. Clones do Popcorn começaram a pipocar pelo mundo. Eles crescem mais aceleradamente do que o original, e são ainda mais sofisticados: empregam artifícios para dificultar o rastreamento dos usuários. É o caso do http://www.popcorn-time.se, que utiliza um servidor na Suécia, mas é mantido por colaboradores do mundo inteiro, a maioria europeus. “Somos todos usuários do Popcorn Time original e ficamos tristes ao vê-lo acabar. Então decidimos fazer alguma coisa a respeito”, disse um deles à SUPER. Ele não quer ser identificado, mas diz que não tem medo. “Não estamos fazendo nada de errado ou ilegal. Não somos um site de torrent. Não criamos nem hospedamos torrents. O Popcorn Time é apenas um motor inteligente para torrents, com uma interface incrível.”

Mais ou menos. Outra reencarnação do aplicativo, o popcorntime.io, é um pouco mais cauteloso. Ele avisa, em sua página, que baixar torrents pode ser ilegal – depende da lei do país do usuário. “Se você realmente se importa com isso, é melhor dar um Google para saber qual a situação onde você mora”, adverte. No Brasil, ela é a seguinte: o Artigo 184 do Código Penal prevê pena de multa ou detenção de três meses a um ano para quem violar os direitos de autor. Mas essa punição é para quem tem intuito de lucro. Como o próprio Popcorn Time não busca ganhar dinheiro, fica numa zona cinzenta entre o legal e o ilegal.

“O Popcorn Time não pratica pirataria. Ele não é um servidor, onde os filmes estão armazenados. Apenas permite que pessoas que tenham esses vídeos se comuniquem entre si”, diz o sociólogo Sergio Amadeu da Silveira, que presidiu o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação no primeiro governo Lula.

A indústria do entretenimento pensa de outra forma – e a Netflix também. No começo deste ano, em carta aos acionistas da empresa, o CEO Reed Hastings disse que “a pirataria continua sendo um dos nossos maiores competidores”, e se referiu especificamente ao Popcorn Time. Citou o caso da Holanda, onde a quantidade de buscas na internet pelo programa já é similar à quantidade de buscas pela Netflix (e superior às buscas pela HBO). “Mais da metade dos internautas no Brasil compartilham arquivos de música e vídeo”, diz Amadeu. “Vamos fazer o que com essas pessoas? Considerá-las criminosas?”. Para ele, as empresas de entretenimento deveriam desenvolver novos modelos de negócio, que levem em conta essa realidade.

“Eu tenho Netflix, aceito pagar US$ 10 por mês para ver o conteúdo dele. Mas muitos filmes demoram tanto a chegar aqui que a gente usa o Popcorn”, diz a médica argentina Elisa Aguero, 37 anos. Os criadores do programa colocam a questão de um jeito mais direto: “Os provedores de streaming na Argentina acham que Quem vai Ficar com Mary? é um filme recente, quando na verdade é tão velho que poderia votar aqui” (o filme já tem 17 anos).

“Não competimos com Netflix, nem com ninguém. Estamos fazendo o Popcorn Time porque acreditamos que esse serviço deve existir. E pelo amor que recebemos dos usuários, que é interminável”, disse à SUPER um dos atuais donos do Popcorn. “A gente ainda não consegue acreditar no crescimento do projeto. Os estúdios de Hollywood, que recentemente obtiveram vitórias contra sites de torrent (os criadores do conhecidíssimo Pirate Bay foram condenados e presos, embora o site tenha voltado ao ar), certamente tentarão novas manobras para acabar com o Popcorn. Mas os atuais donos dizem que não têm medo. “Quando nós assumimos o programa, prometemos às pessoas que ele nunca seria desmantelado. Estamos aqui para fazer o Popcorn Time durar para sempre e torná-lo mais forte, melhor e disponível para todos.”