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Super Bowl: as origens do maior espetáculo da Terra

O principal seriado de TV dos EUA mistura novela e reality show e fatura US$ 12 bilhões por temporada. Entenda como a final do futebol americano se transformou no evento mais lucrativo do mundo.

Por Tiago Jokura e Danilo Cezar Cabral - Atualizado em 2 fev 2018, 15h20 - Publicado em 5 fev 2016, 16h15

Super Bowl

As origens | A consagração | Infográfico: A tecnologia por dentro de um capacete de futebol americano

O principal seriado de TV dos EUA está no ar há dezenas de temporadas, com um elenco de cerca de 1.700 atores e 16 episódios inéditos por semana. Todo ano o formato é o mesmo: de setembro a dezembro, locações de costa a costa do país servem como cenários para batalhas entre exércitos que representam importantes regiões americanas, de São Francisco a Boston, de Detroit a Miami. Em janeiro, as tropas sobreviventes se enfrentam até sobrarem só duas, que medirão forças na season finale mais assistida do país.

E não tem essa lógica de Netflix, de deixar para ver quando quiser, não. É televisão à moda antiga, com todos os episódios transmitidos para mais de 170 países ao vivo, tornando a atração praticamente imune a spoilers e à pirataria. E tem outro velho truque: se você não tem tempo ou paciência de acompanhar tudo, cada um dos 267 capítulos da temporada é uma história por si só, com começo, suor, lágrimas, risadas, heróis, vilões, conflitos, eventuais reviravoltas e fim.

Essa mistura de telenovela com reality show de competição é a fórmula de sucesso da National Football League (NFL), a liga de futebol americano dos EUA, que faturou mais de US$ 12 bilhões na temporada passada. Nas palavras do narrador esportivo Everaldo Marques, da ESPN no Brasil, “a NFL é um caso único: uma liga de um esporte que só é jogado em alto nível em um país. Que não é praticado mundialmente. Que tem muitas polêmicas extracampo, como episódios criminais envolvendo vários atletas e os riscos do esporte para a saúde física e mental dos jogadores. Mesmo assim, a liga organiza tudo de um jeito tão bem feito que acaba tendo uma imagem limpa e faz com que, um dia no ano, 150 milhões de telespectadores do mundo todo olhem para seu jogo final, o Super Bowl: um evento que só ela faz e que ninguém pode copiar”.

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Nos capítulos anteriores…

Até os anos 1950, o beisebol era o “esporte americano”, o mais popular, o mais praticado pelas crianças, mais ou menos como é o futebol no Brasil. Mas a televisão virou o jogo. O namoro com o futebol americano, que já era televisionado desde 1939, virou coisa séria em 1956. Foi quando a rede CBS assinou o primeiro contrato de transmissão nacional com a NFL,  pagando US$ 36,5 milhões, em valores corrigidos, pelos direitos de exibir a temporada – até então, as emissoras negociavam os direitos com cada time, independentemente.

A narrativa do jogo era perfeita para a televisão: duas equipes lutando para conquistar território num campo de batalha retangular, que fica bem horizontal na tela e se assemelha em proporções com o próprio mapa dos EUA. Todo esse embate liderado por um protagonista de cada lado: o quarterback (atleta que distribui a bola a cada jogada e que geralmente é personagem importante em filmes e seriados que retratam colégios e universidades americanas). 

Mas ainda faltava trazer o público para mais perto, dar voz a personagens mudos que tinham as ações em campo narradas por locutores. Entrou em cena então um jogador de defesa que abriu a boca e fez muito barulho: Sam Huff foi entrevistado pela revista Time e virou capa da publicação em 1959. Em seguida, foi tema de um programa especial da CBS. No minidocumentário The Violent World of Sam Huff, o jogador-celebridade foi equipado com um microfone que gravou suas palavras em treinos e em um jogo de exibição. Foi o pontapé inicial para aproximar o telespectador do esporte, mas a grande jogada foi a cobertura cinematográfica da final do futebol americano de 1962 entre New York Giants e Green Bay Packers, no Yankee Stadium, em Nova York.

O comissário – cara que dá as cartas e gerencia a liga – Pete Rozelle leiloou os direitos de filmagem do jogo. O lance vencedor, de US$ 40 mil em valores atuais, foi de Ed Sabol, um senhor de 53 anos, cuja experiência em audiovisual se resumia a filmar o cotidiano do filho Steve. Mas o resultado do trabalho amador foi apaixonante: Sabol dobrou o número de câmeras em campo para oito e abusou de recursos inéditos na produção esportiva, como narração dramática, câmera lenta, trilha sonora e zoom.

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O filme, batizado de Pro Football’s Longest Day, estreou semanas após a final, vencida pelos Packers, e foi um sucesso. O título fazia referência a um hit daquele mesmo ano nos cinemas, O Mais Longo dos Dias, filme de guerra sobre o Dia D estrelado por craques do calibre de Henry Fonda, Richard Burton, Sean Connery e John Wayne. O clima do front exibido no longa vencedor de três Oscars também estava nas trincheiras filmadas pelo time de Sabol. Ao retratar a ação e a violência do esporte bem de perto, detalhando expressões faciais, movimentos e impactos de maneira nunca vista, o filme não apenas cativou os fãs sedentos por mais “realidade” nas transmissões, como deixou o recado de que o “verdadeiro” futebol americano era o de domingo, o dos profissionais. Ou seja, o telespectador não precisava mais recorrer aos universitários, que jogavam aos sábados. 

Em 1965, Rozelle comprou a empresa de Sabol e a renomeou como NFL Films. O primeiro trabalho do diretor como funcionário da liga seria produzir um programa semanal de 30 minutos, com o mesmo apelo cinematográfico da sua estreia, chamado Game of The Week, cobrindo o jogo mais importante da rodada.

O repórter Sal Paolantonio, da ESPN dos EUA, defende que a NFL também alavanca a TV. Clássicos como 60 Minutes viraram hit por irem ao ar após os jogos. Um exemplo  mais atual é o da Fox, que em 1994 comprou os direitos de transmissão da NFL para bombar The Simpsons.

Episódio I

“Pelos últimos 50 anos, a NFL tem levado muito a sério a ideia de fazer do futebol americano uma grande peça do entretenimento americano, um elemento genuíno de uma das maiores contribuições do país para a cultura mundial: o show business”, escreve o repórter esportivo Sal Paolantonio em seu livro How Football Explains America, ainda sem versão brasileira.

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Foi com esse espírito que o Super Bowl começou a nascer, ainda em 1958, sem que ninguém imaginasse, em outra final, também disputada no Yankee Stadium, entre o local Giants e o Baltimore Colts. Com casa cheia e audiência de 45 milhões, o jogo terminou empatado em 17 a 17, forçando uma prorrogação. No tempo extra, um lance inusitado mostrou como o sucesso da televisão e do futebol americano estavam íntima e tragicomicamente ligados.

Com os Colts prestes a pontuar e matar o jogo, um repórter ou fotógrafo à beira de campo chutou um dos cabos de força da emissora NBC, cortando a transmissão. A princípio, os telespectadores só perderam uma invasão de campo que atrasou o reinício do jogo. A retirada do torcedor, aparentemente bêbado, coincidiu com o retorno do sinal, fazendo com que ninguém ligado na tela perdesse os lances finais. 

Mais tarde descobriram que a manobra foi proposital: o invasor era o executivo da NBC Stan Rotkiewicz, que entrou no gramado para ganhar tempo até que os técnicos de TV recuperassem o sinal e o jogo voltasse ao ar, como se nada tivesse acontecido.

O jogo causou furor na audiência e, no início dos anos 1960, o futebol americano virou um produto televisivo tão importante que a NFL passou a medir forças com uma liga profissional paralela, que também cavou seu espaço na TV, a American Football League (AFL). A rivalidade chegou ao ponto de levar jogadores disputados pelas duas ligas a fazer leilão para ver quem oferecia mais por um contrato. Para o bem dos negócios, foi costurada, em 1966, uma fusão entre as ligas, a ser totalmente implementada em 1970. Até lá, elas continuariam separadas, mas com um jogo final entre os vencedores da NFL e da AFL: o Super Bowl. Era apenas o começo de uma história bilionária…

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