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Steven Pruitt é um humilde funcionário público de 35 anos, que leva uma vida simples e ainda mora com os pais. Mas escreveu em 30% de todos os verbetes da enciclopédia – e fez, ao todo, 3 milhões de contribuições a ela. Tudo por causa do seu hexavô.

Texto Fernanda Ezabella Design Estúdio Nono Ilustração Rodrigo Fortes Edição Bruno Garattoni

“Peter Francisco, nascido Pedro Francisco (9 de julho de 1760 – 16 de janeiro de 1831), conhecido como o ‘Gigante da Virgínia’, o ‘Gigante da Revolução’ e, também, como ‘Hércules da Virgínia’, foi um patriota americano nascido em Portugal que atuou como soldado na Guerra de Independência dos Estados Unidos.” Assim começa o verbete da Wikipedia em inglês sobre o tal Pedro, que teve uma vida e tanto: aos 5 anos de idade foi raptado, colocado num navio e acabou indo parar nos EUA, onde se tornou ferreiro e depois militar, com vários atos de bravura em combate – o “gigante” do apelido vem de seu tamanho, 2,03 m. Mas a história dele é só mais uma na imensidão de coisas interessantes escondidas nos 5,9 milhões de verbetes da enciclopédia. Exceto por um motivo: Pedro acabaria levando, 250 anos depois, à criação de boa parte do conteúdo da Wikipedia.

Em 2004, seu hexaneto, o americano Steven Pruitt, resolveu escrever um verbete sobre o antepassado. E não parou mais. Os dedinhos gorduchos de Pruitt, que tem 35 anos, vive com os pais e trabalha na alfândega dos EUA, em Washington D.C., já tocaram 30% de todos os artigos da Wikipedia. Ao todo, ele fez mais de 3 milhões de edições – o que o torna o maior colaborador da enciclopédia. Pruitt arruma vírgulas, corrige erros de digitação, checa informações e reescreve parágrafos. Mas, de 2006 para cá, também redigiu sozinho 31 mil artigos – o que dá uma média de seis por dia, todo santo dia. Ele faz tudo nas horas vagas, do seu quarto, e nunca ganhou nada com isso; a não ser o título de super-herói da internet. Nos EUA, ele alcançou uma boa notoriedade (em 2017 foi eleito uma das “pessoas do ano” pela revista Time, junto com Kim Kardashian e J.K. Rowling), mas a maioria dos usuários da Wikipedia nunca ouviu falar de Pruitt – embora provavelmente já tenha lido algum verbete editado por ele.

“Eu abracei a Wikipedia bem no começo. Estava no primeiro ano da faculdade e o site ficava aparecendo nos resultados das minhas pesquisas no Google. Um dia decidi brincar com ele”, contou Pruitt em uma conversa com os usuários do site Reddit. Ele acha seu primeiro verbete, sobre o antepassado Pedro, meio fraco (“está longe de ser o meu melhor trabalho”). Modéstia dele: o artigo é ótimo, cheio de informações e referências bibliográficas.

Pruitt costuma fazer suas pesquisas em livros, almanaques, jornais e, claro, na internet. Em média, passa de duas a três horas por noite no site; nos finais de semana, muito mais. Seus tópicos favoritos são assuntos aleatórios e obscuros, como biografias de gente esquecida, especialmente artistas plásticos e cantoras de ópera, além de locais sobre os quais há pouca informação online. Apesar de passar boa parte da vida atrás do computador, sua maior paixão é ópera e música antiga. O nome que Pruitt usa na Wikipedia, aliás, tem a ver com isso: no site, ele se identifica como “Ser Amantio di Nicolao”, personagem da ópera Gianni Schicchi, composta pelo italiano Giacomo Puccini em 1918. Pruitt é tenor e canta semanalmente no Capitol Hill Chorale, um coral de cem voluntários.

Suas férias pelo mundo, às vezes para cantar com o coral, rendem ideias para artigos. Recentemente, ele foi à Georgia e ao voltar escreveu sobre os cinco irmãos Karbelashvili, conhecidos pela preservação de cantos e tradições da Igreja Ortodoxa do país, no final do século 19. Em 2011, como o verbete da Wikipedia explica, eles foram canonizados.

Mas Pruitt não precisou sair do quarto para escrever sobre os dez distritos de Lesotho, um reino independente dentro das fronteiras da África do Sul.

Ele havia encontrado muitos dados no site do governo e criou, em uma única tarde, boa parte dos 129 artigos dedicados aos conselhos comunitários dos dez distritos. “Seis meses depois, voltei às páginas e vi que tinham sido traduzidas para ucraniano. Hoje, elas estão em línguas que nem existiam no site na época, e tudo isso por causa de algo que eu comecei. Fico maravilhado quando penso nisso.”

Fundada em 2001, a Wikipedia tem versões em 303 idiomas (a lista inclui línguas como o gujarati, falado na Índia, o tarantino, um dialeto do sul da Itália, e até a língua manesa, falada por apenas 1.500 pessoas na Ilha de Man, entre a Inglaterra e a Irlanda). Ela funciona como um projeto aberto de colaboração, num sistema de edição coletiva. Qualquer pessoa pode escrever um artigo; e qualquer pessoa também pode editá-lo ou até mesmo vetá-lo, o que às vezes causa conflitos. Em junho de 2019, por exemplo, um editor conhecido como “Fram” foi banido da enciclopédia por um ano. Era um colaborador importante, com mais de 200 mil contribuições e status de administrador, com poder de fazer mudanças mais profundas nos verbetes (um privilégio que apenas mil pessoas, entre elas Pruitt, possuem).

O motivo da punição foi a suposta grosseria de Fram, que teria ofendido outros editores, mas a medida causou revolta: 21 administradores pediram desligamento da Wikipedia, e o quebra-pau sobre o caso, na área de debates da própria enciclopédia, alcançou incríveis 2,9 milhões de caracteres – o equivalente a quase todo o texto da Bíblia.

Pruitt se mantém à parte das polêmicas, e segue seu caminho solitário. Ele parece genuinamente humilde, ainda que com um leve senso de humor. “Sei que parece piegas, mas acredito que, coletivamente, estamos mudando o mundo. É uma coisa incrível, que ainda me surpreende”, escreveu. Formado em história da arte, o “wikipedian” trabalha com gerenciamento de registros na Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA. Filho único e solteiro, mora com os pais para ajudá-los (ambos já são idosos) e também para guardar dinheiro – Washington é uma cidade cara.

Sua fama não vem apenas dos números impressionantes. Ele faz parte do projeto Women in Red (“mulheres em vermelho”), uma referência à cor dada aos nomes de pessoas que são citadas na Wikipedia, mas ainda não possuem verbetes próprios. Criado em 2015, o projeto pretende diminuir a diferença de textos dedicados a homens e mulheres. Em quatro anos, a quantidade de verbetes sobre mulheres subiu de 15% para 18% do total da Wikipedia. Pruitt colaborou escrevendo mais de 600 deles. “Não acredito que alguém espere que a Wikipedia se torne 50-50 [perfeitamente igualitária] na distribuição de gênero. Mas sou mais otimista que a maioria e acho que conseguiremos um balanço de 70-30”, comentou.

Se você esbarrar na internet com o nome de Joanna Quiner (1796-1868), provavelmente foi por causa de Pruitt. “Ela foi a segunda escultora americana a nascer no século 18, e eu nunca tinha ouvido falar nela. Nunca tinha visto ou estudado seu trabalho”, disse. “Comecei a ler sobre ela e fiquei feliz de colocá-la nos anais da internet.” Outro caso é o da cantora africana Fati Mariko. Ela já vendeu milhares de álbuns no Níger, mas sua única menção online era em vídeos do YouTube. Pruitt escreveu um verbete da Wikipedia a seu respeito. Suas contribuições mais recentes foram sobre “fraktur”, uma caligrafia praticada na Pensilvânia entre 1740 e 1860, e “shape-note”, notação musical criada para facilitar o canto comunitário.

Pruitt diz que já foi procurado por pessoas que queriam que ele escrevesse suas biografias na Wikipedia, inclusive oferecendo dinheiro. Ele aceitou fazer apenas um verbete a pedido de terceiros. Foi sobre um pintor da virada do século 20, a pedido do leiloeiro das obras desse artista. Mas não recebeu nada em troca – o que é, inclusive, proibido pelo regulamento do site.

Ao ser questionado sobre a veracidade e a objetividade de tudo que é publicado na Wikipedia, Pruitt diz que ela vem melhorando. “Estudos mostram que ela é mais confiável que muitas fontes impressas.” Mesmo assim, como qualquer bom pesquisador, ele ressalta a importância da variedade. “É uma boa fonte em potencial como qualquer outra”, disse. “Mas não é uma boa fonte se for a única fonte.”