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Saúde

O vírus da obesidade

O mundo está cada vez mais gordo. Mas e se a culpa disso, além dos hábitos alimentares ruins, também fosse de um vírus misterioso – que faz suas vítimas ganharem peso mesmo se elas não tiverem comido demais?

Randy sempre foi uma criança magra. Os pais dele eram magros. A família toda se alimentava bem e fazia bastante exercício físico no dia a dia – pois morava e trabalhava numa fazenda em Glasford, vilarejo rural no Estado de Illinois (EUA). Até que, quando Randy completou 11 anos, tudo mudou. De um dia para o outro, o menino começou a engordar aceleradamente. Na adolescência, ele já estava 20 quilos acima do peso. Randy começou a praticar esportes e fazer dieta, além de continuar trabalhando horas a fio na fazenda, mas não adiantou.

Ele comia menos do que todo mundo, mas continuava engordando. Até que, com 40 anos de idade, bateu nos 160 quilos. Estava com obesidade mórbida e um caso severo de diabetes. Mas também estava prestes a descobrir o que realmente tinha causado tudo aquilo: um vírus chamado Ad-36, que afeta milhões de pessoas pelo mundo e tem a estranha capacidade de fazer suas vítimas engordarem. Randy havia contraído o vírus ao limpar o galinheiro da fazenda, aos 11 anos de idade, e o carregou por décadas sem saber. Ele teve a vida transformada pelo Ad-36. Mas a caçada ao vírus começou bem longe da sua fazenda. Foi do outro lado do planeta, em um dos países menos obesos do mundo: a Índia.

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Da galinha para o homem

Os indianos não comem carne de boi, mas compensam no frango: o país tem 729 milhões de aves, uma para cada dois habitantes. Mas, em 1988, uma epidemia misteriosa começou a dizimar a população de galinhas. Como todo indiano, o médico Nikhil Dhurandhar, dono de uma clínica de obesidade em Mumbai, estava preocupado com a notícia. Mas ele tinha um amigo influente: o veterinário S.M. Ajinkya, que descobriu e batizou o vírus responsável pela matança, o SMAM-1 (a sigla é formada pelas iniciais de Ajinkya). O veterinário contou a Dhurandhar que, antes de matar as galinhas, a infecção provocava um efeito bizarro: fazia os animais engordarem. “Eu nem imaginava que um vírus poderia levar ao ganho de peso”, lembra ele. Dhurandhar ficou obcecado com o SMAM-1, e resolveu fazer uma experiência. Juntou 20 galinhas saudáveis e infectou metade delas com o vírus.

Alimentou todas com a mesma quantidade de ração durante algumas semanas. Ao final da experiência, só as galinhas infectadas tinham ganhado peso. E não foi pouca coisa, não: em algumas aves, a porcentagem de gordura corporal quase triplicou. O indiano repetiu a experiência, dessa vez com cem galinhas. O resultado foi o mesmo – e aí ele resolveu estudar a ação do vírus em humanos. Coletou amostras de sangue de 52 pacientes da sua clínica, e descobriu que 20% deles tinham anticorpos contra o SMAM-1 – haviam, portanto, sido infectados pelo vírus. Eles eram os mais pesados, com 15 quilos a mais, em média, do que os outros pacientes.

O médico tentou publicar seu estudo em vários jornais científicos, mas não foi levado a sério. Ele tocou a vida, continuou estudando e conseguiu uma bolsa de pós-doutorado na Universidade de Dakota do Norte, nos EUA. O convite era para pesquisar outras coisas, não o SMAM-1, mas Dhurandhar topou. “Pelo menos vou estar no mesmo planeta, pensei. Lá eu posso conhecer mais pessoas e tentar convencê-las”, conta. Com o filho pequeno, a esposa e três malas, foi viver nos EUA.

Os adenovírus se propagam pelo ar e causam sintomas parecidos com os da gripe. Mas um deles vai além.

Os adenovírus se propagam pelo ar e causam sintomas parecidos com os da gripe. Mas um deles vai além. (Dulla/Superinteressante)

Mas a América não foi o que ele esperava. Dois anos depois, decepcionado por não poder investigar o vírus, Dhurandhar estava disposto a voltar à Índia. Até que um dia, como última tentativa antes de ir embora, resolveu ligar para o endocrinologista Richard Atkinson, da Universidade de Wisconsin, que era famoso por tratar casos de obesidade mórbida. Atkinson ficou encantado com a história do vírus, e ofereceu um emprego ao indiano, que aceitou. Empolgadíssimos, os dois logo esbarraram num obstáculo: o SMAM-1 só existia na Índia, e o governo dos Estados Unidos não permitiu a importação de uma amostra. Então os cientistas resolveram pesquisar vírus que tivessem características parecidas. Começaram analisando a família dos adenovírus, a mesma do SMAM-1. Os adenovírus têm esse nome porque foram isolados pela primeira vez, em 1953, nas adenoides: duas glândulas que ficam no fundo da garganta. Eles se espalham pelo ar infectando humanos e outros animais, e geralmente causam sintomas parecidos com os de uma gripe. Atkinson e Dhurandhar analisaram os vírus dessa família, e um em especial chamou a atenção: o Adenovírus 36 (Ad-36). Ele era diferente, porque não apresentava “reação cruzada” com os demais adenovírus – ou seja, era imune aos anticorpos que atacavam os outros vírus da família.

Os pesquisadores infectaram galinhas com o Ad-36, e os resultados foram iguais aos registrados na Índia. Eles também fizeram experiências com camundongos, macacos e marmotas, e todos os bichos engordaram bastante (as marmotas chegaram a ficar 60% mais pesadas). Os animais infectados consumiam a mesma quantidade de calorias que os demais. Logo, só podiam estar engordando por causa do vírus.

O próximo passo era testar o efeito em seres humanos. Como contaminar uma pessoa de propósito seria antiético, os cientistas resolveram procurar indivíduos que já tivessem sido infectados pelo Ad-36. Dos 502 participantes do estudo, 360 eram obesos – e 30% deles tinham o vírus. Entre os demais voluntários do estudo, que não eram obesos, 11% tinham o vírus. Ou seja: nem todo mundo que é infectado se torna obeso. Mas o Ad-36 não é inofensivo – porque, mesmo quando a pessoa não se torna obesa, ela engorda um pouco após ser infectada. Em média, seu peso corporal aumenta em 10%. Isso significa que um indivíduo de 70 kg, por exemplo, fica 7 quilos mais pesado após ser contaminado pelo Ad-36.

Estava provado que o vírus provoca aumento de peso, tanto em animais quanto em humanos. Mas faltava desvendar algo ainda mais intrigante: como ele faz isso.

A gordura e a evolução

Até inventar a agricultura, 10 mil anos atrás, a humanidade passou aperto. A principal fonte de energia era a carne, mas a única fonte de carne era a caça – uma atividade totalmente imprevisível. O homem das cavernas não tinha nenhuma garantia de que, no dia seguinte, ia encontrar algum bicho para matar e comer. Pior: quando encontrava, precisava consumir toda a carne relativamente rápido, porque senão ela fatalmente estragaria. Uma dureza só. Mas a evolução criou um mecanismo bem inteligente para lidar com isso: a gordura.

Quando o seu corpo está precisando de energia, o sistema digestivo produz um hormônio chamado grelina, que vai até o cérebro e provoca a sensação de fome. Mas sabe quando você se alimenta, mata a fome e mesmo assim continua comendo, por pura gula? Todo mundo faz isso de vez em quando. E não é só porque comer é gostoso. É que aquela exageradinha representa algo muito maior para o seu organismo: uma garantia de vida. Quando você ingere mais calorias do que necessita para viver, o corpo não joga fora o excedente. Ele transforma em gordura, e guarda como reserva energética. Existem alimentos mais e menos saudáveis, claro. Mas, estritamente do ponto de vista da energia, todos são iguais. O organismo extrai as calorias da comida, usa a energia de que precisa – e o que sobra vira barriga, pneuzinhos, culotes, etc.

“Todas as fontes energéticas se transformam em gordura. O que muda é o valor calórico de cada componente”, explica o médico Claudio Mottin, coordenador do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas, da PUC-RS. Se você ingerir mais calorias do que o corpo precisa, o excesso vai ser transformado em gordura.

O corpo armazena energia na forma de gordura porque ela é muito densa, ou seja, permite fazer um belo estoque de energia: cada grama de gordura pura contém 9 calorias, mais que o dobro dos carboidratos e das proteínas (4 calorias a cada grama). Para os homens primitivos, essa poupança era a garantia de que, se eles ficassem um tempo sem acesso a alimentos, não iriam morrer: o corpo começaria a queimar a gordura, e obteria a energia necessária. A capacidade de engordar, e de emagrecer, foi essencial para a sobrevivência da nossa espécie.

Só que hoje não é assim. A maioria das pessoas não passa fome, e não precisa se entupir de comida por medo de ela faltar no dia seguinte. Pelo contrário: sobra tanto alimento que, segundo dados da OMS, 2 bilhões de pessoas estão acima do peso (e 700 milhões são obesas). O mundo moderno não tem absolutamente nada a ver com o dos primeiros Homo sapiens, de 200 mil anos atrás. Mas o corpo continua funcionando do mesmo jeito: tenta estocar a maior quantidade de energia possível.

Essa energia fica guardada nos adipócitos, que são células especializadas em armazenar gordura. Para os padrões das células, o adipócito é enorme: ele é 40 vezes maior que os miócitos (células que formam os músculos), 4.600 vezes maior do que os linfócitos (células do sistema imunológico) e 20 mil vezes maior do que um espermatozoide. Ele é grandão porque precisa ter bastante espaço interno para a gordura. Quando os adipócitos ficam lotados, o organismo começa a produzir mais células desse tipo, para armazenar mais gordura. E é exatamente aí que o Ad-36 entra. Ele desregula esse mecanismo e faz a pessoa ganhar tecido adiposo – mesmo quando não há calorias em excesso precisando ser estocadas.

Os infectados pelo Ad-36 ganham bastante peso — mesmo se não ingerirem calorias demais.

Os infectados pelo Ad-36 ganham bastante peso — mesmo se não ingerirem calorias demais. (Dulla/Superinteressante)

A ciência ainda não sabe exatamente como o vírus age. Uma possibilidade é que o Ad-36 desencadeie três processos ao mesmo tempo.

O primeiro deles é: o vírus induz o organismo a transformar células-tronco em adipócitos. Isso supostamente acontece porque ele libera uma proteína, a E4orf1, para evitar que o sistema imunológico o destrua. Mas essa proteína tem outro efeito. “Ela aumenta a produção de adipócitos”, diz Atkinson.

Além disso, o vírus faz o corpo liberar mais ácido graxo sintase (FAS), uma enzima que normalmente serve para transformar as calorias excedentes em gordura. Isso acelera a conversão da glicose (que circula pelo sangue levando energia aos orgãos) em gordura. Resultado: antes mesmo que o corpo possa queimar a glicose, ela já se transforma em pneuzinhos e barriga. Esse efeito foi comprovado em uma experiência com macacos, cujos níveis de glicose caíram depois que eles foram infectados pelo Ad-36, e parcialmente constatado em humanos: em alguns estudos, as pessoas que tinham o vírus apresentavam níveis de glicose abaixo da média.

Esses dois mecanismos têm o mesmo efeito: ao ser infectada pelo Ad-36, a vítima engorda, mesmo se não ingerir calorias em acesso. Mas a ação do vírus não para aí – porque ele também provoca um círculo vicioso. É que, quando a pessoa está com pouca glicose no sangue, ela sente mais fome e tende a comer mais, o que favoreceria ainda mais o ganho de peso.

Há indícios de que outros adenovírus (como Ad-5, Ad-9, Ad-6 e Ad-37) possam provocar efeitos similares. Mas as principais investigações estão concentradas no Ad-36, pois ele é de longe o mais comum. Nos Estados Unidos, 30% dos obesos carregam o vírus, quase a mesma porcentagem da Coreia do Sul (29%). Há países onde a taxa de infecção é ainda maior, como a Itália (40% a 65%, dependendo do estudo) e o México (um levantamento feito com crianças obesas, em 2013, constatou que 73% delas carregavam o vírus). A prevalência do vírus na população ainda foi pouco estudada, e não há dados sobre a maioria dos países (Brasil, inclusive). Também não se sabe, concretamente, se ele pode ser transmitido de uma pessoa para outra – coisa que os adenovírus, de modo geral, fazem.

Mesmo com essas incertezas, é provável que o Ad-36 afete uma enorme quantidade de pessoas pelo mundo. E isso levanta uma questão: ele tem cura?

As amoras e a vacina

Quando o biólogo escocês Alexander Fleming inventou o primeiro antibiótico, em 1928, o mundo mudou. As bactérias, que por milhares de anos haviam sido inimigas implacáveis da humanidade, passaram a ser facilmente controláveis. Com os vírus, não é assim. Eles são mais simples do que as bactérias, e por isso sofrem mutações mais rápido, o que torna seu combate mais difícil. Contra os vírus, a primeira linha de defesa é sempre a vacina – e já existe uma sendo desenvolvida contra o Ad-36. Na verdade, duas.

Uma equipe liderada pela médica Jae-Hwan Nam, na Coreia do Sul, desenvolveu uma vacina que funcionou em camundongos. Depois de serem vacinados e expostos ao vírus, os bichinhos não foram infectados. Agora os pesquisadores pretendem começar os testes em humanos, um processo que é necessariamente lento e cauteloso. Eles acreditam que, se tudo der certo, a vacina chegará ao mercado em cinco a oito anos.

A outra vacina teria sido desenvolvida por Richard Atkinson, aquele pioneiro das pesquisas com o vírus. Hoje ele dá aulas de patologia na Universidade da Virginia e é dono da Obetech, uma clínica que fornece testes de Ad-36. Ele diz que tem uma vacina pronta e até já registrou a patente do medicamento – mas suas pesquisas estão paradas por falta de investimento. “Isso é muito desapontador. Eu tenho certeza de que milhares de pessoas são infectadas a cada semana e se tornam obesas por algo que poderia ser evitado”, diz.

Enquanto a vacina não chega, há um atenuante: a mulberry, uma frutinha similar à amora. Em uma experiência na Coreia do Sul, dois grupos de ratos infectados pelo Ad-36 foram observados por cientistas. O primeiro grupo engordou à beça: seu peso aumentou 40%. Já o segundo, que recebeu a mesma quantidade de ração – só que complementada por extrato de mulberry – manteve peso normal. Os cientistas acreditam que a mulberry atrapalhe a multiplicação do vírus (nos ratinhos que consumiram o extrato da fruta, o vírus se replicou 70% menos), facilitando sua eliminação pelo sistema imunológico.

Há duas vacinas sendo desenvolvidas contra o vírus. Enquanto elas não chegam, há esperança: uma fruta.

Há duas vacinas sendo desenvolvidas contra o vírus. Enquanto elas não chegam, há esperança: uma fruta. (Dulla/Superinteressante)

Mas, claro: nada disso é uma panaceia. Não faria sentido correr aos supermercados em busca de mulberry, ou ficar sonhando com uma vacina contra o Ad-36, e ao mesmo tempo enfiar o pé na jaca. Ter uma alimentação balanceada, e fazer regularmente algum tipo de atividade física, continua sendo vital para manter o peso sob controle. Inclusive porque, vale lembrar, há um pequeno número de pessoas que é infectada pelo vírus e não se torna obesa – e também há muitos obesos que não carregam o Ad-36. Afinal, o ganho de peso tem várias causas. “A genética determina 60% a 70% da obesidade, e o ambiente entra com o restante”, diz o endocrinologista Márcio Corrêa Mancini, chefe do Grupo de Obesidade da Faculdade de Medicina da USP. Cada um de nós já nasce predisposto a ser mais magro ou mais gordinho, porque os genes que cada pessoa carrega determinam quanta energia o corpo irá gastar para sobreviver, como ele irá metabolizar os alimentos e como reagirá aos hormônios envolvidos nisso. As circunstâncias em que crescemos e vivemos também são importantes, porque formam e influenciam os hábitos alimentares de cada um. Até as bactérias que cada pessoa carrega no intestino, e o número de horas que ela dorme por noite, influenciam no peso.

Em suma: o vírus não é o único responsável pela obesidade. “Ele pode ser um fator que contribui para o aumento do peso em indivíduos que já têm alguma suscetibilidade”, afirma Mancini. A obesidade acontece por um conjunto de fatores. E agora é preciso considerar mais um: o espirro da pessoa que está sentada ao seu lado. Principalmente se ela estiver acima do peso.

Não é mais o caso de Randy. Ele está com 77 quilos, um ótimo peso para seu 1,85 metro de altura. Para chegar a isso, passou por muita coisa – teve até que hipotecar a própria casa para pagar uma cirurgia de redução do estômago. Mas sua vida só mudou para valer quando ele foi encaminhado para tratamento com Atkinson, o médico especialista no vírus da obesidade. O endocrinologista colheu uma amostra de sangue e constatou que, sim, Randy tinha o Ad-36. Ele se lembrou que, quando foi limpar o galinheiro naquele dia fatídico, aos 11 anos de idade, foi arranhado na perna por um galo bravo. Ao que tudo indica, pegou o vírus naquele exato momento – pois o Ad-36, além de se propagar pelo ar, pode ser transmitido pelo contato com sangue e fluidos corporais. Randy não leva uma vida relaxada. Até hoje, aos 63 anos de idade, ele faz muita ginástica e come bem pouquinho, apenas 1.200 calorias por dia.

Mas nunca esteve tão feliz. Principalmente porque descobriu, de uma vez por todas, que seu problema não tinha a ver com má alimentação ou falta de exercício. A culpa, na verdade, estava naquele galinheiro de 50 anos atrás.

Produção Ana Requião
Agradecimentos Cerâmica Patrícia Henriques, Juliana Caro

A odisseia da comida — e do vírus

Veja o que acontece no corpo quando você come, e como o Ad-36 pode interferir nisso

1. A MASTIGAÇÃO
Você mastiga e engole a comida, que desce pela garganta, passa pelo esôfago e vai até o estômago, por meio de contrações musculares involuntárias (controladas pelo sistema nervoso autônomo).

2. A DESTRUIÇÃO
O estômago secreta suco gástrico: uma mistura de água, enzimas e ácido clorídrico. O ácido clorídrico (HCl) é muito corrosivo. Tanto que sua versão sintética e diluída, vendida com o nome de ácido muriático, serve para arrancar manchas de azulejos. Na barriga, o HCl dissolve o bolo de comida, que se transforma em “quimo”, uma pasta escura e semilíquida.

3. A DECOMPOSIÇÃO
Aos poucos, o quimo vai sendo liberado para o intestino delgado, onde é irrigado por quatro substâncias: bile, lipase, amilase e tripsina. Elas vêm do fígado e do pâncreas e servem para decompor as gorduras, os carboidratos e as proteínas da comida. Esse processo separa, e libera, os nutrientes fundamentais dos alimentos (glicose, ácidos graxos, vitaminas e aminoácidos).

4. A ABSORÇÃO
As paredes do intestino têm reentrâncias e protuberâncias muito pequenas (esticadas, elas cobririam uma área de 250 m2). Essa superfície enorme é formada por enterócitos: são as células que absorvem os nutrientes e os transferem para a corrente sanguínea e o sistema linfático. (Os restos que não servem para nada viram cocô.)

5. A CIRCULAÇÃO
Os órgãos recebem e usam a glicose, os aminoácidos, as vitaminas e os ácidos graxos como fonte de energia e em outros processos (para reparar tecidos, por exemplo). Só que, se você comer demais, essas coisas vão acabar sobrando. Aí, elas são convertidas em triglicérides: um tipo de gordura que circula no sangue e também pode ser estocada, como reserva de energia.

6. A ADIPOGÊNESE
A gordura é um ótimo jeito de armazenar energia, porque ela é muito densa: cada grama tem 9 calorias (contra 4 calorias de proteínas e carboidratos). O corpo estoca a gordura nos adipócitos, um tipo de célula que se concentra na região abdominal. E é aí que o vírus pode agir – e desregular todo o processo.

7. O VÍRUS
O Ad-36 pertence à família dos adenovírus, que são transmitidos pelo ar e pelo contato com secreções das vias respiratórias (espirros, por exemplo). Ele infecta galinhas, ratos, macacos e seres humanos e causa sintomas similares aos de uma gripe. Mas também tem um efeito de longo prazo: fazer a vítima engordar. Os cientistas acreditam que isso aconteça por três motivos:

Mais adipócitos
O vírus libera uma proteína, chamada E4orf1, para se defender do sistema imunológico. Mas ela também tem outro efeito: induz as células-tronco da vítima a se transformar em adipócitos. E isso faz a pessoa (ou o animal) engordar.

Mais gordura
O vírus faz o corpo liberar mais ácido graxo sintase (FAS), uma enzima que converte a glicose em gordura. Por isso, antes mesmo que o organismo possa queimar toda a glicose, parte dela já é transformada em barriga e pneuzinhos.

Mais fome
Como a vítima fica com menos glicose no sangue, ela sente mais fome – e isso a faz comer mais. Além disso, testes em ratos descobriram que o Ad-36 interfere no funcionamento do hipotálamo, região cerebral que regula o apetite.