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16 mitos e verdades sobre a Idade Média

O estereótipo do cavaleiro solitário existiu mesmo? Havia cinto de castidade? Muito do que é popularmente dito sobre a Idade Média é invenção posterior.

Por Fábio Marton Atualizado em 4 mar 2021, 17h35 - Publicado em 28 fev 2020, 12h09

1 • Prima Noctes

Mito – Aparece nos filmes O Senhor da Guerra e Coração Valente: quando um servo casava, o senhor feudal tinha direito de dormir (e supostamente tirar a virgindade) da noiva. Como qualquer escândalo sexual extravagante, provavelmente é uma calúnia. As pessoas na Idade Média pareciam acreditar que isso existiu um dia no passado, com a referência mais antiga aparecendo na biografia de São Geraldo de Aurillac (805-909) pelo abade Odo de Cluny (880-942). Na história, um nobre exigia o suposto direito dos servos, mas era impedido por milagre. O mito foi repetido na Renascença principalmente por protestantes, interessados no contraste com a era “bárbara” em que o catolicismo imperava.

Ilustração sobre a prima noctes, com um homem retirando a aliança de uma mulher
duncan1890/Getty Images

2 • Cavaleiro andante

Mito – Pura criação literária, tão fictícia quanto os dragões e gigantes que matavam. O arquétipo do cavaleiro solitário que anda pelo mundo a fazer certos e desfazer errados se tornou extremamente popular após a recriação dessas lendas por escrito, pelo trovador francês Chrétien de Troyes (1135-1185). Cavaleiros de verdade eram militares profissionais que talhavam “fracos e oprimidos” a torto e a direito e tinham obrigações feudais.

3 • Achavam que a Terra era chata

Mito – A forma da Terra havia sido esclarecida pelos antigos gregos. No século 5 a.C., Parmênides e Platão já diziam que a Terra era redonda. Em 240 a.C., Eratóstenes estimou o tamanho da Terra com (historiadores discutem) 2% de erro. Documentos secretos portugueses sugerem que, quando Colombo se lançou ao mar, os portugueses sabiam, por seus cálculos do tamanho da Terra, que era impossível ele ter chegado à Índia. Na Idade Média, qualquer pessoa mais educada, ou instruída por um padre educado, sabia que a Terra é esférica. Mapas medievais mostram uma esfera com Jerusalém no centro – um mapa impreciso, mas esférico.

4 • Cinto de castidade

Mito – Menções ao “cinto de castidade” aparecem em textos religiosos como os de São Gregório (540-604). Mas os historiadores acreditam que sejam metafóricas. A primeira descrição de um literal cinto de metal está em Bellifortis (1401), um manual militar ilustrado de Konrad Kyeser, dizendo: “Estas são roupas de baixo de ferro rígido das mulheres florentinas”. Como nenhum objeto assim foi encontrado, historiadores acreditam que seja uma piada de marido chifrudo, que precisa recorrer a isso. Um cinto de metal fechado por meses seria letal para a usuária.

  • 5 • Donzela de ferro

    Mito – Uma caixa de ferro com formato humano e espinhos na qual a vítima era presa para sangrar. A mais icônica suposta forma de tortura medieval, dando no nome da banda de metal Iron Maiden. Em verdade, uma “relíquia medieval” inventada em 1808 e exposta em museus desonestos. Outra icônica forma de tortura que nunca existiu foi o pêndulo que balança até cortar a pessoa pela metade. Exemplos de tortura medieval de verdade: esticar a pessoa com cordas e roldanas, prensar membros, forçar a beber água com um funil, ser exposto em praça pública, piche e penas, chicotadas.

    6 • Castor (e capivara) eram considerados peixes

    Verdade – O jejum religioso era levado extremamente a sério na Idade Média. Era obrigatório na quarta, sexta e sábado, e durante toda a Quaresma – os 40 dias entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Páscoa, tirando domingos. Todo mundo só podia fazer uma refeição por dia (geralmente após o anoitecer), que não podia incluir álcool, ovos, carne ou laticínios. Peixes, porém, eram permitidos, o que criava uma desvantagem para quem morava longe da costa. O entendimento medieval de zoologia era que golfinhos (chamados de “porcos do mar”) e baleias são peixes. Rãs também. E aí surgiram exceções exóticas: o castor, por ter escamas na cauda e viver na água, foi chamado de peixe. Quando a América foi colonizada, a mesma lógica tornou a capivara um “peixe”. E essa nem era a mais bizarra: uma lenda medieval dizia que o ganso-de-faces-brancas nascia no mar, em madeira podre, como uma craca. Portanto, peixe.

    7 • Na queda de Constantinopla, discutiram o sexo dos anjos

    Mito – Ou, em outra versão, discutiram quantos anjos podiam dançar na cabeça de uma agulha. É uma piada maldosa criada por protestantes do século 17, para ridicularizar a suposta perda de tempo nos debates filosóficos medievais. O mais perto que se chegou a isso foi São Tomás de Aquino considerando se anjos podiam ocupar o mesmo lugar no espaço, em 1270.

    Ilustração de diversos anjos nus em roda, dançando. Eles são pequenos, como crianças, a possuem pequenas asas nas costas
    Andrew_Howe/Getty Images

    8 • Pessoas jogavam cocô pela janela

    Mito e Verdade – Várias cidades europeias, como Londres em 1309, criaram leis proibindo as pessoas de esvaziar o penico na rua, sob pena de multa. Se foi proibido, é porque faziam. Mas castelos tinham latrinas, assim como as casas mais bem-equipadas, geralmente no porão, e cidades também podiam ter latrinas públicas. A mesma Londres nessa época tinha 16 delas. Para quem dependia do penico, havia os rios e também catadores de esterco, que limpavam as latrinas quando enchiam.

    9 • Um cachorro virou santo

    Verdade – Um dia, um cavaleiro francês saiu para uma caçada deixando seu filho bebê aos cuidados do cachorro, um galgo chamado Guinefort. Ao voltar para casa, encontrou o quarto todo bagunçado, o cachorro com sangue na boca e o bebê desaparecido. Em fúria, matou o pulguento, apenas para ouvir o bebê chorando e descobrir uma víbora morta ao lado dele. Havia sido salvo pelo cão. Em profunda dor, o cavaleiro fez um túmulo para o cachorro, que se tornou local de peregrinação, um santo protetor dos bebês. A história foi registrada pelo dominicano Estêvão de Bourbon em 1262, condenando o que ele via como superstição popular. A Igreja acabou vencendo e o altar de “São Guinefort” foi destruído.

    Imagem de um cachorro correndo
    (/)/Shutterstock

    10 • Um papa vendeu o direito de ser papa

    Verdade – Bento 9º é um grande candidato a pior papa da história. Em 1032, ascendeu ao trono aos 20 anos, após seu pai subornar os cardeais. Em 1045, decidiu casar com a prima e ofereceu o cargo, com seu padrinho aceitando a oferta e se tornando o papa Gregório 7ª. Por outras maquinações, Bento assumiria novamente mais duas vezes, pondo a Igreja em clima de guerra civil.

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    11 • Não havia infância

    Mito – A ideia foi lançada em 1960 pelo historiador francês Philippe Ariès (1914-1984): na Idade Média, crianças eram só adultos em miniatura. As provas estariam nas imagens retratando as crianças como pequenos adultos e no fato de que as crianças começavam a trabalhar cedo. Essa ideia é rejeitada pelos historiadores atuais, e as provas são muitas: brinquedos de todos os tipos, como carroças, cavaleiros, panelinhas, foram encontrados em escavações arqueológicas. Também há registro de jogos de bola e tabuleiro, e imagens mostrando crianças brincando. A ideia de que crianças não podem trabalhar é muito recente, mas isso não quer dizer que não havia conceito de infância.

    12 • Um santo era cachorro

    Verdade – São Cristóvão é um santo ainda hoje venerado pelas Igrejas Católica e Ortodoxa. Várias imagens ortodoxas medievais o retratam com cabeça de cachorro. Era uma ideia plausível: entre as criaturas fantásticas tidas por reais na Idade Média estava o cinocéfalo: um humano com cabeça de cachorro, que acreditavam viver no Norte da África. A história veio de um erro de tradução: fontes latinas diziam que Cristóvão era um cananeu (isto é, da Palestina), escrito cananeus em latim. Os falantes de grego confundiram com canineus, e assim surgiu uma bizarra tradição de imagens, banida no século 19.

    13 • Uma disputa podia ser resolvida na prova por combate

    Verdade – Sim, na Idade Média, principalmente no começo, existiam julgamentos por ordália: um teste da vontade de Deus. A famosa prova de fogo consistia em colocar um ferro em brasa nas mãos do acusado e ver se queimava. Se queimasse, ver se o ferimento gangrenava ou sarava. Quem se feria havia sido condenado por Deus. A prova da água tinha a versão quente, enfiar a mão em água fervendo, e fria, ser jogado num rio para ver se boia (dependendo da época, era inocente quem boiava ou afundava).

    Ilustração de uma tocha de fogo
    (/)/Getty Images

    E a prova de combate era como na série Game of Thrones: cada lado podia escolher seu campeão. A Igreja sempre foi contra, preferindo julgamentos com testemunhas (e podendo recorrer à tortura). Em 1215, padres foram proibidos de participar de ordálias, no Concílio de Latrão II. Mas continuaram a ser praticadas em julgamentos seculares.

    14 • O prepúcio de Cristo foi uma das relíquias mais cobiçadas

    Verdade – Hoje pode soar esdrúxulo, mas a pele do pênis de Jesus, cortada, pelo costume judaico, no oitavo dia de vida, foi uma das relíquias mais famosas da Idade Média. O historiador David Farley estimou que até 18 igrejas clamaram ter o item genuíno ao mesmo tempo na Idade Média. O prepúcio, retirado no começo da vida, seria a única parte de Jesus a permanecer na Terra e sua importância era lembrar a parte humana de sua natureza. Os supostos prepúcios acabaram todos perdidos. O último deles, roubado em 1983.

    15 • Monges eram gordos

    Verdade – O estereótipo aparece no carismático Frei Tuck das histórias de Robin Hood. Dedicados a uma vida de ascetismo, os monges ainda assim abusavam. São Tomás de Aquino (1225-1274) era famosamente gordo. Um estudo calculou que monges consumiam 6 mil calorias por dia, mais que o dobro do necessário. Indícios de obesidade são comuns em ossadas de monges medievais.

    16 • O Santo Graal nunca foi encontrado

    Verdade – No século 12, enquanto as histórias do Rei Arthur eram cristalizadas no imaginário europeu por autores como Chrétien de Troyes, as catedrais de Valência (Espanha) e Gênova (Itália) já tinham seus candidatos a cálice sagrado. Continuam a ser reverenciados até hoje, mas a Igreja não afirma oficialmente que sejam mesmo o cálice de Cristo.

     

     

     

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