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Medieval, mas limpinho

A saúde era precária, mas as pessoas medievais não gostavam de sujeira.

Por Fábio Marton - Atualizado em 7 Maio 2020, 17h55 - Publicado em 5 abr 2020, 12h36

Ninguém precisa dizer que a higiene na Idade Média era abismal comparada com hoje. As ruas das cidades eram tomadas por lixo, esterco de cavalo, urina. Fezes humanas serviam de esterco, e esse esterco levava à reprodução de parasitas. Um método arqueológico recente é estudar latrinas medievais e tirar conclusões a partir dos resíduos de vermes intestinais. O corpo exumado do rei Ricardo 3º (1452-1485), da Inglaterra, por exemplo, rendeu uma quantidade prodigiosa de ovos de lombriga.

E, paradoxalmente, é já aqui que começamos a divergir dos clichês: os parasitas intestinais, por seu ciclo de vida, indicam que as pessoas tinham acesso a carne de peixe, porco e, menos, boi.

Não que as pessoas medievais estivessem livres da fome. Viver numa sociedade descentralizada e agrícola é viver da terra para a boca, com o clima podendo ser sentença de morte. O período quente medieval (950-1250), época em que a temperatura foi semelhante à do século 20, rendeu boas colheitas e a população aumentou 70% entre 1000 e 1300. Quando acabou, em 1315, veio a Grande Fome, que matou milhões. A população já estava em declínio quando a Grande Peste de 1348 tombou um de cada três europeus.

Peste e parasitas não eram tratados com reza brava. A medicina medieval era uma herança greco-romana, de Hipócrates (460-370 a.C.) e Galeno (129-216), com inovações pelo árabe Avicena (980-1037) e outros. A ideia é que doenças não são causadas por coisas sobrenaturais, mas físicas. Não era nem de longe ciência: astrologia era considerada “física” e médicos faziam mapa astral antes de executar sangrias ou cirurgias.

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Os autores clássicos deixaram interpretações baseadas nas teorias dos humores – líquidos dentro do corpo, relacionados aos quatro elementos, numa combinação de quente, frio, úmido e seco. O sangue, relacionado ao elemento ar, era quente e úmido. Bile amarela, o líquido da vesícula biliar, era quente e seca, ligada ao fogo. Bile negra, produzida pelo baço, era seca e fria como a terra. Fleuma (catarro), úmido e frio, como a água.

Achava-se, por exemplo, que vermes nasciam no próprio intestino, a partir de matéria inadequada: carnes “doces” ou frutas, que eram “frias e úmidas”, ligadas ao fleuma. Pratos apimentados eram “quentes e úmidos” e mexiam com o humor sanguíneo, deixando a pessoa febril e mentalmente perturbada.

Em paralelo e combinada com os humores, havia a teoria dos miasmas, que dizia que doenças podiam ser contraídas pelo ar contaminado, fedorento – como pântanos, cemitérios, latrinas e, importante, pessoas doentes, o que leva à ideia de contágio. A quarentena foi inventada na época da Peste Negra a partir dessa ideia, de que doentes emitiam miasma: surgiu primeiro em Ragusa, cidade italiana na atual Croácia, na qual forasteiros tinham que esperar um mês em acomodações em ilhas isoladas antes de entrar na cidade. O miasma podia ajudar a explicar gripes e outra forma da peste, a pneumônica. Mas não serviu para a bubônica, que passa por pulgas infectadas, não pelo ar.

Autópsia por médicos, no Livro das Propriedades das Coisas, de Barthelemy l’Anglais, 1475-1500. Josse/Leemage/Getty Images

Santa imundície

Quando a medicina encontrava seu limite, doenças acabavam indo parar no domínio da religião e superstição. A Grande Peste foi vista tanto como praga divina quanto bruxaria. E a culpa caía sobre os judeus, que supostamente eram menos afetados (era sua relativa segregação do resto da sociedade que fazia com que fossem contaminados por último). Pogroms foram feitos por toda a Europa para eliminar a “causa” da peste.

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Por essa época, a Igreja tratava imundície como um sinal de sacrifício e dizia que banhos eram lascivos, sensuais, e um hábito de judeus e islâmicos. Monges, dependendo da ordem, tomavam banho duas vezes por ano. Alguns santos, como São Goderico (1065-1170), que foi da Inglaterra a Jerusalém sem trocar de roupa, eram famosos por sua imundície.

O efeito das Cruzadas havia sido oposto. Na Terra Santa, os cruzados encontraram os hábitos de limpeza dos islâmicos e, com eles, sabão duro e perfumado. Como aconteceu com as especiarias e perfumes até então desconhecidos, como a água de rosas, o sabão viraria mania. Logo casas de banho seriam criadas e restauradas pela Europa. No século 15, Londres tinha 18 delas, e Paris, 32.

A Igreja não era sem razão em relacionar sexo a banho. Prostíbulos e casas de banho podiam se confundir. Tomar banho era, para quem pudesse, preliminar de sexo. Boccaccio registra em seu Decamerão (1353) uma cena na qual uma dama lava seu cavaleiro antes de fazer uso dele. No século 16, a festa da limpeza acabou. A sífilis, trazida das Américas, tornou banhos públicos perigosos. A teoria do miasma passou a ser usada por médicos para dizer que banhos podiam matar, ao abrir os poros para a entrada de miasmas. Começava a era de ouro do futum.

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