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As façanhas de D. Pedro I, o herói do 7 de setembro

A Independência do Brasil não foi o único feito do imperador – nem o último.

No alvorecer do dia 6 de julho, os primeiros raios de sol do verão europeu de 1832 esquentaram o início de uma das mais surpreendentes campanhas militares da história portuguesa. Um homem de bigode preto e vasta cabeleira em desalinho comandava o desembarque de 7500 soldados na areia grossa da Praia dos Ladrões, a poucos quilômetros da cidade do Porto, norte de Portugal. Era Pedro de Orleans e Bragança em pessoa, o mesmo que, havia nove anos e dez meses, proclamara a Independência do Brasil.

Nove dias antes, ele tinha partido com cinquenta navios do Arquipélago dos Açores, no meio do Oceano Atlântico. Objetivo da invasão: reivindicar para sua primogênita, Maria da Glória, a coroa de Portugal. Não a coroa em si, que por tradição permanecia junto a uma imagem de Nossa Senhora, mas tudo a que ela dava direito. No momento, o poder estava com d. Miguel, irmão mais novo de d. Pedro, que usurpara o trono. Como a princesinha ainda brincava com bonecas de louça, a idéia era d. Pedro assumir a regência quando vencesse a guerra.

Sucessão ou morte

Se você pensava que as façanhas de d. Pedro acabavam na Abdicação, não estava sozinho. Inexplicavelmente, o personagem some das aulas de História em 1831, aos 33 anos, passando a ser lembrado apenas nos festejos de 7 de setembro e por suas notórias aventuras extraconjugais. Não por acaso, já que reconheceu nove filhos bastardos, quatro deles com a célebre Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.

Acontece que d. Pedro, criado para suceder o pai, d. João VI, e fã confesso de Napoleão Bonaparte, para desgosto da família real, não era do tipo que se aposenta cedo. Chegou a acumular duas coroas, como Pedro I do Brasil e Pedro IV de Portugal, logo após a morte de d. João, e gastou muita diplomacia para se manter com um pé em cada país. Mas estava difícil. A instabilidade política e econômica brasileira o empurrava para a Abdicação e a traição do irmão Miguel em Lisboa dava uma solene rasteira em acordos firmados anteriormente. Desse jeito, sobrava-lhe apenas o título de Duque de Bragança. D. Pedro achou que isso não podia ficar assim, vestiu sua melhor farda e foi à luta.

Maria da Glória ia casar com o tio para reinar

Mesmo após a proclamação da Independência do Brasil, o rei de Portugal, d. João VI, ainda acalentava o sonho de reunificar os dois países sob a mesma coroa. E, na opinião dele, ela cabia perfeitamente na cabeça do filho mais velho, o imperador Pedro I. Até romper os laços com Lisboa, d. Pedro era o primeiro na linha sucessória portuguesa. Depois, nem todos pensavam assim. Os portugueses, irritados por terem perdido sua colônia mais rica, achavam que, desde o Grito do Ipiranga, d. Pedro abrira mão de seus direitos em Portugal, inclusive a nacionalidade. Até a família real estava dividida, metade apoiando o caçula Miguel para a sucessão.

Enquanto a corte polemizava, d. João e d. Pedro faziam planos. Até agosto de 1825, quando Portugal reconheceu a soberania do Brasil, o rei e o imperador trocaram dezenas de cartas jurando lealdade. Tanto que Pedro I não cobiçou nenhuma possessão portuguesa – caso de Angola, na África, cuja elite quis fazer parte do Império do Brasil para facilitar o tráfico de escravos. Pedro disse não, obrigado. Em compensação, d. João indicou-o como herdeiro do trono português num testamento feito poucos dias antes de morrer, em 1826.

Tudo em família

“O problema é que não era mais viável juntar os dois países”, disse à SUPER Fátima de Sá, historiadora da Universidade de Lisboa. “A nova elite brasileira se recusaria a dividir privilégios de novo.” Fatores externos também pesaram. A Inglaterra, maior potência comercial da época, procurava um novo parceiro na América, mas sem intermediários.

D. Pedro sentia-se bem por aqui, mas queria continuar com um pé em Portugal. “Ele tinha uma estratégia preparada”, contou à SUPER José Veríssimo Serrão, presidente da Academia Portuguesa de História. Prova disso é que, em 26 de abril de 1826, quando soube oficialmente que era o novo rei, agiu rápido. Nos parcos oito dias em que assumiu também o título de Pedro IV de Portugal, escreveu uma nova constituição, à imagem e semelhança da brasileira, garantindo direitos individuais e a formação de uma assembleia para governar com o soberano, num sistema dividido em quatro poderes: executivo, legislativo, judiciário e moderador. O liberalismo era mesmo a nova ordem mundial, contrária ao velho e capenga absolutismo, baseado no tripé povo, nobreza e clero.

Em seguida, d. Pedro tomou uma última atitude. Renunciou ao trono português em nome da filha mais velha, d. Maria da Glória, então com 7 anos. Só havia uma condição: ela deveria se casar com o próprio tio, ninguém menos que d. Miguel, na época com 24 anos.

Miguel deu um golpe e acabou com o noivado

O incestuoso plano de d. Pedro tinha um objetivo político: evitar encrenca. Os portugueses viviam sua pior crise econômica. A política estava tumultuada desde 1820, quando a Revolução do Porto forçou d. João a voltar para Lisboa. Absolutista moderado, o rei abriu espaço para os liberais no governo, mas viveu cercado de conspiradores até dentro de casa. Sua esposa, Carlota Joaquina, e o filho d. Miguel maquinavam tentativas de golpe. A rainha fez tantas que acabou de castigo no Palácio de Queluz. D. Miguel, que liderou dois levantes para depor o próprio pai, se exilou em Viena, na Áustria.

Mas essas não eram as únicas más notícias. No Brasil, o imperador acumulava uma enorme dívida pública, revoltas e enfrentamentos políticos de liberais que, baseados na constituição, exigiam mais espaço no governo – e d. Pedro não era tão liberal assim. Sentindo o perigo interno, ele optaria pela abdicação em favor de seu filho mais novo, o futuro Pedro II. Em Portugal, era preciso aniquilar qualquer oposição. O compromisso de sua filha com seu irmão parecia a melhor saída.

O plano era ardiloso. Até a maioridade de Maria da Glória, a regência de Portugal ficaria com d. Miguel. Mas, enquanto o casamento não fosse celebrado, o posto continuaria com a infanta d. Isabel Maria, irmã de ambos, no cargo desde a morte de d. João. “Inocentemente, d. Pedro achou que esse casamento resolveria a questão dinástica”, diz Fátima de Sá, “unindo o país num governo de conciliação nacional, apaziguando os absolutistas e abrindo caminho para os liberais”. Põe inocência nisso.

Puxando o tapete

A nova constituição foi jurada por d. Isabel Maria, ministros, secretários de Estado, nobreza, militares e clero. Até Miguel aceitou a proposta, assinando o noivado por procuração. De volta a Lisboa em 1828, o noivo prometeu entregar o poder à sobrinha no futuro. Era bom demais para ser verdade. Um mês depois, d. Miguel quebrou o pacto. Confiante nas manifestações de rua que pediam a volta do absolutismo, mandou Maria da Glória passear, proclamou-se Miguel I de Portugal, dissolveu a Câmara dos Deputados, nomeou uma assembleia à moda antiga e iniciou uma violenta perseguição aos liberais, com exílios e prisões em massa.

Para os historiadores, o erro foi justamente esse. Reconhecido apenas pela Espanha, Vaticano e Estados Unidos, o novo rei se isolou. “A Inglaterra, que apoiava d. Pedro, chegou a acenar com uma proposta de apoio se d. Miguel fizesse uma anistia geral”, diz Fátima de Sá. Absolutista de carteirinha, Miguel I riu da ideia e se ajeitou melhor no trono.

Pedro agora só imperava em uma ilha

A reação de d. Pedro veio em etapas. De 1827 a 1831, ainda no Rio de Janeiro, comandou uma resistência diplomática sobre a tese de que Maria da Glória era, de fato, a rainha de Portugal. Seu velho aliado, o Marquês de Palmela, com bom trânsito na corte inglesa, obteve apoio do rei George VI. Mas d. Pedro só se envolveu diretamente na questão quando sua popularidade no Brasil entrou em queda livre. No discurso de despedida, em 14 de abril de 1831, desejou felicidades aos brasileiros e passou o cetro para o filho Pedro de Alcântara, de 6 anos, iniciando o tumultuado período regencial no Brasil. Em seguida, partiu para a Europa atrás de apoio e dinheiro para fazer a guerra. Politicamente incorreto, bancara o conservador aqui mas lutaria pelo liberalismo lá.

Não havia sobrado muita terra para D. Pedro reinar em nome de Maria da Glória. Desde 1828, a Ilha Terceira, nos Açores, era o único foco de resistência dos liberais portugueses, varridos do país por Miguel I. Como as tropas do rei foram incompetentes para atacá-la, criou-se um foco de revolta com a ajuda de exilados. Em 1830, implantou-se ali um governo provisório que governaria em nome de Maria da Glória até a chegada dela e de d. Pedro, em janeiro de 1832. França e Inglaterra deram a maior força, mas em condições especiais. “D. Pedro conseguiu empréstimos a juros escorchantes”, diz Fátima de Sá. “A garantia era apenas a retomada do trono em Lisboa.”

O herói pôs um filho em cada trono

Os jornais da época não pouparam d. Miguel. Diziam que ele era um “criminoso sanguinário como um tigre, imbecil como um porco e vulgar como um rafeiro”. Por isso, salvar a vida do irmão custou caro a d. Pedro. Regente da filha, puniu os absolutistas com o sequestro de bens e a demissão de cargos públicos, mas os súditos queriam ver correr o sangue dos derrotados.

Para piorar as coisas, as finanças de Portugal beiravam o caos. O enorme empréstimo feito para formar o exército liberal se juntava à dívida deixada por d. Miguel. D. Pedro também ficou doente. Tivera saúde para ter mais um filho bastardo durante a guerra, com a dama de companhia de Maria da Glória. Mas, tuberculoso, estava muito magro. Os médicos diagnosticaram inflamação dos pulmões, icterícia e hidropisia (acúmulo de soro do organismo). Numa de suas últimas aparições públicas, no Teatro São Carlos, o “rei soldado” foi vaiado e chamado de canalha. Morreu na tarde de 24 de agosto de 1834, no mesmo lugar em que havia nascido 36 anos antes, no Palácio de Queluz – um quarto chamado Dom Quixote.

Final da história

Apesar dos pesares, d. Pedro cumpriu seu objetivo e fez sucessores. Brasil e Portugal continuavam nas mãos da mesma família, com d. Pedro II no Rio de Janeiro e Maria II em Lisboa.

Parece que o destino da menina era mesmo casar com um tio. Em 1835, ela subiu ao altar com o príncipe alemão Augusto de Lechtenberg, irmão de d. Amélia, segunda esposa de seu pai. Dois meses depois, Augusto morreu de uma inflamação na parede dos pulmões, embora boatos falassem de envenenamento. Mas a rainha não ficou solteira. Por procuração, casou-se com outro alemão, d. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, pai de seus onze filhos e do futuro rei Pedro V, que governou de 1855 a 1861. Ainda vigorava a constituição escrita por d. Pedro, cumprida até a proclamação da República portuguesa, em 1910.

Quanto a d. Miguel… Bem, este morreu em 1866, sustentado por partidários fiéis que o seguiram, teimando até o fim que era o legítimo rei de Portugal.