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A nota de R$200 equivaleria a uma de R$ 1.200 em 1994

Inflação acumulada desde o início do Plano Real e demanda por dinheiro vivo causada pela pandemia explicam a medida do Banco Central.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 31 jul 2020, 16h47 - Publicado em 30 jul 2020, 19h14

A nota de R$ 100 foi lançada em 1º de julho de 1994, quando o Plano Real passou a valer no Brasil. Hoje, 26 anos depois, a inflação acumulada desde esse dia é de 521%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Na prática, isso significa que uma nota de R$ 100 em 1994 valia o equivalente em bens e produtos a R$ 621. É como se, para corrigir essa distorção com valores arredondados, fosse preciso criar uma nota de R$ 600.

Ainda não chegamos a esse ponto, mas teremos uma nova nota circulando pelo Brasil em breve: a de R$ 200. Ela será estampada pelo lobo-guará, animal típico do cerrado brasileiro. 450 milhões de cédulas serão impressas ainda este ano, mas ainda não se sabe a data definitiva do lançamento.

O anúncio foi feito pelo Banco Central na última quarta-feira (29) e, como sempre, rendeu uma uma boa quantidade de memes na internet, mas também gerou uma série de dúvidas, preocupações e até críticas. Entenda a história.

Por que criar uma nota de R$ 200 agora?

Como mostram os números de inflação apresentados no começo do texto, é inegável que nossa moeda perdeu valor desde que foi lançada. Com isso, faz sentido criar uma nota de valor mais alto para tentar não ficar tanto para trás por conta da desvalorização da moeda. Ou seja: a estreia da cédula era, de certa forma, algo esperado.

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O Conselho Monetário Nacional admitiu que a medida já estava prevista em seus planos, mas evitou falar de inflação em suas explicações. Em vez disso, focou nos outros motivos que explicam a criação da nota, bem como o timing de sua implementação. Afinal, a inflação acumulada até influencia no processo, mas há um gatilho que acelerou o lançamento da nota: a pandemia.

A liberação do auxílio emergencial aumentou a demanda por dinheiro físico. Ao mesmo tempo, aconteceu um fenômeno conhecido como entesouramento: com o clima de incerteza sobre o futuro, a população tende a guardar dinheiro em suas casas, diminuindo as cédulas em circulação e aumentando mais ainda a demanda por elas. Esse processo, inclusive, não aconteceu só no Brasil, mas em vários outros países.

Além disso, uma nota de R$ 200 ajuda o governo a economizar nas impressões de cédulas. Ou seja, o momento se provou propício para se colocar em prática uma medida que, provavelmente, seria criada cedo ou tarde.

As reações à decisão

Para quem viveu no Brasil da década de 1980, porém, a nota de R$ 200 pode soar como um pesadelo. A época foi marcada por um período de hiperinflação tão grande que os zeros no final das cédulas aumentavam vertiginosamente até serem cortados com a implementação de uma nova moeda. Esse ciclo se repetiu diversas vezes (Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo…) e só terminou com o Plano Real. Essa memória gerou medo em alguns de que a nova cédula indicasse um período parecido, em que o real seria extremamente desvalorizado.

Embora possa parecer a mesma coisa, a nova medida não bebe da mesma fonte. Apesar de haver influência da inflação no processo, o que está sendo levado em conta é o acumulado de 25 anos, não apenas o valor atual.

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Na verdade, vivemos um período de baixa histórica no IPCA, que mede a inflação – é possível que ele termine em menos de 2% esse ano. A nova nota, portanto, não é um sinal de que enfrentaremos a década de 1980 novamente.

Mesmo assim, a medida foi criticada por alguns por facilitar corrupção e crimes como lavagem de dinheiro, que geralmente acontecem com cédulas físicas. Por exemplo: vai ficar mais fácil sair com malas de dinheiro por aí, já que um quantia em notas de R$ 200 ocupada metade do espaço da mesma quantia em notas de R$ 100. Países como a Índia e a União Europeia, por exemplo, implementaram recentemente medidas para desencorajar a circulação de dinheiro físico, principalmente em cédulas mais elevadas, em prol de operações digitais, exatamente para evitar situações como essas.

O Banco Central respondeu às críticas dizendo que não são as notas que induzem ao crime, e que esses desvios continuarão acontecendo independente da cédula utilizada. Além disso, não é fácil comparar o Brasil com a Europa, por exemplo, no quesito dinheiro físico vs. dinheiro digital. Em 2018, uma pesquisa constatou que as notas ainda eram o método de pagamento mais utilizado por 60% dos brasileiros. O uso delas é mais comum entre populações de menor renda, que têm menos contas em banco – partem delas a maior demanda por dinheiro em circulação.

De qualquer forma, a internet não perdoou a medida, especialmente porque, para o público geral, ela veio de forma inesperada. Alguns defenderam que o animal estampado na nova nota deveria ser o vira-lata caramelo, um clássico das ruas brasileiras:

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Outros fizeram piada com o fato da crise econômica estar tão feia que ter uma nota de R$ 200 “te faz privilegiado, sim”:

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Como se não bastasse, descobriram que os Simpsons, mais uma vez, previram o futuro: um episódio da série mostrou cédulas de R$ 200 em um episódio sobre o Brasil:

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