As raízes do imperialismo dos Estados Unidos
Entenda as ideias, guerras e interesses que sustentaram o processo de formação dos EUA – e como isso ajuda a explicar as intervenções e ameaças que estão acontecendo.
Virou cena rotineira: você mal tomou café da manhã e Trump já apareceu no noticiário internacional. Ele sequestrou o presidente de outro país, disse que vai tomar a Groenlândia “de um jeito ou de outro”, ameaçou usar força militar contra o México para resolver o problema das drogas e sugeriu que o Canadá poderia se tornar o 51º estado dos EUA.
Ainda não está claro se Trump pretende levar esses e outros planos adiante. Mas tratá-los apenas como um delírio retórico parece cada vez mais arriscado. Afinal, essa postura não começou com ele.
Há mais de um século, os EUA se portam como xerifes da geopolítica global, ditando regras, redefinindo fronteiras e interferindo no destino de outras nações. É um país que gasta trilhões de dólares por ano para manter a sua esfera de influência econômica, cultural e militar pelo globo.
Hoje, os EUA contam com cinco territórios não incorporados [mais sobre isso adiante], além de nove ilhas desabitadas. O seu exército tem em torno de 750 bases espalhadas por 80 países – 90% do total das bases militares internacionais.
Mas, afinal: como uma ex-colônia britânica, fundada em oposição ao imperialismo europeu e apresentada ao mundo como a república da democracia, tornou-se ela própria uma nação imperialista?
Escolhidos por Deus
As Treze Colônias britânicas na América do Norte nasceram em meio a brigas religiosas que sacudiram a Europa. No início do século 17, a Inglaterra ainda digeria a Reforma Protestante e os conflitos após a criação da Igreja Anglicana. Sem espaço dentro da religião oficial da Coroa, grupos de protestantes puritanos atravessaram o Atlântico em busca de liberdade para praticar sua fé.
Influenciados por um ramo do protestantismo conhecido como calvinismo, esses imigrantes acreditavam na predestinação e se viam como um “povo escolhido”. A possibilidade de viver sua religião sem restrições na América foi interpretada como prova de que a ocupação do território seria um “destino manifesto” determinado por Deus.
Em 1776, as colônias romperam com o domínio britânico. E, desde o início, o projeto nacional esteve ligado à expansão territorial.
Ao se enxergarem como portadores de valores religiosos e políticos superiores, os recém-independentes passaram a entender que o seu modelo de sociedade deveria se espalhar. A ocupação de novas terras, claro, trazia benefícios econômicos e políticos, com mais espaço para plantação e rotas comerciais e força para peitar os europeus. Mas era também um dever moral.
“Os EUA devem ser vistos como o ninho a partir do qual toda a América, Norte e Sul, será povoada”, disse Thomas Jefferson, terceiro presidente dos EUA e principal autor da declaração de independência do país.
Em 1801, Jefferson enviou uma carta a James Monroe, seu pupilo no curso de direito e que viria a governar os EUA anos mais tarde: “É impossível não ansiar por tempos distantes, quando nossa rápida multiplicação se expandirá para além desses limites e cobrirá todo o continente do Norte, senão do Sul, com um povo que fala a mesma língua, governado de forma semelhante e por leis similares”.
A expansão dos EUA ganhou escala em 1803, quando compraram da França a Louisiana, uma área de 2,14 milhões de km². O país dobrou de tamanho.
Mas faltou combinar com os nativos. A ocupação dessas terras destruiu o modo de vida dos povos originários – cuja população caiu de algo entre 5 milhões e 10 milhões, antes da colonização europeia, para menos de 250 mil ao final do século 19.
América para os estadunidenses
Em 1814, após as Guerras Napoleônicas, as potências europeias se reuniram no Congresso de Viena. O objetivo era restaurar as monarquias derrubadas pelas revoluções liberais e conter qualquer nova onda de instabilidade.
Os EUA interpretaram esse movimento como uma ameaça à sua crescente soberania na América. Se Portugal e Espanha se fortalecessem, poderia ser o fim da sua esfera de influência no continente.
Em 1823, o presidente James Monroe avisou ao Congresso que qualquer tentativa de intervenção europeia nas Américas seria tratada como uma agressão direta aos Estados Unidos. Em troca, o país prometia não intervir nos conflitos internos da Europa.
Nascia ali a Doutrina Monroe. O discurso agradou aos países latino-americanos recém-independentes. Em busca de reconhecimento internacional, eles viram com bons olhos a ideia de uma “América para americanos”. O Brasil é um exemplo: tornou-se independente em 1822 e foi reconhecido pelos EUA em 1824 – gesto comemorado por D. Pedro I.
A alegria, porém, durou pouco. Na prática, a Doutrina Monroe legitimou a expansão territorial e a interferência nos assuntos do continente. Monroe, diga-se, não era puritano. A sua política não teve motivações religiosas – foi geopolítica agressiva, que deixaria qualquer jogador de War irritado.
Em 1846, durante o governo de James Polk, os EUA entraram em guerra contra o México. Após dois anos de conflito, anexaram 1,3 milhão de km² do território mexicano – aproximadamente 55% do país.
Polk queria mais, só que aplicar a doutrina não era tão simples. Na época, os EUA eram uma nação frágil, desigual e profundamente dividida entre os estados da região Norte (industrial e baseada no trabalho assalariado, defensora de um Estado federal forte e da expansão territorial como motor do crescimento) e os da região Sul, agrária e escravista, dominada por grandes proprietários e avessa a qualquer mudança que ameaçasse o equilíbrio político entre os dois modelos sócio-econômicos do país.
A tensão explodiu em 1860, após a eleição de Abraham Lincoln, e levou à Guerra Civil. A vitória do Norte preservou a unidade nacional, fortaleceu o governo federal e abriu caminho para uma industrialização acelerada, apoiada na integração do mercado interno, nas ferrovias e no acúmulo de capital.
República imperial
No final do século 19, a bola da vez eram o Pacífico e o Caribe, regiões estratégicas para o comércio e a projeção naval. Faltava só um pretexto que tornasse a intervenção dos EUA politicamente aceitável.
Ele surgiu em 1898, quando o encouraçado USS Maine explodiu no porto de Havana, em Cuba. A causa nunca foi comprovada, mas a imprensa norte-americana rapidamente atribuiu a culpa à Espanha. A narrativa ganhou força ao ser apresentada como uma “cruzada” pela libertação dos cubanos do domínio colonial.
Com a opinião pública inflamada, os EUA entraram na Guerra Hispano-Americana. O conflito durou poucos meses e terminou com vitória norte-americana, impondo aos espanhóis a perda de seus principais territórios ultramarinos.
Cuba tornou-se formalmente independente, mas sob tutela dos EUA, que graças a um tratado assegurou uma intervenção militar (que durou até 1902). Porto Rico virou território não incorporado: pertence aos EUA, mas não é um estado. Os seus habitantes, apesar de serem considerados cidadãos do país, não têm os mesmos direitos políticos do continente (eles não votam para presidente, por exemplo). No Pacífico, as Filipinas, Guam e o Havaí passaram ao controle norte-americano.
Para muitos especialistas, foi aí que os EUA se tornaram uma potência imperial. Em termos históricos, imperialismo é a dominação exercida por um país sobre outro, econômica, política, militar ou culturalmente, em benefício dos interesses estratégicos da nação dominante.
Outros pesquisadores, porém, defendem que esse traço está na raiz. “Eles estão em guerra desde o início. Primeiro, contra os povos indígenas. Depois, contra o povo latino. Em menos de 100 anos após a fundação, o país já havia multiplicado seu território por 11”, diz Sean Purdy, professor de História dos Estados Unidos na USP.
O grande porrete
Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt apresentou uma releitura da Doutrina Monroe, o “Corolário Roosevelt”. Ele dizia que os EUA tinham o direito de intervir nos assuntos internos de países latino-americanos sempre que identificassem “desordem crônica” ou violações graves das normas internacionais. Na prática, criava uma base política para intervir quando conveniente.
“Tudo o que este país deseja é ver os países vizinhos estáveis, ordeiros e prósperos”, disse Roosevelt ao Congresso. Mas o “afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada” poderia obrigar os EUA, “ainda que com relutância”, a atuar como “polícia internacional”.
A lógica ficou resumida na frase célebre: “Falar suavemente, mas carregar um grande porrete”.
As décadas seguintes ficaram conhecidas como a “Guerra das Bananas”. Entre 1913 e 1921, o presidente Woodrow Wilson autorizou intervenções em ao menos sete países, incluindo Nicarágua, República Dominicana, Haiti, Cuba, Panamá, México e Honduras. Tudo para assegurar a exploração de empresas agrícolas dos EUA.
Bons amigos
Com o colapso da Bolsa de Nova York em 1929, o país enfrentou uma grave crise econômica. As vacas magras levaram o governo de Franklin Roosevelt a lançar a “Política da Boa Vizinhança”, que defendia uma postura menos agressiva. “Não havia recursos nem vontade política para ficar invadindo outros países”, conta Purdy.
A atuação regional passou a apostar menos no porrete e mais em diplomacia, acordos logísticos e soft power (influência cultural). O maior símbolo dessa época talvez seja a turnê, em 1941, que Walt Disney e funcionários do seu estúdio fizeram pela América do Sul. Patrocinada pelos EUA, a viagem foi um aceno em busca de aliados antinazistas. Foi nessa época que o Brasil ganhou o personagem Zé Carioca.
Enquanto a Europa estava em frangalhos, os EUA saíram fortalecidos da Segunda Guerra: território intacto, indústria acelerada pela produção bélica e reservas financeiras sem precedentes. Esse domínio, porém, encontrou resistência com a União Soviética (URSS). Era o início da Guerra Fria.
O fantasma do comunismo
A partir daí, intervenções externas passaram a ser justificadas como parte de um esforço global para conter a expansão socialista, mesmo em países sem ligação direta com a URSS.
Em 1947, foi criada a CIA, que se tornaria um dos principais instrumentos dessa estratégia. A agência passou a atuar em operações encobertas para influenciar eleições, desestabilizar governos, apoiar golpes de Estado e sustentar regimes aliados, por meio de propaganda, sabotagem, financiamento e suporte a forças locais.
Na Ásia, os EUA se envolveram nas guerras da Coreia e do Vietnã, além de operações no Camboja e no Laos. No Irã, fomentou a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh.
Na América Latina, Washington interferiu em quase todos os países [veja mapa abaixo]. No Brasil, o caso mais emblemático foi a Operação Brother Sam, em 1964, quando deram apoio logístico e militar ao golpe que instaurou a ditadura.
Documentos mostram que a CIA já monitorava a política brasileira desde 1961, no governo João Goulart (seu antecessor, Jânio Quadros, fez o Brasil retomar relações com os soviéticos antes de renunciar).
O poder militar também foi usado para fazer pressão. Em 1962, os EUA impuseram um bloqueio naval a Cuba após a instalação de mísseis soviéticos na ilha. A “Crise dos Mísseis” levou o mundo ao auge da tensão nuclear.
A partir de 1975, ditaduras sul-americanas passaram a atuar de forma coordenada na repressão a opositores, no que ficou conhecido como Operação Condor. O respaldo norte-americano ficou evidente em registros da própria CIA, que descrevem a iniciativa como uma cooperação regional contra “terrorismo e subversão”.
Em 1989, a queda do Muro de Berlim marcou o fim da Guerra Fria. Sem um rival à altura, os EUA tiveram que recalcular a rota novamente. Agora, como justificar intervenções internacionais?
A saída foi alegar tentativas de “restaurar a ordem”, “combater o crime transnacional”, “promover os direitos humanos” ou “defender a civilização ocidental”, diz Augusto Rinaldi, professor de Relações Internacionais na PUC-SP e na Belas Artes.
Segundo Rinaldi, esse discurso ajuda a convencer a população norte-americana de que decisões polêmicas não seriam apenas do interesse dos EUA, mas “necessárias”, porque o país teria um papel especial no mundo.
Isso ecoa com o que vimos no começo do texto. Desde o início, os EUA se veem como uma nação “singular”. A ideia se enraizou na identidade nacional e atravessou toda a política externa. “Nunca podemos duvidar da força da memória histórica”, ressalta Luiz Estevam, professor de História da América na Unicamp.
Guerra ao Terror
Após os ataques do 11 de Setembro, sob o governo de George W. Bush, tomou forma a Guerra ao Terror, que tratou o terrorismo como ameaça global e permanente – foi usado como justificativa para intervenções preventivas.
O primeiro alvo foi Osama bin Laden, suposto mentor dos ataques (ele só assumiu a responsabilidade pelo ato em 2004). Em outubro de 2001, tropas norte-americanas invadiram o Afeganistão, então governado pelo Talibã. O regime caiu e, dez anos depois, Bin Laden foi morto num ataque norte-americano (em 2021, os EUA deixaram o país, e o Talibã voltou ao poder).
Em 2003, Washington liderou a invasão do Iraque, sob a alegação de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e vínculos com o terrorismo – acusações nunca comprovadas. À época, a Casa Branca defendeu o “direito à autodefesa antecipada”.
Os EUA também realizaram ataques com drones no Iêmen, interviram na Líbia, intensificaram operações na Somália e lideraram, a partir de 2014, uma coalizão contra o Estado Islâmico na Síria.
Apesar de ter sido premiado com um Nobel da Paz, Barack Obama, que governou de 2009 a 2017, tornou-se o primeiro presidente a passar todos os dias do mandato com o país em guerra. Isso mostra que, quando o assunto é política externa dos EUA, pouco importa se o governo é republicano ou democrata.
Império decadente?
Donald Trump herdou a tradição de intervenções e a levou a um novo patamar, sobretudo em seu segundo mandato.
Em dezembro de 2025, ele anunciou uma nova Estratégia de Segurança Nacional que incorpora um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. “Os EUA jamais permitirão que potências estrangeiras roubem nosso povo ou nos expulsem de nosso próprio hemisfério”, disse o republicano.
É uma subida de tom que não vem do nada. Os EUA seguem como a maior economia do mundo, mantêm a supremacia militar, lideram áreas-chave da tecnologia e controlam o dólar. Mas já não mandam sozinhos. A ascensão econômica da China vem limitando a margem de manobra norte-americana.
“O desprezo e o desmonte das instituições internacionais e a opção por políticas de força refletem a incapacidade dos Estados Unidos de ditar o jogo como o faziam antes”, diz Rinaldi.
A captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, ilustra isso. A Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do mundo, está cada vez mais integrada à órbita chinesa. A justificativa oficial não hesita: envolve o controle de recursos naturais e a abertura do mercado para empresas dos EUA.
Para Purdy, trata-se de um “império em decadência”. Não há como prever até quando os Estados Unidos conseguirão sustentar esse papel, mas os sinais de desgaste são claros. Resta acompanhar até onde eles conseguem ir – e até onde vão encontrar resistência.
Agradecimentos: Felipe Loureiro, professor de Relações Internacionais da USP





