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O pedaço de borracha que destruiu o ônibus espacial

Ele é uma das máquinas mais complexas já criadas. Tem 2,5 milhões de componentes. Mas foi traído por um anel de vedação.

Por Redação Super Atualizado em 28 jan 2021, 11h18 - Publicado em 11 mar 2015, 14h36

O quê? Explosão do Challenger. Onde? Cabo Canaveral, EUA. Causa: Falha técnica. Quando? 28 de janeiro de 1986. Aeronave: Challenger. Número de mortos: 7 (seis astronautas profissionais e uma professora de História)

O ônibus espacial Challenger, que voou pela primeira vez em 1983, era o orgulho da Nasa: uma máquina de 2,5 milhões de peças e mais de 37 metros de comprimento que podia alcançar uma velocidade de até 23 mil quilômetros por hora. Foi o segundo ônibus espacial a ser produzido; o primeiro foi o Columbia, que voou pela primeira vez em 1981. O ônibus espacial era muito mais sofisticado do que as naves anteriores – cuja única forma de voltar para a Terra era cair no mar. Ele voltava planando e pousava elegantemente, como um avião. Isso impressionou o público e foi uma vitória para os americanos, que ainda disputavam a corrida espacial com a URSS (que criou seu próprio ônibus espacial, o Buran, que voou pela primeira vez em 1988).

Os EUA saíram bem na frente, e a Nasa tinha motivos para estar orgulhosa – mas seu excesso de confiança acabaria sendo fatal. Em 1986, a Challenger explodiu, causando a morte de todos os sete tripulantes. Em 2003, foi a vez do Columbia se desintegrar ao reentrar em órbita. De 135 voos realizados por ônibus espaciais, dois acabaram em acidentes fatais – ou seja, um a cada 67,5. Pode não parecer muito, mas lembre que as chances de um desastre de avião são de 1 em 1,2 milhão. O ônibus espacial acabaria se provando uma das aeronaves mais perigosas já inventadas.

Na manhã de 28 de janeiro de 1986, centenas de pessoas estavam reunidas no Cabo Canaveral, na Flórida, para ver o décimo lançamento da Challenger – incluindo familiares dos sete tripulantes. E a televisão transmitia o momento para centenas de milhões de pessoas, no mundo todo. O ônibus espacial decolou às 11 horas e 9 minutos. Quando alcançou 14 mil metros de altitude, uma chama brotou de um dos foguetes laterais. A labareda lambeu a janela da nave, junto ao assento de um dos pilotos, Michael Smith. A caixa-preta registra suas últimas palavras: “Oh-oh”.

Logo em seguida, a estrutura de aço, cerâmica e alumínio reforçado foi engolida por uma bola de fogo e vapor d’água – gerado pelo hidrogênio líquido do tanque de combustível. A explosão aconteceu apenas 73 segundos após a decolagem.

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2 minutos e 45 segundos durou a queda da cabine até o impacto final

“Se o acidente houvesse ocorrido a uma altitude maior, não teria sido visto pelas pessoas no solo, nem captado pelas câmeras” , diz Maurício Pazini Brandão, professor de engenharia aeroespacial do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que vivia nos Estados Unidos na época. “Mas a explosão aconteceu na faixa visual das pessoas. Foi um trauma para quem viu.” O acidente, contudo, ainda não tinha acabado.

Assim que a nave se desmanchou, a cabine se destacou, quase intacta. Ergueu-se no ar por cerca de 5 mil metros, para então desenhar um arco no céu e começar a cair. A parábola da morte durou exatos 2 minutos e 45 segundos até o impacto contra o Atlântico, cerca de 19 mil metros abaixo. Investigações posteriores demonstraram que as reservas de oxigênio dos dois pilotos foram ativadas – evidência de que ao menos parte da tripulação estava não apenas viva, mas consciente, durante a queda. A cabine se estraçalhou ao bater na água, e só aí todos os astronautas morreram.

A investigação oficial do acidente concluiu que a Nasa foi imprudente, pois sabia que os anéis de borracha que vedavam os foguetes poderiam encolher se expostos a temperaturas inferiores a 11 graus Celsius. Já tinha até debatido isso com o fabricante dos anéis (a empresa americana Thiokol, segundo a qual não haveria problema, pois a nave tinha vários anéis de vedação; se um encolhesse, os demais compensariam). Naquela fatídica manhã, os termômetros no Cabo Canaveral estavam próximos a zero. Mesmo assim, a Nasa levou adiante o lançamento. Um dos anéis falhou, o combustível vazou, e a nave explodiu.

  • O fim dos shuttles

    Na manhã de 1 de fevereiro de 2003, o Columbia se preparava para regressar à Terra depois de sua 28ª jornada. Dentro do ônibus espacial, tudo parecia em ordem. Em um vídeo feito dentro da cabine, os astronautas brincam entre si e dão tchauzinho para a câmera, num clima de total descontração. Minutos depois, o Columbia iria pegar fogo e se desintegrar. Os astronautas não sabiam. Mas a Nasa estava ciente de um potencial problema. Seus engenheiros viram que durante o lançamento do Columbia, 12 dias antes, um pequeno pedaço do escudo térmico, na asa esquerda da nave, tinha se soltado. Depois de várias reuniões, a agência decidiu não fazer nada. Ao voltar para a Terra, o Columbia não estava protegido contra o calor criado pela reentrada na atmosfera. A asa se desintegrou, e toda a nave se desmanchou. Em 2010, os ônibus espaciais foram aposentados de vez.

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