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Ele está só. Mas está errado?

O pior é que o papa Bento 16 tem bons motivos para defender coisas tão estranhas

Texto Leandro Narloch

Pode alguém estar tão isolado do mundo atual quanto o papa Bento 16? Veja só: ninguém mais discute a importância da camisinha para prevenir a aids. Para o papa, porém, os católicos não devem usá-la nem devem transar por prazer. A nossa cultura também reconhece como uma conquista o direito das mulheres de se divorciar e comandar a própria vida, e a tolerância aos gays é um objetivo. Não para o papa, que acha o feminismo bobagem, o divórcio “uma praga” e os gays um problema.

Tem mais: ele condena os padres que participam da luta social contra a pobreza e não dá a mínima para a convivência pacífica com outras religiões, como o islamismo. E, numa época em que todos lutam para atrair fiéis, eleitores, clientes, Bento 16 sabe que suas posições vão afastar os poucos católicos praticantes que restam, mas dá de ombros: uma Igreja Católica menor é exatamente o que ele quer.

Seria fácil dizer que o papa é um louco a esbravejar dogmas de sua instituição, se ele não tivesse argumentos interessantes, corajosos e a par do pensamento e da história do Ocidente.

Não é relativo

Joseph Ratzinger escolheu o nome de Bento 16 em homenagem a são Bento de Núrsia, fundador da Ordem Beneditina e padroeiro da Europa. No século 5, são Bento manteve a cultura cristã a salvo das invasões bárbaras. Assim, a Igreja pôde se espalhar pelo continente. É mais ou menos o que Bento 16 quer fazer: manter a doutrina católica a salvo dos perigos da modernidade, para que a Europa possa voltar a ser cristã.

Os “perigos da modernidade” podem ser resumidos em dois traços atuais que dilaceram a Igreja: a secularização (a distância entre a sociedade e a religião) e o relativismo moral, a idéia de que cada pessoa, cada crença pode atingir a verdade, e portanto ninguém é capaz de julgar o outro. Para a Igreja, nada poderia ser pior. O relativismo torna fácil que pessoas comuns contestem as regras religiosas, põe em xeque a hierarquia e impede o avanço da Igreja pelo mundo. Se cada religião atinge sua verdade, por que um padre deveria converter hindus ao catolicismo?

Para combater o relativismo, uma corrente de cardeais do Vaticano, que o papa encabeçava quando era cardeal, defende que a Igreja reafirme sua doutrina. Em 2001, ele escreveu a polêmica declaração Dominus Iesus (“Senhor Jesus”), atacando a “mentalidade indiferentista, imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que ‘tanto vale uma religião ou outra’”. No texto, ele afirma sem dó: o catolicismo é melhor que as outras religiões e só se pode atingir a verdade por ele.

Pensando assim, a Igreja deve seguir intacta, como guardiã dos valores cristãos. Se mudar, perderá sua identidade e não terá mais nada a oferecer. Se possível, deve voltar a ter missa em latim, como antes de 1962. Precisa seguir fiel ao que acredita, mesmo que com ainda menos fiéis. No livro O Sal da Terra, uma grande entrevista dada em 1996 ao jornalista alemão Peter Seewald, o papa é categórico: “A era da Igreja de massas acabou”.

Sem Deus

Se o relativismo abala os alicerces da Igreja, imagine o que faz a ausência da fé entre as pessoas. Essa característica moderna preocupa o papa não só porque ele é chefe de uma das maiores religiões do mundo, mas porque, como um religioso nato, não deve achar possível haver um mundo sem Deus.

O jeito moderno de pensar se baseia na idéia de que tudo pode ser resolvido pela razão. Para melhorar o homem, bastaria usar o conhecimento, a ciên­cia, para reformar a sociedade, por exemplo trocando o capitalismo pelo socialismo, diminuindo a miséria etc. Para o papa, porém, a razão não consegue aprimorar o homem, pelo contrário: “O progresso também é um progresso de possibilidades de destruição”, afirma. “Somos mais difíceis do que nossa revolução moderna pensou”, diz o filósofo Luis Felipe Pondé, professor de teologia da PUC-SP. Seguindo os conceitos essenciais do catolicismo, o papa acredita que o homem nasce mau, tem uma imperfeição estrutural. Portanto, precisa da religião e do temor a Deus.

A idéia de Deus como criador do mundo começou a desmoronar há cerca de 5 séculos. De lá para cá, Copérnico, Newton e outros gênios mostraram um mundo sem harmonia divina (e sim como um caos de forças que se batem), levando à conclusão de que o fato de vivermos é insignificante e casual. Com essa mudança, vieram perguntas estranhas. Se estamos aqui por acaso, por que temos que viver? Se não temos ninguém a obedecer, como saber o que é certo ou errado?

Para Bento 16, a fixação das pessoas em prazer, felicidade própria e liberdade vem dessa falta de sentido que a vida tomou. “Se Deus não está presente, o mundo desertifica-se e tudo é insuficiente”, diz em O Sal da Terra. O papa acha que estamos obcecados por liberdade e essa obsessão estaria por trás da questão do aborto e do divórcio. O raciocínio é assim: se a minha felicidade importa mais, um filho é uma ameaça à liberdade, por isso deve ser abortado; um casamento que dure para sempre vira uma aposta grande demais. “Se o indivíduo autônomo tem a última palavra, tem de poder querer tudo. Tenho de me agarrar ao meu bocado de vida, tenho de me realizar, e ninguém pode intrometer-se.”

No jeito católico de pensar, não importa se você viveu feliz, seguindo sua opção sexual ou viajando pelo mundo num veleiro. Sem acreditar em Deus, será um projeto que tende ao fracasso, à morte. Para escapar disso, Bento 16 propõe que as pessoas voltem a ter fé. E também que parem de se preocupar tanto com si próprias. Quem não buscar se eternizar na família e enxergar o amor como um ato de renúncia estará perdendo tempo.

Então o jeito é voltar aos tempos antes de Copérnico? Não. O papa não nega as vantagens do progresso científico nos últimos séculos. Só considera que a ciência não é tudo. A ditadura da razão, para ele, é tão perigosa quanto o fanatismo religioso.

“A Igreja precisa se opor às marés de modismos e últimas novidades.”

Joseph Ratzinger, em 2005, um dia antes de ser eleito o papa Bento 16.