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Ensino religioso , pelo amor de Deus

Educadores e pais retomam uma discussão fundamental: como ensinar religião para as crianças?

Renata Saraiva

Francis Crick e James Watson decifraram o mistério da vida, há 50 anos, ao desvendar a estrutura do DNA. Mas nem isso nem o anúncio, meio século depois, de que o clone humano já era possível abalaram a fé que o homem deposita em Deus desde os primórdios de sua existência. No século 21, a religião não só permanece viva, como ainda continua provocando conflitos e, mais do que nunca, desafia os educadores. Afinal, crianças e jovens devem ter educação religiosa? A questão, que já parecia fora de propósito, vem gerando grande debate e inquietando mães e pais.

No Brasil, 12,3 milhões de pessoas, ou seja, 7,3% da população, se declaram sem religião, segundo o Censo 2000. Mas a grande maioria é religiosa, do catolicismo, que só deixou de ser oficial depois da República, à umbanda e ao budismo, passando pelo espiritismo, sem contar os evangélicos, a crença que mais cresce no país. Lidar com essa diversidade é hoje um dos grandes dilemas da educação.

Até que ponto se deve incutir nos filhos a mesma crença? Não seria mais certo deixar garotos e garotas conhecerem os diversos credos para escolher o que seguirão? E para quem não professa uma fé? É correto privar os filhos de informação e do direito de conhecer uma religião? A discussão não se dá só aqui. Em boa parte do mundo vem se travando um embate entre os que defendem que ensino e religião são mundos diferentes e os que sustentam que a ignorância de temas religiosos é uma das fontes que alimenta preconceitos.

Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), do Ministério da Educação, determinou a obrigatoriedade do ensino religioso no ensino fundamental das escolas públicas, com participação facultativa dos alunos. Um ano depois, a lei foi alterada para assegurar que as aulas respeitem a diversidade cultural e religiosa, sem impor a predominância de uma crença. O papel do ensino religioso, segundo a LDB, é ensinar valores universais, como ética, respeito humano e cidadania.

“O Brasil está em posição bastante avançada nesse assunto”, diz André Porto, integrante do movimento Interreligioso, do Rio de Janeiro. Antes da Lei de Diretrizes e Bases, muitas escolas públicas já tinham aulas de religião, mas não com o caráter ecumênico de hoje. Mas, em muitos casos, afirma Porto, o ensino religioso era atrelado à catequese sem dar ao aluno uma visão ampla do tema. Poucos professores transmitiam a seus alunos, por exemplo, informações sobre o islamismo, mesmo que um entre cada cinco habitantes do planeta seja seguidor de Maomé.

Nas escolas de origem religiosa, a discussão é, naturalmente, bem mais antiga, embora seu tratamento varie de acordo com a proposta pedagógica de cada um. Mas a maioria há muito tempo já não faz das aulas uma extensão da Igreja, e sua experiência vem servindo de modelo para as escolas laicas.

Em alguns dos colégios mais tradicionais, avós e mesmo pais de formação religiosa tradicional ficariam espantados ao ver que o espaço antes dedicado a orações ou ao ensino da vida dos santos hoje é utilizado para discutir temas polêmicos, como sexo, gravidez na adolescência e até a existência – ou não – de Deus.

Quando os pais matriculam seus filhos no Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais centros de formação humanista em São Paulo, já sabem que da primeira à oitava série eles terão uma aula semanal de ensino religioso e, se quiserem, também poderão ser matriculados no catecismo, como preparação para a primeira comunhão. Religião é uma disciplina como qualquer outra e pode reprovar, assim como português, matemática, história e geografia.

O objetivo é levar o jovem a uma reflexão, a mais ampla possível, sobre o imediatismo e o materialismo da sociedade contemporânea, afirma Cláudio Antônio Rondello, coordenador da área. No Santa, como é chamado pelos alunos, o ensino religioso desenvolve duas esferas: a da contemplação e a da solidariedade. “Queremos que o aluno cultive sua relação com a espiritualidade. Mas, também, que ele relacione isso com o mundo, por meio de programas sociais como visitas a favelas”, diz Rondello.

Na equação educar para o mercado ou educar para a vida, o Santa Cruz fica com a última, mas sem abrir mão de um ensino de alta qualidade – seus alunos estão sempre entre os primeiros classificados nos vestibulares. Para conciliar rigor científico e fé, uma das soluções encontradas foi manter, na oitava série, fase em que os alunos expressam mais suas dúvidas, um mesmo professor para ciência e religião. “Procuro passar para os alunos que ciência e religião não se excluem”, afirma Rodrigo Plotek, professor das duas disciplinas.

Dúvidas fazem parte de todo processo de aprendizado e de crescimento. Aluna da sexta série do Colégio Marista Arquidiocesano, que tem ensino religioso na grade curricular dos ciclos fundamental e médio, Ana Luiza de Castro Rossetti não acha que a explicação para a criação do homem esteja no Gênesis. “Se ser católico é acreditar que Deus criou o homem da terra, eu não sou. Prefiro a teoria científica”, diz. Para ela, não há nisso nenhum conflito. “Acredito em Deus. Para mim, ter uma religião é adotar uma maneira de ser”, afirma.

Além do conteúdo pluralista de seu ensino religioso, o Arquidiocesano procura despertar nos alunos as relações entre elementos presentes em seu cotidiano e a fé. O colégio tem, por exemplo, três espaços “sagrados”, cujas histórias são contadas aos estudantes no decorrer do curso. São a capela, a gruta, construída pelos padres maristas durante a gripe espanhola, no início do século passado, em agradecimento a nenhum deles ter sido vitimado pela epidemia, e o jardim japonês, construído em homenagem à colônia, numerosa na Vila Mariana, em São Paulo, onde a escola está instalada.

No tradicional Colégio São Luís, ligado à Companhia de Jesus, que iniciou o ensino no Brasil, a educação religiosa é confessional, baseada no pensamento de Santo Inácio de Loyola, embora sacramentos como a primeira comunhão e o crisma não sejam obrigatórios. “Apesar disso, a escola respeita e dialoga com as diferenças e com as outras religiões”, afirma Ceciélio Dias Cortes, assessor de formação cristã.

Centenário, o Colégio São Bento, de São Paulo, mantém o ensino religioso, mas deixa ao aluno a opção de freqüentar as aulas, ministradas sob orientação de monges beneditinos “Uma das marcas que procuramos imprimir é a da vivência em comunidade”, afirma dom Hildebrando Afonso Brito de Miranda, reitor do colégio.

Mais que busca de espiritualidade, o ensino religioso também representa a preservação de uma identidade cultural. Freqüentado pela comunidade judaica de São Paulo, o Colégio Renascença oferece ensinamento sobre o Torá, o livro sagrado dos judeus, além de estudos sobre a origem, a cultura, a geografia e a história de Israel. “O Renascença é uma escola judaica boa, e não uma boa escola judaica. Temos muitos alunos não-judeus”, diz Miriam Smaaletz, diretora da área de cultura judaica. “Não é raro as crianças resgatarem, em casa, traços da cultura judaica que tinham sido esquecidos por seus pais”, afirma.

Também a comunidade islâmica de São Paulo mantém escolas para ensinar às crianças sua cultura e a religião. Uma delas é a Escola Islâmica do Brasil, onde, até o ano passado, as aulas de árabe e cultura islâmica eram optativas e ministradas fora do horário normal. A partir deste ano, o estudo do árabe e da cultura muçulmana passaram a fazer parte do currículo. “O ambiente não é religioso, mas algumas regras devem ser respeitadas de acordo com nossos valores”, diz o xeique Muhammed Umanah, coordenador de ética e cultura islâmica. Assim, meninos e meninas fazem aulas de educação física separados, e o namoro é proibido na escola.

No debate que se trava atualmente, tanto nas escolas religiosas, quanto nas públicas, à procura de caminhos, como nas particulares laicas, que estudam a conveniência de adotar o ensino religioso, a tendência é ir na direção contrária à da Escola Islâmica. Se a volta da religião aos currículos parece ganhar um número cada vez maior de defensores, o caminho proposto não é o da doutrina e da conversão, mas o da abertura para o entendimento e para a tolerância.

Saiba mais

Alguns colégios particulares que têm Ensino Religioso em São Paulo

Colégio Santa Cruz – http://www.santacruz.g12.br

Colégio de São Bento – http://www.colegio.org.br

Colégio São Luís – http://www.saoluis.org

Colégio Renascença – http://www.renascenca.br

Escola Islâmica do Brasil – http://www.mesquitabrasil.com.br

Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo – http://www.arqui.g12.br

Álbum de escola

Algumas lembranças das aulas de religião

Jairo Bouer

Psicanalista e apresentador de TV

“Eu tive um ensino religioso baseado no judaísmo, no Colégio Peretz, em São Paulo. Meus pais sempre foi foram liberais, nunca exigiram que eu fosse religioso. E até hoje não sou, embora siga algumas tradições. O que foi mais interessante no fato de ter aprendido religião é que isso me aproximou da cultura e das tradições judaicas. Acho importante o ensino religioso para que os jovens conheçam várias culturas, mas acho que ele deve evitar a catequese e a doutrinação.”

Josimar Melo

Crítico de gastronomia

“O melhor da minha época no Santa Cruz foi que o ensino religioso, apesar de chato, era tão discreto que permitiu que pessoas como eu passassem ilesas pela pregação, que é inerente à religião. Sendo a religião um corolário da vastíssima ignorância humana, acho um contra-senso que ela seja até hoje ensinada em escolas, que, teoricamente, deveriam propagar o conhecimento. Conquista da Revolução Francesa, o ensino laico deveria abolir as aulas de religião em escolas.”

Carlos Miele

Estilista e empresário da M. Officer e artista plástico

“Fiz a primeira comunhão e estudei no Colégio São Luís, onde o ensino religioso é obrigatório. Acho religião importante, mas as escolas deveriam falar de todas, e não apenas de uma. Eu jamais colocaria um filho numa escola que tratasse só do catolicismo, para não repetir o que ocorreu comigo. Procurei meu caminho e hoje me identifico mais com o candomblé, que tem muito mais a ver conosco. Nossa cultura é pluralista e o ensino religioso não deveria ignorar isso.”

Luciano Amaral

Ator em Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum

“Estudei no Colégio São Bento, de São Paulo, da primeira série ao terceiro colegial. Venho de uma família religiosa, que tem católicos e espíritas, e meus pais escolheram o São Bento porque acreditavam que a educação religiosa é essencial para a formação do caráter. Não me considero uma pessoa religiosa. Não vou à missa e flerto com o espiritismo. Mas acho importante a fé em uma força maior. É ela que impulsiona minha vida pessoal e profissional.”

Serginho Groisman

Apresentador de TV

“Eu fui um péssimo aluno de religião no Colégio Renascença, porque tinha de falar hebraico e não conseguia entender a língua. Então, decorava as orações, mas sem muita compreensão do significado. Mas ainda guardo o significado ético que elas traziam. Acho bacana que os jovens tenham ensino religioso, ainda mais se ele abranger o estudo das várias religiões. Religião é importante porque explica coisas, dá conforto e traz esperança. E, principalmente, ensina ética.”

Como o assunto é tratado lá fora

Itália

O catolicismo prevalece nos cursos de ensino religioso das escolas públicas, e não só em Roma, sede da Igreja. Porém, a rigidez em relação a outras crenças é menor do que na Espanha.

França

É o Estado laico por excelência – desde o século passado, as escolas públicas são proibidas de ensinar religião ou de qualquer prática religiosa. Em 1989, uma menina muçulmana chegou a ser expulsa porque usava um lenço sobre a cabeça, como manda a tradição islâmica. Atualmente, há uma discussão nacional sobre a liberação do uso de símbolos, como crucifixos cristãos e quipás judaicos. Um grande grupo, que inclui o ex-guerrilheiro Régis Debray, defende a volta das aulas de religião.

Canadá

Ainda há escolas públicas que adotam o ensino religioso, mas a tendência é o laicismo. Um projeto de lei prevê que o estudo das religiões seja uma disciplina optativa, fora do horário de aulas.

Espanha

País católico, mantém o ensino religioso obrigatório na educação pública e na maior parte dos estabelecimentos particulares. O ensino religioso é baseado em dogmas da Igreja Católica, dando pouquíssimo espaço para a manifestação, em sala de aula, de outras crenças.

Estados Unidos

Em 1963, a família de ateus Murray processou a escola do filho, em Maryland, por fazer orações antes da aula. O colégio perdeu a briga, e o juiz alegou que a Constituição americana proíbe o Estado de subvencionar qualquer tipo de manifestação religiosa. A proibição continua: as escolas não podem promover orações. Mas os alunos não são impedidos de organizar grupos religiosos.

Nas escolas públicas, avanços e tropeços

A maioria dos educadores e estudiosos das religiões concorda que a decisão de oferecer ensino religioso a alunos de escolas públicas representa um passo à frente. “O ensino religioso ajudará os jovens a buscar o que querem ser e não o que querem ter”, afirma Paulo Miceli, professor do departamento de História da Unicamp.

Miceli coordenou um programa feito em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para a elaboração de material didático e capacitação de professores. “O processo foi muito interessante porque a universidade pôde manter uma neutralidade exemplar”, diz. Em São Paulo, estão aptos a dar aulas de ensino religioso professores de história, filosofia e ciências sociais. Eles contam com apoio de recursos didáticos produzidos pela equipe da Unicamp e treinamento desenvolvido por alunos de pós-graduação. Além de trechos da Bíblia, do Torá e do Alcorão, o material apresenta imagens artísticas de religiões como budismo e hinduísmo.

No Rio de Janeiro, a normatização do ensino religioso foi motivo de grande polêmica. Um projeto de lei apresentado pelo então deputado Carlos Dias, ligado ao movimento de Renovação Carismática, dava aos representantes das diversas comunidades religiosas a tarefa de organizar e conduzir os cursos. Aprovado em 2000, ele possibilitaria aos alunos de diferentes credos optar pela religião praticada pela família. A proposta encontrou oposição de muitos educadores, por separar em vez de integrar e levar ao ensino confessional. A questão está na Justiça, mantendo indefinido o modelo a ser seguido.

Apesar dessas dificuldades, vários estados caminham para um modelo ecumênico nas aulas de religião, segundo Lizete Viesser, do Fórum Nacional Permanente para o Ensino Religioso (Fenapor), entidade que trabalha com capacitação de professores de ensino religioso. “Quando a lei foi criada, das 27 unidades federativas, 17 já se empenhavam em buscar alternativas próprias para o ensino religioso”, diz. O Estado de Santa Catarina, pioneiro na criação de cursos de graduação em Ciências da Religião, é onde a aplicação da lei se encontra em estágio mais avançado.