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O cirurgião que amputava pernas em 30 segundos

A rapidez de Robert Liston era uma necessidade humanitária em uma época sem anestesias eficazes. Entenda o agonizante mundo das cirurgias no século 19.

Por Rafael Battaglia
Atualizado em 27 Maio 2024, 11h34 - Publicado em 14 Maio 2024, 14h00

Dois minutos e meio. Esse era o tempo que Robert Liston demorava para amputar a perna de um paciente. Se o corte fosse apenas do joelho para baixo, o cirurgião encerrava o procedimento em 30 segundos.

Nascido em 1794, na Escócia, Liston era um prodígio. Começou a estudar medicina aos 14 anos e, aos 22, já dava aulas de anatomia. Suas cirurgias express, por vezes feitas em anfiteatros, costumavam reunir dezenas de pessoas, entre estudantes, outros professores e curiosos. “Marquem o tempo, senhores”, era o que costumava dizer antes de passar a faca em alguém.

Liston não era um cara exibido. Na verdade, sua rapidez para cortar tecidos e serrar ossos era uma necessidade humanitária. Afinal, não havia anestesias eficazes nem meios de minimizar o sangramento. A cirurgia era o último recurso para tratar alguém – e muitos preferiam aguentar tumores e membros gangrenados a encarar a agonia da mesa de operação.

Por séculos, medicina e cirurgia foram carreiras distintas. Os médicos iam à universidade e estudavam química, fisiologia e anatomia. Atendiam pacientes e receitavam fármacos, mas não colocavam a mão na massa. Essa era a função dos cirurgiões: trabalhadores braçais, cujo conhecimento era transmitido de mestre para aprendiz. Eram pobres e, não raro, analfabetos. Manejar um bisturi estava longe de ser algo cobiçado.

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Na época de Liston, esse arranjo começou a mudar. Em 1800, na Inglaterra, nasceu a Real Academia de Cirurgiões, que ajudou a regulamentar a profissão. O instituto exigia seis anos de estudo para obter o diploma. Isso desencadeou o surgimento de vários hospitais-escola, como o University College Hospital, em Londres, do qual Liston foi um dos primeiros professores.

Robert tinha 1,90 m de altura, era forte e guardava os bisturis sob a manga, para mantê-los aquecidos. Ele construiu a própria faca de amputação, composta por uma lâmina mais comprida que a média e um cabo de madeira com pequenos entalhes (um para cada cirurgia feita). Liston não gostava de usar muitos equipamentos de uma vez – preferia pegar em artérias e nacos de pele com as mãos. A faca? Ele a segurava com a boca.

A velocidade de Liston, por vezes, causava acidentes. Certa vez, ao amputar uma perna, ele acabou cortando também um dos testículos do paciente.

Em outra amputação, o médico arrancou sem querer dois dedos do aluno que segurava a perna do enfermo. Nessa mesma cirurgia, Liston, ao trocar rapidamente de instrumentos, rasgou o paletó de um espectador que acompanhava o procedimento de perto. O coitado achou que havia sido esfaqueado e morreu com o choque. O paciente e o estudante também bateram as botas dias depois, por infecções. Liston matou três pessoas de uma só vez, na melhor das intenções.

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Essa é a história mais famosa sobre o gênio açougueiro – mas faltam registros para cravar se ela aconteceu de fato. Liston colecionou desafetos ao longo da carreira: ele costumava gritar com alunos e discutir com outros professores. É provável que o incidente tenha sido aumentado ou inventado para manchar sua imagem.

Mas apesar do temperamento difícil, Liston era atencioso com seus pacientes. Aceitava casos considerados intratáveis e remarcava cirurgias se a pessoa estivesse com muito medo. O suposto caso das três mortes não reflete os êxitos de sua carreira: apenas um em cada dez procedimentos de Robert terminavam em morte. Com outros cirurgiões, essa média era de um em cada quatro.

Liston inventou ferramentas usadas até hoje, como a pinça bulldog (que serve sobretudo para segurar veias e artérias e controlar o fluxo sanguíneo) e uma tala de perna para fraturas no fêmur. Em 1846, foi escolhido para realizar a primeira cirurgia com anestésicos modernos na Inglaterra. Só não viveu o suficiente para acompanhar essa revolução: morreu um ano depois, em 1847, vítima de um aneurisma.

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