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O estranho caso dos dentes explosivos

Dores insuportáveis, capazes de quebrar dentes em pedacinhos, atormentaram a vida de alguns americanos no séc. 19 – e intrigam dentistas até hoje.

Por Rafael Battaglia
Atualizado em 13 jun 2024, 12h20 - Publicado em 11 jun 2024, 10h00

Em 31 de agosto de 1817, um reverendo do condado de Mercer, na Pensilvânia (EUA), acordou com a pior dor de dente da sua vida. Para aliviar o desconforto, correu até uma nascente próxima de casa e mergulhou a cabeça na água fria. Não deu certo.

O reverendo passou a noite em claro, agonizando. Na manhã seguinte, quando a dor já o fazia delirar, ele ouviu um barulho parecido com um tiro. Mas não era uma arma, e sim o seu dente, que havia acabado de partir em pedacinhos. O pastor sentiu um alívio imediato – e foi dormir.

Nos anos seguintes, mais duas moradoras de Mercer tiveram o mesmo problema. Em 1859, o dentista W. H. Atkinson descreveu a suposta “epidemia” de dentes explosivos em um artigo para a revista Dental Cosmos. Em 1874, outro dentista, J. Phelps Hibler, publicou a história de uma paciente que sofria com um de seus molares, até que o dente se quebrou subitamente. O estalo foi tão grande que a mulher caiu para trás e ficou surda por um tempo.

Hibler supôs que uma cárie estaria liberando gases no meio do molar, aumentando a pressão interna. Hoje, sabemos que isso não é possível, mas vamos dar um desconto: naquela época, os dentistas ainda não tinham conhecimentos avançados sobre cáries. Achava-se, por exemplo, que elas cresciam do centro para a superfície do dente (quando, na verdade, ocorre o oposto).

Os relatos explosivos diminuíram nas décadas posteriores até cessarem de vez nos anos 1920. Hoje, a principal hipótese para o fenômeno tem a ver com os materiais usados em antigas obturações.

No começo do século 19, era comum preencher dentes deteriorados com ligas metálicas (misturas com chumbo, estanho, prata etc.). Dependendo da liga, os metais poderiam começar a trocar elétrons de forma espontânea. O dente virava uma pilha. Além disso, obturações malfeitas deixavam algumas cavidades, em que se acumulava gás hidrogênio, que é inflamável. Nessas circunstâncias, uma pequena corrente elétrica (ou mesmo faíscas produzidas pelo atrito entre metais) poderiam provocar um estouro.

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Não há provas, porém, de que todas as pessoas cujos dentes explodiram tinham obturações metálicas. Elas podem ter exagerado na descrição dos sintomas e no som dos estalos, o que seria plausível (pense na barulheira que você ouve ao comer uma simples batata chips, por exemplo). Ou, então, sofreram com algum problema misterioso – que a odontologia ainda não decifrou.

Consultamos os livros: Medicina dos Horrores, de Lindsey Fitzharris, Medicina Macabra, de Thomas Morris, e A Fabulosa História do Hospital, de Jean-Noël Fabiani.

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