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O homem que sobreviveu à Revolução Russa graças a um jogo de xadrez

Conheça a história de Ossip Bernstein, um enxadrista ucraniano que deu um xeque-mate em um pelotão de fuzilamento.

O esporte pode proporcionar uma série de coisas às pessoas: medalhas, troféus, dinheiro, satisfação pessoal… E uma segunda chance de vida.

O ucraniano Ossip Bernstein se enquadra nesse último cenário. Ele escapou da morte ao vencer uma partida em um esporte que muita gente ainda teima não classificar como tal: o xadrez. Você já vai saber como isso aconteceu, mas, antes de tudo, vamos entender como Ossip foi parar nessa situação, digamos, desconfortável.

Nascido em 1882 na Ucrânia, Ossip cresceu em uma rica família judia. Ele só começou a jogar xadrez aos dezenove anos, na mesma época em que fazia faculdade de direito. Em 1902, de acordo com a história publicada pelo History Collection, Ossip fez uma entrada digna de nota no mundo dos tabuleiros quadriculados: jogou de olhos vendados contra Harry Pillsbury, na época um famoso enxadrista norte-americano.

Pillsbury venceu, mas Ossip ganhou pontos pela ousadia. Naquele mesmo ano, a carreira como enxadrista engrenou: começou a vencer uma série de partidas e ganhou o título de mestre por uma federação de xadrez em Berlim, na Alemanha. Entre 1904 e 1906, o ucraniano chegou a ocupar a nona posição no ranking mundial do esporte.

Com a faculdade terminada, Ossip passou a trabalhar em Moscou como advogado financeiro. Por lá, conheceu sua esposa, Vilma, teve dois filhos e construiu uma sólida carreira, tanto no direito quanto no xadrez. Tudo corria bem para ele… até 1918, quando Ossip foi preso pelos bolcheviques da Revolução Russa.

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Pego pelos revolucionários

Uma rápida contextualização: em 1917, a Rússia (na época, Império Russo), retirou-se da Primeira Guerra Mundial. O motivo? Naquele ano, começava uma revolução dentro do país que viria a derrubar o czarismo e toda a nobreza. Deu certo. Com a queda do czar, o Partido Operário Social-Democrata Russo, assumiu o poder.

Só tinha um problema: dentro do partido, não havia consenso sobre quem deveria assumir o governo. Os que defendiam a burguesia criaram o grupo dos mencheviques, e os trabalhadores (liderados por Lênin), o dos bolcheviques. No fim das contas, o segundo grupo levou a melhor.

De volta ao nosso enxadrista. Em 1918, o governo provisório dos bolcheviques iniciou o que, mais tarde, foi chamado de Terror Vermelho: uma série de prisões e execuções em massa para eliminar boa parte da elite dominante no país.

Ossip, que trabalhava diretamente com banqueiros, entrou para a ingrata lista de procurados. Na época, ele já havia fugido da Rússia e se estabelecido em Paris, mas foi pego pela polícia secreta bolchevique quando estava em Odessa, na Crimeia. E dali, foi encaminhado para o pelotão de fuzilamento.

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Jogo da vida

Tudo parecia perdido, até que um oficial superior pediu para olhar a lista de nomes dos presos que estavam ali. Ele reconheceu o sobrenome “Bernstein” e perguntou a Ossip se ele era, de fato, o famoso enxadrista. Desconfiado da resposta afirmativa, o oficial o desafiou para uma partida de xadrez. Se Ossip ganhasse, poderia escapar da saraivada de balas.

Ossip conseguiu vencer o oficial rapidamente e foi libertado logo em seguida. Final feliz, certo? Nem tanto. O enxadrista perdeu todo seu patrimônio na Rússia revolucionária (naturalmente), mas ainda conseguiu se recuperar com a carreira em Paris… Até que a Grande Depressão o atingiu com uma nova rasteira financeira.

Na década seguinte, Ossip conseguiu dar seus jeitinhos e se estabelecer financeiramente… E aí França foi invadida pela Alemanha de Hitler, já em 1940. Essa é uma boa hora para lembrar que Ossip, além de ucraniano e “inimigo da revolução”… era judeu. Pela enésima vez, os meandros políticos da Europa o obrigaram a picar a mula.

A família do enxadrista precisou fugir para a Espanha. A fuga, em si, foi obviamente difícil. Mas, quando finalmente pisaram na Espanha, Ossip ainda teve um ataque cardíaco. Ficou inconsciente por um bom tempo e a família, sem saber como se explicar aos oficiais espanhois, acabou separada – e presa. Por sorte, eles tinham amigos influentes no país e conseguiram ser soltos depois que Ossip se recuperou.

Eles viveram em terras espanholas até o fim da guerra, em 1945, quando puderam voltar para Paris. Nos anos seguintes, Ossip voltou a trabalhar e a jogar xadrez – chegou até a representar a França em alguns campeonatos internacionais do esporte.

O final da história parece inacreditável – e talvez seja, de fato. Existem poucos registros históricos sobre o enxadrista, e é difícil confirmar 100% dos capítulos de sua biografia. Mas a narrativa que ficou para a história do xadrez é a seguinte: Ossip voltou a Moscou depois de décadas, para uma competição de xadrez – e sofreu outro ataque cardíaco no caminho. O coração de Ossip e as fronteiras internacionais claramente não se davam bem. Ele teria, novamente, sobrevivido ao infarto, mas morrido meses depois.