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O revolucionário mochileiro

Cozinheiro em Londres ou fotógrafo em Paris, Ho Chi Minh rodou o mundo antes de peitar os EUA na guerra do Vietnã

Texto Álvaro Oppermann

“Sujeito acanhado, aspecto medíocre, com a boca sempre aberta. Não oferece perigo”: assim a polícia de imigração francesa descreveu em 1911 o jovem Nguyen Sinh Cung, que desembarcava em Marselha. Décadas mais tarde, o “humilde imigrante” provaria que não tinha nada de inofensivo. Sob a alcunha de Ho Chi Minh – “aquele que traz a luz” – ele se tornou o líder carismático do Vietnã comunista, que escorraçou os americanos de seu território.

Ainda imberbe, Nguyen envolveu-se em revoltas de camponeses contra os impostos dos franceses que dominavam seu país. Com a barra pesada, resolveu sair do país. Viajou para a Europa, para os EUA e, segundo uma das várias lendas a seu respeito, passou até pelo Brasil.

Em Londres, foi auxiliar de cozinha. Em Paris, trabalhou com fotografia. Eram trabalhos passageiros. Sua missão – à qual devotava sua energia – era uma só: libertar seu país das mãos estrangeiras. Na época, o inimigo dos vietnamitas era a França, não os EUA (tanto que, em sua temporada parisiense, Nguyen tentou em vão uma audiência com o presidente americano Woodrow Wilson para expor a causa de seu povo). Ninguém, porém, dava bola para ele. Insultado, Nguyen entrou para o Partido Comunista Francês em 1919. Em pouco tempo, chamou a atenção de Moscou. Foi nessa época que mudou de nome para Ho Chi Minh. A mando dos russos, ele atuou em diversas missões de espionagem e estudou estratégia militar em Pequim.

Para livrar o Vietnã do domínio estrangeiro, Ho teve que ter paciência oriental. A luta para arrancar os franceses de lá começou logo após o fim da 2ª Guerra e se arrastou até 1954. Depois disso, o Vietnã foi dividido em dois. O território do norte ficou sendo governado por Ho. No sul, o governante era um fantoche dos EUA. Ho Chi Minh não pestanejou. A partir de 1959, deu apoio maciço à formação da Frente de Libertação Nacional – os famosos vietcongues. Em 1975, o sonho se concretizou: sua terra estava livre dos invasores americanos. Ho, porém, não sentiu o gosto do êxito: ele havia morrido 6 anos antes, em 1969.

Grandes momentos

• Ho Chi Minh era bom no marketing pessoal. Para motivar o povo, dizia viver como um monge. Cascata pura: teve duas concubinas e, nas horas vagas, apreciava o champanhe e os cigarros americanos. Ao som do cantor francês Maurice Chevalier.

• O líder do Vietnã pediu para ser cremado, mas seu corpo foi embalsamado e está exposto num mausoléu em Hanói (a atual capital do país).

• Ho Chi Minh recebeu homenagem póstuma dos vietcongues. Saigon, a maior cidade do Vietnã, com 7 milhões de habitantes, foi rebatizada Ho Chi Minh em 1975.