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O universo paralelo

Eu era adolescente quando estourou a grande rebelião do Carandiru. Naquele dia, ninguém falava em massacre ¿ só depois saberíamos dos 111 mortos.

Por 29 fev 2008, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h24

Sérgio Gwercman, redator-chefe

Eu era adolescente quando estourou a grande rebelião do Carandiru. Naquele dia, ninguém falava em massacre – só depois saberíamos dos 111 mortos. Mas lembro que fiquei com os olhos vidrados (confesso) no podrão Aqui Agora, o telejornal do mundo-cão que mostrava camburões da polícia entrando e saindo do presídio e familiares tentando se comunicar com o interior da cadeia por gritos e sinais. Confesso (lá vai mais uma) que eu não assistia aquilo indignado com a falência do sistema prisional brasileiro. O que me interessava era a primeira janela que se abria para o interior de um mundo que eu desconhecia e temia – naquela época, eu morria de medo de viajar na linha azul do metrô de São Paulo, que passava praticamente na janela do presídio, deixando ver os detentos sentados com as pernas para fora das grades.

De lá para cá, essa janela foi crescendo de tamanho. Entre o livro Estação Carandiru e o filme Meu Nome Não É Johnny passaram os Racionais MCs com Sobrevivendo no Inferno e presidiários-escritores, como Doca Street e Jocenir (co-autor de Sobrevivendo). Em maior ou menor grau, todos revelaram mais detalhes daquele mundo. Mas, quanto mais eram publicados livros e filmes do tipo, ou aconteciam casos como o da menina presa numa cela masculina, mais a gente aqui na redação sentia falta de uma reportagem que explicasse como a cadeia realmente funciona. Como prisões são um mundo igual ao nosso (tem bolsa de valores, banco, lazer, especulação imobiliária), mas totalmente diferente. Um universo paralelo. É essa a matéria que você vai ler.

Cadeias, Jesus histórico, coma, a incompetência de Hollywood para falar de ciência. Mais para a frente tem tudo isso. Mas eu queria falar sobre o que já ficou para trás: a capa. Para recriarmos uma prisão, estudamos centenas de fotos e encomendamos ao cenógrafo Evandro Lima uma cela para chamar de nossa, montada no estúdio do fotógrafo Dulla. Acredite: apesar de parecerem feitas de concreto gasto, as paredes foram feitas com madeira.

Um grande abraço,

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