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Os descobridores da América

O homem chegou à América há muito mais tempo do que a Arqueologia supunha. Um acampamento milenar, no sul do Chile, é a prova definitiva.

Igor Fuser

Há 12 500 anos, uma tribo de caçadores armou uma grande barraca coberta de peles ao lado de um riacho, na atual localidade de Monte Verde, no sul do Chile. Todas as manhãs, os homens saíam atrás de lhamas e veados, capturando-os com uma bola de pedra amarrada na ponta de uma corda – um predecessor das boleadeiras gaúchas. Às vezes, matavam com lanças um mastodonte. Frutas e raízes colhidas por mulheres e crianças completavam o cardápio.

Um dia, o riacho transbordou. Às pressas, a tribo abandonou o acampamento, deixando para trás armas, utensílios e comida. Esses restos, milagrosamente conservados, foram encontrados por arqueólogos em 1976. Uma camada de turfa – a matéria esponjosa criada pela decomposição dos vegetais, comum nos pântanos – depositou-se sobre eles e impediu a ação destruidora das bactérias. Vários milênios depois, a turfa protetora ajudou a demolir um dogma científico.

Vira-se a página

Durante seis décadas, os arqueólogos acreditaram que os primeiros habitantes da América penetraram no continente há 12 000 anos, depois de cruzar uma passagem de terra que ligava a Sibéria e o Alasca, sobre o atual Estreito de Bering (veja o mapa ao lado). Essa teoria se apoiava nos vestígios encontrados em Clóvis, no Novo México, Estados Unidos, com 11 200 anos, os mais antigos da América (veja página 50) – até Monte Verde.

O acampamento chileno, descoberto em 1976, prova que já havia sociedade humana 1 300 anos antes. Portanto, se o homem entrou mesmo no continente pelo Alasca, fez a viagem muito mais cedo. Essa evidência enche de dúvidas a Arqueologia. Afinal, quando vieram? De onde? Como? Por terra? Por mar? Quem eram?

Em março de 1998, após muita polêmica, a Sociedade Americana de Arqueologia, dos Estados Unidos – os “donos” de Clóvis –, reconheceu Monte Verde como o povoamento mais antigo da América. Agora, as pesquisas podem reexaminar tudo. “A Arqueologia das Américas está vivendo um momento muito estimulante”, disse à SUPER Tom Dillehay, o cientista que descobriu a pista chilena. Ele sabe do que está falando. Monte Verde é o primeiro capítulo da nossa pré-história redescoberta.

Golpe final num dogma de 60 anos

No inverno de 1976, em um bosque frio à sombra do vulcão Osorno, lenhadores desenterraram um grande pedaço de osso numa fazenda de Monte Verde, 800 quilômetros ao sul de Santiago do Chile. O arqueólogo americano Tom Dillehay, que trabalhava na Universidade Austral, em Valdivia, foi ao local, identificou a peça como a presa de um mastodonte e abriu escavações. Logo deparou-se com um tesouro científico inestimável.

A antiguidade dos objetos desenterrados era espantosa. Feita pelo método do carbono 14 (que deduz a idade pelo número de átomos de carbono 14 presentes na matéria orgânica), a datação revelou que tinham 12 500 anos.

Até recentemente, acreditava-se que os primeiros americanos vieram da Ásia há 12 000 anos, antes que o derretimento total do gelo, depois do final de um instável período glacial, cobrisse com água do mar a região entre o Alasca e a Sibéria – a Beríngia. A passagem foi a seco, pelo atual Estreito de Bering. Na mesma época, as geleiras que cobriam o norte do Canadá recuaram, formando uma espécie de corredor (veja mapa na pág. 48) por onde os nômades desceram, rumo ao sul, atrás da caça. As pontas de lanças usadas para abater um mamute, encontradas em 1932, em Clóvis, foram interpretadas como a prova dessas migrações. Tinham 11 200 anos, exatamente o tempo necessário para que os caçadores fizessem a viagem do Alasca até o Novo México, enfrentando obstáculos de todos os tipos – 7 000 quilômetros em 800 anos.

Monte Verde é muito anterior. Além disso, do Alasca até o Chile são 15 000 quilômetros, uma distância que levaria milênios para ser percorrida pelos andarilhos. “Quanto mais eles migravam para o sul”, imagina o arqueólogo David Meltzer, da Universidade Metodista de Dallas, Texas, “a paisagem ia se tornando menos familiar.” Em cada assentamento tiveram que achar água e descobrir quais plantas e quais animais eram comestíveis, úteis, daninhos ou letais. “Eles enfrentaram barreiras formidáveis, rios, montanhas e doenças desconhecidas”, ressalta Meltzer. Assim, só podem ter penetrado no continente bem antes, talvez aproveitando o recuo anterior das geleiras antes do auge da glaciação – há 21 000 anos.

Muita gente já duvidava da “teoria de Clóvis”. Em 1995, a arqueóloga americana Anna Roosevelt apresentou evidências de povoamento no Brasil, em Monte Alegre, no Pará, com a mesma idade do Novo México (veja SUPER número 6, ano 10). Ou seja, 11 200 anos, o que seria impossível segundo o figurino oficial. Em 1971, a brasileira Niède Guidon chegou a anunciar a descoberta de vestígios de carvão produzidos há 40 000 anos, na Serra da Capivara, no Piauí, embora sem conseguir provar sua origem humana.

Dillehay demonstrou, de forma irrefutável, que o modelo Clóvis estava errado. Mas, até chegar aí, enfrentou vinte anos de ceticismo da comunidade científica, desde 1976 até 1997, quando uma equipe de doze especialistas visitou Monte Verde e reconheceu sua antiguidade. “A sorte foi a escavação ter sido feita por um americano”, ressalta o arqueólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo. “Se o autor da descoberta fosse um chileno, ninguém iria até lá para verificar.”

A grande viagem

Enterrado o dogma, os arqueólogos agora reinterpretam a pré-história do continente. “Até recentemente”, diz Dillehay, “achava-se que as primeiras culturas da América do Sul eram simples clones do que se fazia na América do Norte. Na realidade, eram muito diferentes.” A diversidade tecnológica e econômica em Monte Verde é notável. “Encontramos setenta espécies de plantas comestíveis e medicinais preservadas, importadas de regiões a 800 quilômetros de distância”, relata. Havia várias espécies de batata selvagem, plantas medicinais da Patagônia (vindas do outro lado dos Andes!) e três tipos de alga. “O grupo tinha umas trinta pessoas e perambulava muito. Suas ferramentas eram de madeira, osso e pedra.”

Não se sabe como chegaram até lá. Para Dillehay, o mais provável é que tenham vindo mesmo pelo Estreito de Bering, mas bem antes dos 12 000 anos estabelecidos pela teoria de Clóvis. Só mais descobertas poderão estabelecer as novas datas e rotas da imigração. Veja, nas páginas seguintes, as hipóteses e as descobertas mais recentes.

Mistérios para intrigar qualquer pesquisador

Com o fim do dogma de Clóvis, quatro novas teorias sobre a origem do homem americano estão sendo examinadas.

1. Africanos na América

Milhares de anos antes da escravidão negra, já poderia haver africanos instalados na América. Para formular essa hipótese, o arqueólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, analisou detalhes anatômicos de centenas de ossos de índios, no Brasil, no Chile e na Colômbia. As medidas quase sempre coincidem com as de atuais povos do Extremo Oriente. Os crânios mais antigos, porém, apresentam traços africanos, parecidos com os dos aborígenes da Austrália. Um deles, o de uma mulher encontrada em Lagoa Santa (MG), com 11 000 anos de idade, segundo datação realizada em 1998, é o crânio mais velho das Américas. Com base nesses dados, Neves sugere que, antes da chegada dos ancestrais asiáticos dos ameríndios, houve uma primeira leva de imigrantes que deixou a África – o berço da espécie humana – há 120 000 anos! Na Ásia, teriam se dividido em dois grupos. Um povoou a Oceania há 40 000 anos. O outro entrou na América pela Sibéria, em data desconhecida. “Mais tarde, os asiáticos exterminaram os africanos”, especula Neves. Teriam ficado só os ossos.

2. O Homem de Kennewick

Em 1996, dois estudantes encontraram nos arredores de Kennewick, no Estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos, o esqueleto de um homem de meia-idade. De início, o legista local supôs que pertencesse a um colono europeu do século XIX (veja foto da reconstituição). Mas a análise química revelou que era o fóssil humano mais antigo da América do Norte, com 9 300 anos. Com isso, o fio da pré-história americana enrolou de novo. O Homem de Kennewick pode ser a prova material da presença, nas primeiras levas dos ancestrais americanos, de povos oriundos da Europa ou do Oriente Médio. A hipótese foi reforçada pelo geneticista Douglas Wallace, da Universidade Emory, da Georgia, Estados Unidos, que detectou, em grupos isolados de índios norte-americanos, um tipo de DNA – a molécula que codifica as características hereditárias – encontrado na Finlândia, na Itália e em Israel, mas inexistente no leste da Ásia. A análise genética do fóssil de Kennewick pode resolver o enigma. Mas, no momento, está obstaculizada. Os índios da região reivindicam na Justiça a posse dos ossos, alegando que pertencem a seus ancestrais. Se o tribunal decidir a favor deles, o esqueleto será enterrado e se deteriorará rapidamente.

3. Aventura marítima

E se os povoadores das Américas tivessem chegado por mar? Em 1972, o arqueólogo Knut Fladmark, da Universidade Simon Fraser, em Vancouver, Canadá, afirmou que os primeiros americanos eram pescadores que vieram da Ásia em embarcações precárias. Mas não havia provas para sustentar a teoria, pois o nível do mar subiu 100 metros depois do fim da última glaciação, há 12 000 anos, cobrindo os trechos da costa eventualmente ocupados. A idéia de Fladmark foi esquecida até que, em setembro de 1998, descobriu-se, no sul do Peru, dois acampamentos de um povo marítimo desconhecido. O mais antigo, o de Quebrada Jaguay (veja mapa na página 48), tem 11 100 anos. Seus moradores comiam mariscos e peixes. Em Quebrada Tacahuay, mais ao sul, com vestígios de 10 700 anos, a dieta incluía, além de peixes, pássaros marinhos como os cormorões. O relevo peculiar do litoral, com penhascos que se elevam abruptamente a partir da costa, ajudou a preservar os sítios. Os acampamentos se instalaram bem acima do nível do mar. Foi o que os salvou da inundação.

4. Babel indígena

A Lingüística também está chegando às mesmas conclusões dos arqueólogos sobre a antiguidade do homem americano. Johanna Nichols, da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, identificou 143 troncos lingüísticos entre o Alasca e a Patagônia. Os idiomas são tão diferentes entre si quanto o polonês é do japonês e do árabe. Com base nesse estudo, ela concluiu que o povoamento da América só pode ter ocorrido há muito mais que os 12 000 anos estabelecidos pelo modelo Clóvis. Segundo os lingüistas, para duas línguas originárias de um ancestral comum perderem completamente a semelhança demora cerca de 6 000 anos. Mesmo considerando a ocorrência de múltiplas migrações, em épocas diferentes, Nichols calculou que seriam necessários 35 000 anos para se atingir o atual estado de diversidade das línguas indígenas americanas. Ela não liga a mínima para o fato de que a Arqueologia não comprovou um povoamento tão remoto nas Américas. “Como lingüista”, afirma, “esse não é um problema meu.”

Para saber mais

Dossiê Surgimento do Homem na América. Edição Especial da Revista USP. Universidade de São Paulo, junho de 1997.

Na Internet:

Center for the Study of the First Americans http://www.peak.org/csfa/csfa.html

As rotas pioneiras

Os vestígios humanos de Monte Verde, no Chile, revelam que o povoamento da América é bem mais remoto do que se pensava. Veja no mapa as duas rotas possíveis para as migrações mais antigas vindas da Ásia. Uma por terra, há cerca de 21 000 anos, teria passado pelo atual Estreito de Bering e por um corredor entre a Geleira da Cordilheira e a Geleira Laurêntide, no norte do Canadá. A outra teria vindo por mar, contornando a costa. Por elas, os nômades asiáticos chegaram até a América do Sul. Confira a localização dos principais sítios da nossa pré-história.