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Os Malditos – Clube dos meninos bilionários

Almofadinha universitário criou uma sociedade na qual só entrava quem dissesse ser capaz de matar para fugir com US$ 1 milhão

Texto Willian Vieira

Ostentando carrões, festas e aparente sucesso, Joe Hunt convenceu dezenas de pessoas a dar dinheiro a seu clube de investidores mirins. O que ele mais queria: grana e admiração. Nem que, para isso, devesse varrer alguém do caminho.

Hunt nasceu no Halloween de 1959, na Califórnia. Aluno brilhante, logo se mostrou competitivo e calculista. Pouco depois de ser admitido no curso de administração, aos 19 anos, virou o mais jovem aluno da universidade a receber certificado da Associação dos Contadores – o que ele aumentou: disse ser o mais jovem de toda a Califórnia.

Mas Hunt queria mais que reconhecimento. Queria ficar rico depressa. Mudou-se para Chicago com o pai, onde passou a frequentar a bolsa. Em um de seus golpes, convenceu os pais de um amigo a dar-lhe US$ 150 mil para investir. Perdeu tudo. Mas e daí? Logo arranjaria grana para abrir uma firma de investimento, o Clube dos Garotos Bilionários (BBC, da sigla em inglês). Lá os mais talentosos e inteligentes tomavam as decisões pelos outros. Adivinhe quem era o líder.

Quem quisesse participar precisava fazer um teste. A primeira pergunta: “Você mataria alguém se pudesse se safar com US$ 1 milhão?”

Não? “E se fosse para salvar a sua mãe?” Sim? “Então você não pode dizer que exista uma linha que você nunca cruzaria.” Era esse seu arcabouço moral para justificar o que viria. Cerca de 30 pessoas entraram para o BBC.

Investidores passaram a colocar grana no BBC. Mas Hunt tinha mais talento para gastar que para ganhar. Endividado com aluguéis, festas, motocicletas e carros, planejou associar-se ao megaestelionatário Ron Levin.

A história é tragicômica. Levin teria levantado uma linha de crédito de US$ 5 milhões com uma corretora para que Hunt fizesse o dinheiro render (lucros seriam divididos). Hunt, de fato, investiu bem e “lucrou” cerca de US$ 8 milhões. O problema é que foi tudo uma farsa: Levin tinha dito à corretora que estava fazendo um documentário sobre negociação de commodities. Nenhum movimento financeiro que Hunt fizesse deveria ser executado. Nada jamais saiu do papel.

Hunt não gostou nem um pouco do joguinho. Com o ego ferido, mandou um segurança matar Levin.

No BBC, parecia tudo igual (inclusive as festas). Até que o jovem iraniano Reza Eslaminia foi a uma delas. Ficou tão impressionado com a ostentação que decidiu entrar para o grupo.

Reza era a solução para a crise: sequestrariam seu pai, um milionário enriquecido com tráfico de ópio, segundo ele. Só que o velho morreu na ação. E Hunt, após desovar o corpo, descobriu que a fortuna era balela do iraniano. Para piorar, não só a polícia estava na sua cola como também os investidores pediam o dinheiro de volta.

Mas nem deu tempo de processá-lo. Um membro do BBC se entregou e contou a verdade sobre Hunt – que, a essa altura, torrava US$ 70 mil por mês.

Julgado aos 26 anos, Hunt foi condenado à prisão perpétua. Ao ouvir o veredicto, olhou para a família e deu de ombros. Foi toda a emoção que pôde expressar. Parecia pensar que teria valido a pena (cada mentira, cada morte) se o clube – e o seu grande sonho – não tivesse acabado. Mas acabou.