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Pela primeira vez, DNA de neandertais é encontrado em africanos

Isso contraria a ideia de que povos da África não tinham traços genéticos da antiga espécie. E mais: você provavelmente é mais neandertal do que se pensava até então.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 30 jan 2020, 18h41 - Publicado em 30 jan 2020, 17h32

Em algum momento da história, um de seus ancestrais muito antigos fez sexo com um neandertal – uma espécie ancestral de hominídeo, extinta há 40 mil anos. Na verdade, isso deve ter se repetido algumas vezes na sua árvore genealógica pré-histórica.

Não adianta nem negar: as provas desse encontro íntimo estão estampadas em seu DNA na forma de genes característicos dos nossos parentes extintos. E isso é verdade não importa qual continente você nasceu: um novo estudo demonstrou, pela primeira vez, que africanos modernos são geneticamente conectados aos neandertais – ao contrário do que se pensava até então.

Desde 2010, sabe-se que populações não-africanas possuíam material genético de neandertais como resultado de cruzamentos entre as espécies ocorridos há milhares de anos. Europeus, asiáticos e americanos modernos provavelmente possuem ancestrais que tiveram filhos com os neandertais quando as espécies conviviam nos mesmos ambientes.

No entanto, pensava-se que os africanos estavam fora desse grupo. Isso porque os neandertais ocupavam apenas regiões da Eurásia, e estavam geograficamente separados dos Homo sapiens que habitavam a África, o que impedia a reprodução direta.

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As novas análises de pesquisadores da Universidade de Princeton, porém, indicam que o DNA neandertal chegou em terras africanas mesmo sem seus donos originais, provavelmente após a migração de humanos vindo de terras europeias que carregavam genes de antepassados neandertais.

Com isso, o estudo revelou que o DNA de africanos modernos é composto de, aproximadamente, 0,3% de material neandertal. Isso equivale a cerca de 17 milhões de pares de bases – é menos que o percentual de populações europeias e asiáticas, que contêm entre 1% e 2% de DNA neandertal, mas ainda sim um valor considerável – e até então desconhecido.

Outras revelações

Os pesquisadores afirmam que a descoberta também revela que a história da espécie humana pode ser mais complexa do que se pensava até então. Atualmente, a teoria mais aceita é que os Homo sapiens surgiram na África, e migraram para fora do continente em algum momento entre 80 e 60 mil anos atrás. Mas o novo estudo sugere que essa saída pode ter ocorrido não em uma única vez, mas sim gradualmente, em etapas que datam de até 200 mil anos atrás.

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Nessa viagem, os humanos teriam encontrado os neandertais na Ásia e na Europa e procriado com eles. Em algum momento, alguns de seus descendentes teriam retornado à África, levando consigo o DNA da outra espécie.

O estudo também pode ajudar a desmontar outra ideia equivocada. Análises anteriores indicavam que os asiáticos modernos tinham 20% mais de DNA neandertal do que os europeus contemporâneos. Mas isso se revelou um erro fruto de uma limitação metodológica. Acontece que, nesses estudos, o DNA africano era usado como referência “nula”, ou seja, os cientistas assumiam que não havia genes neandertais nele para fazer as comparações, o que agora sabemos ser falso. Os pesquisadores do estudo mais recente desenvolveram um novo método que não utiliza esse padrão, e descobriram que europeus e asiáticos têm porcentagens de DNA neandertal similares.

O fato de estudos anteriores usarem o DNA africano como sinônimo de “0” para genes neandertais também subestimou o valor de material genético da antiga espécie em todas as populações humanas modernas. Ou seja: você é mais neandertal do que se imaginava até então.

Os cientistas ressaltam, porém, que poucas populações africanas foram analisadas, e que talvez nem todas possuam rastros neandertais em seus materiais genéticos – os Khoisan da Namíbia, por exemplo, podem ter se separado de outros grupos étnicos há 100 mil anos. Mas o novo método dos pesquisadores é promissor, e eles esperam poder aplicá-lo em maiores bases de dados em breve.

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