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Pela primeira vez, DNA de neandertais é encontrado em africanos

Isso contraria a ideia de que povos da África não tinham traços genéticos da antiga espécie. E mais: você provavelmente é mais neandertal do que se pensava até então.

Em algum momento da história, um de seus ancestrais muito antigos fez sexo com um neandertal – uma espécie ancestral de hominídeo, extinta há 40 mil anos. Na verdade, isso deve ter se repetido algumas vezes na sua árvore genealógica pré-histórica.

Não adianta nem negar: as provas desse encontro íntimo estão estampadas em seu DNA na forma de genes característicos dos nossos parentes extintos. E isso é verdade não importa qual continente você nasceu: um novo estudo demonstrou, pela primeira vez, que africanos modernos são geneticamente conectados aos neandertais – ao contrário do que se pensava até então.

Desde 2010, sabe-se que populações não-africanas possuíam material genético de neandertais como resultado de cruzamentos entre as espécies ocorridos há milhares de anos. Europeus, asiáticos e americanos modernos provavelmente possuem ancestrais que tiveram filhos com os neandertais quando as espécies conviviam nos mesmos ambientes.

No entanto, pensava-se que os africanos estavam fora desse grupo. Isso porque os neandertais ocupavam apenas regiões da Eurásia, e estavam geograficamente separados dos Homo sapiens que habitavam a África, o que impedia a reprodução direta.

As novas análises de pesquisadores da Universidade de Princeton, porém, indicam que o DNA neandertal chegou em terras africanas mesmo sem seus donos originais, provavelmente após a migração de humanos vindo de terras europeias que carregavam genes de antepassados neandertais.

Com isso, o estudo revelou que o DNA de africanos modernos é composto de, aproximadamente, 0,3% de material neandertal. Isso equivale a cerca de 17 milhões de pares de bases – é menos que o percentual de populações europeias e asiáticas, que contêm entre 1% e 2% de DNA neandertal, mas ainda sim um valor considerável – e até então desconhecido.

Outras revelações

Os pesquisadores afirmam que a descoberta também revela que a história da espécie humana pode ser mais complexa do que se pensava até então. Atualmente, a teoria mais aceita é que os Homo sapiens surgiram na África, e migraram para fora do continente em algum momento entre 80 e 60 mil anos atrás. Mas o novo estudo sugere que essa saída pode ter ocorrido não em uma única vez, mas sim gradualmente, em etapas que datam de até 200 mil anos atrás.

Nessa viagem, os humanos teriam encontrado os neandertais na Ásia e na Europa e procriado com eles. Em algum momento, alguns de seus descendentes teriam retornado à África, levando consigo o DNA da outra espécie.

O estudo também pode ajudar a desmontar outra ideia equivocada. Análises anteriores indicavam que os asiáticos modernos tinham 20% mais de DNA neandertal do que os europeus contemporâneos. Mas isso se revelou um erro fruto de uma limitação metodológica. Acontece que, nesses estudos, o DNA africano era usado como referência “nula”, ou seja, os cientistas assumiam que não havia genes neandertais nele para fazer as comparações, o que agora sabemos ser falso. Os pesquisadores do estudo mais recente desenvolveram um novo método que não utiliza esse padrão, e descobriram que europeus e asiáticos têm porcentagens de DNA neandertal similares.

O fato de estudos anteriores usarem o DNA africano como sinônimo de “0” para genes neandertais também subestimou o valor de material genético da antiga espécie em todas as populações humanas modernas. Ou seja: você é mais neandertal do que se imaginava até então.

Os cientistas ressaltam, porém, que poucas populações africanas foram analisadas, e que talvez nem todas possuam rastros neandertais em seus materiais genéticos – os Khoisan da Namíbia, por exemplo, podem ter se separado de outros grupos étnicos há 100 mil anos. Mas o novo método dos pesquisadores é promissor, e eles esperam poder aplicá-lo em maiores bases de dados em breve.