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Português também tem: Álvares é filho do Álvaro como Skúlason é filho do Skúla

Da mesma maneira que na Islândia, nos tempos antigos de Portugal os filhos recebiam "patronímicos". Escavamos a árvore genealógica do próprio Pedro Álvares Cabral para provar.

Durante a estreia da Islândia na Copa do Mundo, no último sábado (16), duas coisas chamaram a atenção do público brasileiro: os onze jogadores agindo como zagueiros e o fato de que todos eles, sem exceção, têm sobrenomes terminados em “-son”. Logo os narradores explicaram a aparente falta de criatividade: é que na Islândia não existem sobrenomes de fato – desses como Silva ou Oliveira, que identificam todos os membros de uma família. Eles têm só algo chamado “patronímico”, que consiste no nome do pai ou da mãe do sujeito seguido dos sufixos “-son” (filho, em inglês son) ou “-dóttir” (filha, em inglês daughter). 

Para explicar melhor: pegue o capitão, Aron Gunnarsson. Ele nada mais é do que filho de um cara chamado Gunnar. Já o técnico Heimir Hallgrímsson – que, diga-se, é dentista de profissão – é filho de um Hallgrímur. Há regras para incluir o sufixo, é claro – às vezes os nomes precisam sofrer alterações sutis. Mas o padrão é fácil de perceber E, vale dizer, é lei. Se você quiser ter um nome de família na Islândia, você vai ficar querendo. Qualquer nome que não seja o dos seus pais é proibido, simples assim.

No Brasil, é claro, a moda pegou, mas por influência americana – Wilson supostamente é filho de um Will, Jefferson, de um Jeffrey, e por aí vai. Os irlandeses também têm um patronímico: “Mac”. É daí que saíram McDonald e McCartney. O que quase ninguém sabe é que o português já foi assim um dia. Original de fábrica, sem influência estrangeira.

Pegue um Bruno Marques: ele nada mais é que Bruno, filho de Marco. Já Ana Martins é Ana, filha de Martim. João Álvares é rebento de Álvaro – aliás, o famoso Pedro Álvares Cabral tinha um Álvaro como patriarca na família – fofoca que você vai aprender alguns parágrafos abaixo. E por aí vai.

A construção do patronímico usando o nome do pai mais o sufixo “-es” vale para toda a península Ibérica. A única diferença no caso do Espanhol é a grafia: “-ez”(isso tem a ver com as diferenças de pronúncia entre o “s” e o “z”, que já foram mais importantes e bem delimitadas do que são hoje).

“Filho ou filha de Meem ou Mendo seria Mendez; o de Pero, Perez ou Pirez; o de Gonçalo, Gonçalvez; o de Suer (Soer), Soarez, com o sufixo patronímico -ez (-es)”, afirma este artigo científico, da linguista brasileira Odete Menon.

Alguns nomes, porém, não podiam sofrer a modificação. Afonso, por exemplo, não virava “Afonses” em hipótese alguma.

Esse método de geração de patronímicos vigorou na Idade Média e rendeu mais ou menos até a metade do século 14 (1350). Depois disso, os nomes terminados em “-es” se cristalizaram e acabaram se tornando sobrenomes familiares comuns, que atravessam gerações sem se modificar.

O caso de Cabral

Pedro Álvares Cabral, o navegador, era filho de um fidalgo chamado Fernão Álvares Cabral que, por sua vez, era filho de Fernando Álvares Cabral e neto de Luís Álvares Cabral. Até aqui, Álvares é nomeação familiar como estamos acostumados.

Só na quarta geração para trás é que encontramos o Álvaro que deu origem ao sobrenome: Álvaro Gil Cabral, trisavô do descobridor do Brasil. Não por coincidência, ele nasceu em 1335 – justamente no final da época em que o sistema foi usado.

Outro bom exemplo é o poeta Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas. O “de Camões” se refere à família a que ele pertencia, mas o Vaz é uma abreviação de Vasques, que por sua vez é patronímico de Vasco. Aqui, de novo, a missão é encontrar o tal Vasco na árvore genealógica.

O pai de Camões se chamava Simão Vaz de Camões. O avô, Antônio Vaz de Camões. Já o bisavô – bingo! – era Vasco Pires de Camões, um trovador espanhol proveniente da Galícia, província localizada a norte de Portugal.

Essa história é contada no prefácio de uma antiga edição de Os Lusíadas, que você pode acessar aqui. Traçar genealogias é sempre uma tarefa difícil, mas é muito provável que tanto as famílias de Camões quanto de Cabral sejam mesmo bons exemplos de patronímicos que se tornaram sobrenomes.

(Breve nota da redação: Vasco Pires de Camões também tinha um patronímico: “Pires”, que vem de Pero (Pedro). Outra forma de escrevê-lo é Perez. Sim, o da Carla Perez. Definitivamente é uma família de artistas inspirados.)

A origem desse sistema é incerta, mas um dos suspeitos são as declinações do Latim. O Latim era uma língua em que as palavras mudavam conforme sua função na frase – ou seja, declinavam. E havia um tipo de declinação, o genitivo, que servia para indicar posse. Funcionava mais ou menos do mesmo jeito que o “s” usado no inglês hoje em dia: “Ben’s house” é a casa de Ben. Em Latim, um homem chamado Rodericus daria o nome Roderici a seu filho, e a mudança de “us” para “i” seria o mesmo que dizer “de Rodericus”.

E assim, de pai para filho, nasceu uma parcela razoável dos sobrenomes portugueses – e, por tabela, brasileiros. Pode ir se divertir explorando sua árvore genealógica.