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Sir Christopher Wren

Em suas memórias referiu-se à astronomia como ¿o seu ofício¿, desprezando a arquitetura, que chamou de ¿rubbish¿ (lixo)

Por 28 fev 2003, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h25
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Cecília Prada

A estrela que iluminou a vida de Sir Christopher Wren (1632-1723) foi das mais auspiciosas. Durante os 91 anos que viveu, sob a égide de seis monarcas e duas dinastias, ele não somente conseguiu driblar as turbulências políticas da Inglaterra do século 17, como soube aproveitar-se delas para fundamentar sua carreira de cientista, médico e astrônomo. No entanto, passaria à história como o arquiteto que reconstruiu Londres após o Grande Incêndio de 1666, dotando-a de uma série de edifícios, praças e ruas projetados para a eternidade. E eles vivem até hoje. Sua principal obra, a reconstrução da Catedral de St. Paul, em que trabalhou de 1673 a 1711 resistiu incólume à Segunda Guerra Mundial. A majestosa cúpula da catedral, intacta sob os bombardeios alemães, tornou-se símbolo da resistência dos ingleses.

Até os dez anos de idade, Christopher teve uma infância dourada. Seu pai era o deão do palácio de Windsor e sua família morava dentro dos limites murados do palácio, convivendo com a família real. As reviravoltas políticas começaram em 1642 – a Guerra Civil devastou o país, terminando com a prisão e a execução do rei Charles I e o estabelecimento, em 1649, de uma ditadura liderada por Oliver Cromwell. Os monarquistas sofreram perseguições de todo tipo e tiveram seus bens confiscados. Christopher se refugiou na casa da irmã com os pais, nas proximidades de Oxford, onde, ainda adolescente, iniciou-se em medicina com a ajuda do cunhado. O prestígio de sua família junto a um grupo restrito de cientistas fiéis à monarquia, concentrados na Universidade de Oxford, possibilitou ao jovem prosseguir seus estudos.

Em 1660, nova mudança: a Restauração dos Stuart levou ao trono Charles II, que Christopher conhecera na infância. Aos 28 anos, ele já adquirira fama como cientista, nos campos da medicina, da matemática e da astronomia. Em Oxford e Londres participara de ousadas experiências sobre o cérebro e a circulação do sangue, usando a vivissecção de animais e desenvolvendo técnicas de injeções e transfusões. Resolvera complicadas questões matemáticas, como o problema dos ciclóides de Kepler e inventara uma série de aparelhos da física e da mecânica. Era professor de Astronomia, publicara um estudo sobre os anéis de Saturno e fizera pesquisas sobre a determinação da longitude no mar – um dos grandes desafios de sua época.

A oportunidade de voltar à corte surgiu em agosto de 1660 e dali em diante ele viveu e participou dos assuntos reais em estreita colaboração e amizade com as maiores personalidades do mundo financeiro e político. Em 1669, após o grande empenho demonstrado na reconstrução de Londres, foi nomeado para o supremo posto de Supervisor das Obras Reais. Cargo em que foi mantido ininterruptamente, durante os 50 anos seguintes, pelos vários monarcas que sucederam a Charles II. Inclusive pelos que, a partir da invasão da Inglaterra em 1688 por William de Orange, liquidaram com a dinastia dos Stuart. Em 1673, recebeu o título de Cavaleiro.

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Em suas memórias referiu-se à astronomia como “o seu ofício”, desprezando a arquitetura, que chamou de “rubbish” (lixo). Na biografia On a Grander Scale (“Em uma escala maior”, inédita no Brasil), lançada em 2002, a cientista Lisa Jardine afirma que ao visitar o Monumento ao Grande Incêndio de Londres, construído por Wren e Robert Hooke – seu maior amigo e sócio –, percebeu que ele deixara para a posteridade, tanto nesse monumento quanto na torre da Catedral de St. Paul, uma prova de seu amor à astronomia, dotando-os de função dupla, pois ambos podem ser usados também como gigantescos telescópios verticais. Um segredo que, segundo a autora, fora completamente esquecido por todos, desde a morte de seus idealizadores.

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