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A floresta essa grande aliada

Acostumados a desmatar para plantar, agricultores do sul da Bahia aprendem hoje a tirar mais proveito das próprias terras ao trabalhar com hortas orgânicas, viveiros de mudas e sistemas agroflorestais. E o melhor de tudo: mantendo a floresta viva.

Por Da Redação Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
30 jun 2003, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 19h03
  • Maria Fernanda Vomero, de Itacaré, BA

    O agricultor Domingos Anselmo de Jesus pensou seriamente em vender suas terras em Itacaré, no sul da Bahia. Havia dias em que ele e a família não tinham o que comer, já que a farinha de mandioca não lhes garantia o sustento. Sem qualquer tipo de assistência técnica e motivação, ele não sabia como fazer a terra produzir. Gilberto Alves de Lima, o seu Beca, enfrentava situação semelhante. O roçado de mandioca não ia para frente, por mais que ele derrubasse trechos de floresta para expandir a plantação. Mas seu Beca não queria, de modo algum, vender as terras e, com elas, sua própria história. A esposa não suportou a situação. Mudou-se para Ubaitava, no interior baiano, e foi morar com a filha solteira.

    “Estava triste, sentadinho na frente de casa, quando o Salvador chegou”, diz seu Beca. Não se trata de um trocadilho: Salvador Ribeiro da Silva Filho é o coordenador do Projeto Floresta Viva, um programa de desenvolvimento sustentável aliado à preservação da Mata Atlântica. Mantido pelo Instituto de Estudos Socioambientais do Sul da Bahia (Iesb), o projeto trabalha com os agricultores da Área de Proteção Ambiental Itacaré-Serra Grande, um dos mais bem conservados trechos de floresta da Bahia. Os objetivos são claros: evitar a degradação ambiental e reverter o quadro de exclusão social vivido pelos agricultores da região.

    “As atividades do projeto foram definidas com base nos problemas enfrentados pelos agricultores”, diz Salvador. O primeiro passo foi ajudá-los a fortalecer as próprias organizações comunitárias. Depois, oferecer-lhes assistência técnica e capacitação para aproveitar o solo da melhor maneira, sem precisar devastar. Os agricultores são estimulados a trocar idéias entre si nas visitas de monitoramento. Para ajudá-los a complementar a renda, enquanto a subsistência não vem exclusivamente da terra, o Floresta Viva implantou um programa de renda mínima. As famílias atendidas assumem o compromisso de preservar os trechos de mata de suas propriedades e contribuir para o reflorestamento da região, plantando mudas nativas.

    A roça minguada do seu Domingos deu lugar a uma propriedade exemplar. Um dos primeiros a aderir ao projeto, ele tem hoje uma horta orgânica, da qual tira o próprio sustento e ainda incrementa a renda familiar. Instalou dois sistemas agroflorestais – como são conhecidos os modelos de plantação de espécies alternadas –, um com árvores frutíferas, outro com plantas medicinais. A represa com roda-d’água ajuda a abastecer a horta dele e dos vizinhos. Além disso, há um viveiro com mudas típicas da região. Enquanto a produção ainda é incipiente, seu Domingos recebe do Floresta Viva um pagamento mensal de 100 reais.

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    O projeto instalou também trilhas ecológicas em algumas propriedades, como a do seu Beca, garantindo aos agricultores mais uma fonte de renda. Com a esposa de novo ao lado e vestindo uma farda própria de guia turístico, seu Beca leva os visitantes mata adentro e ensina: “Não se esqueça de pedir licença à floresta para entrar”.

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