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Escalvada: o país das andorinhas

Linda Kogure

A cada ano, entre maio e outubro, é sempre a mesma história: nas proximidades da costa de Guarapari, no Espírito Santo, uma pequena ilha deserta, a Escalvada, é invadida por milhares de andorinhas-do-mar. Em 1994, eram 8 000; em 95, foram 15 000. No Atlântico Sul, a Escalvada é o maior santuário de reprodução dessas aves migratórias – as campeãs mundiais de vôo à distância.

Roubo de ovos afugenta aves durante décadas

As andorinhas-do-mar são famosas pelas espécies detentoras de recordes migratórios. É o caso da Sterna paradisea (ou trinta-réis-ártico), que voa 35 000 quilômetros, entre os pólos Ártico e o Antártico. Na Ilha Escalvada, a Associação Vila-Velhense de Proteção Ambiental (Avidepa), que há oito anos mantém o Projeto Andorinhas-do-mar, já identificou duas espécies da mesma família: a Sterna hirundinacea, a trinta-réis-de-bico-vermelho, e a Sterna eurygnatha, a trinta-réis-de-bico-amarelo. Estas aves costeiras pesam, em média, 190 gramas e medem de 41 a 44 centímetros de comprimento. Vivem cerca de 15 anos. Se faz muito frio ou calor, mudam de moradia. No Atlântico Sul, quando o inverno chega à Argentina, elas migram rumo a um clima mais ameno para o período anual de reprodução. São capazes de voar dia e noite, por mais de 12 horas, pousando pela costa. A viagem começa no litoral da Patagônia, atravessa o do Uruguai, o Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e termina no Espírito Santo – cerca de 4 000 km. Ali, a Escalvada é o paraíso: um pedaço de terra de 100 metros de diâmetro, de difícil acesso e inabitado, rodeado de águas piscosas. Mas nem sempre foi assim. A Escalvada abrigou um farol, inaugurado em 1907. Nos anos 20, o serviço passou a funcionar eletrônicamente. Depois, abandonada, a ilha serviu de prato cheio para aventureiros, ladrões de ovos de andorinhas, que já a procuravam para procriar. Degradado o ambiente, as aves bateram asas. Foi só em 1984, com a descoberta de uma grande colônia de reprodução nas vizinhas Ilhas Itatiaia, em frente à cidade de Vila Velha, que surgiu a idéia de proteger as andorinhas no litoral capixaba. A partir de 1988, seduzidas pelo novo tratamento (veja na página 44), as aves voltaram à região. Além da Escalvada, fizeram ninhos também nas ilhas Branca, dos Pacotes e nas sete do arquipélago de Itatiaia.

Anel na pata identifica cada filhote

Os primeiros bandos chegam em abril. Sobrevoam as ilhas, até escolher o pouso ideal de reprodução. Na Escalvada, encontram uma área maior de postura e duas plantas rasteiras introduzidas pela Avidepa: o feijão-da-praia (Canavalia obtusifolia) e o salsa-da-praia (Ipomoea pres-capris) servem para a construção de ninhos e o combate da erosão do solo.

Feita a seleção, há tempo para tudo. Tempo para namorar, quando o casal, apaixonado, voa em sincronia. Tempo para casar, em maio, quando se retiram para outro lugar e acasalam-se em segundos. E tempo para constituir família e fazer ninhos. No máximo, nascem dois filhotes por casal, alimentados com peixes até a sexta semana. Cada bebê é alvo de uma pesquisa que realiza a medição de peso, largura e comprimento do ovo, e o acompanhamento semanal do crescimento. Nos currais, filhotes e aves adultas são identificados por anilhas metálicas – um anel numerado, colocado no pé direito, que auxilia o rastreamento das andorinhas nas migrações do Atlântico Sul. Em 1995, seis mil filhotes foram marcados contra quatro mil em 1994.

A andorinha raramente dorme, apenas diminui o ritmo do metabolismo durante a noite. Tem tempo de sobra para fazer o que mais gosta: piar. Quem visita a Escalvada, nos meses de reprodução, surpreende-se ao ser recebido por um barulho agudo, a chamada “vocalização das andorinhas”. Elas piam sem parar, ensurdecedoramente. E conseguem, no caso das de bico-amarelo, assustar os mais afoitos com seus gritos estridentes. Já as de bico-vermelho, corajosas, atacam o gavião-carcará, o inimigo número um dos seus ninhos. Em outubro, é tempo de partir. Com os filhos aptos para viajar, cada um pesando, em média, 150 gramas, e medindo 25 centímetros de comprimento, as aves partem na direção sul, para longe do verão capixaba. Na Patagônia, o clima será suave.

Farol antigo

A torre vermelha da Ilha de Escalvada, construído no início do século, deixou de ser apenas um ponto de referência aos navegantes. Hoje, ele ilumina o maior refúgio de reprodução de andorinhas do Brasil.

Paixão no ar

Após flertar e namorar, o casal se exibe em vôos sincronizados. Um imita à perfeição o movimento do outro.

Acesso difícil

Não há praia, nem atracadouro. Os pesquisadores precisam de cuidado para se aproximar da ilha, desembarcar no mar e vencer as rochas.

Reunião barulhenta

As andorinhas-do-mar piam sem parar. Quem visita seu ambiente, é recebido com um ruído ensurdecedor.

A mais valente

A trinta-réis-de-bico-vermelho é agressiva o suficiente para atacar seu inimigo mortal, o gavião-carcará.

A mais agitada

A trinta-réis-de-bico-amarelo é dona de um pio áspero, atordoante. Defende a prole na base do grito.

Paraíso remoto

Na época em que o homem acionava o farol, a ilha era um ponto estratégico. Agora, com vegetação e turismo controlados, tornou-se o santuário das aves migratórias.

Alvo fácil

A postura é, no máximo, de dois ovos. Na vegetação rasteira, o ninho é um alvo fácil para predadores.

Fração mínima

As medidas são diminutas: 5 centímetros de comprimento, 3,5 de circunferência e 35 gramas de peso.

O primeiro berro

Como qualquer bebê, o filhote nasce gritando por comida. Desengonçado, só consegue andar após sete dias.

Ritual da proteção

As aves são reunidas num curral para a identificação dos filhotes e adultos e, depois, anilhadas; cada uma recebe um anel no pé direito, com um número gravado. Assim, podem ser rastreadas pelo Atlântico Sul.