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Os fungos e suas formas delirantes

A natureza inventou, com os cogumelos, esculturas delicadas e delirantes. E a cada dia surgem novas formas. A ciência só identificou 4% dos fungos que existem. Mas só eles já são um espetáculo de encher os olhos. Olhe só.

Milton Dines

Você pergunta: a que plano arquitetônico, a que delírio febril esses seres frágeis obedecem? Difícil saber. Eles brotam espontaneamente na natureza.

A Micologia, a ciência que estuda os fungos, não dá conta de tanta variedade. Estima-se que existam 1,5 milhão de espécies no mundo, mas só 69 000 foram descritas – 2 500 no Brasil, segundo a pesquisadora Marina Capellari, do Instituto de Botânica de São Paulo. Na Amazônia, deve haver milhares, desconhecidas. A classificação é difícil. Há fungos que nascem e morrem em poucas horas, antes que os pesquisadores possam sequer conhecê-los. Eles existem há 130 milhões de anos. Uns são deliciosas iguarias, outros são venenos fatais e há aqueles que funcionam como poderosos alucinógenos. Todos, obras de arte.

O Mutinus elegans é raro. Em sua ponta, coberta por uma gosma fétida, nadam as células reprodutivas. As moscas e insetos atraídos pela gosma assumem o trabalho da reprodução: carregam, e disseminam, as células nas patas e asas

O chapéu do Armillariella mellea tem sabor apreciado, mas deve ser fervido antes da refeição

A carne do Calocera viscosa, muito elástica e gelatinosa, não tem sabor

O Sarcoscypha coccinea deslumbra pela cor forte, vermelho escarlate

Muitos já tentaram cultivar o suculento Morchella esculenta. Mas não conseguem. Ele só brota na natureza

Com a forma de um fígado, o Fistulina hepatica pode ter 30 centímetros de largura

O Lentinellus cochleatus, quando jovem, tem a carne doce

O Dictyophora indusiata, protegido por um véu, parece um ET

O Cyatrus stratus lembra uma câmpanula. A queda de gotas de chuva provoca dispersão de esporos, que produzem a reprodução do fungo

O Xeromphalina tenuides cresce em colônias na Mata Atlântica. Não é tóxico, mas é ruim de gosto que só ele.

Meio planta meio bicho

Eles ficam entre o reino vegetal e o reino anima

Eles têm o corpo composto de água, muita água. Um cogumelo é 90% água. Fora isso, são filamentos, cujas membranas contêm quitina e celulose. Como a quitina não é do reino vegetal, mas um componente da pele dos homens e dos insetos, os cogumelos são considerados um caso à parte na natureza, nem vegetais nem animais. São fungos que se transformaram em frutos.

O Polyporus tenuiculus foi descoberto no Brasil e era classificado como Favolous brasiliensis, porque parece um favo. É muito empregado na culinária dos índios ianomamis, do norte do Amazonas e de Roraima. Pode ser encontrado em todo Brasil, até em áreas urbanas.

O Pycnoporus sanguineus é bonitinho mas ordinário: sua carne vermelha não é tóxica, mas é dura e lenhosa. Já foi comida de índio da Mata Atlântica

O Psilocybe cubensis cresce no esterco e é aluciógeno

Este você conhece: o saboroso Boletus edulis, vulgo “funghi porcini”

O Auricularia auricula-judae ou Orelha-de-Judas. Iguaria comestível até crua

O Marasmius bulliardii têm apenas quatro milímetros de diâmetro

Placa mucosa sobre troncos podres, o Fuligo septica não alimenta ninguém

O Clavariadelphus pistillaris tem sabor amargo e parece uma clava medieval

Esta espécie do gênero Tremela lembra aquelas gosmas que aparecem em filme de terror ou em lojas de brinquedos. Ninguém come

Um exemplar do gênero Polyporaceae, que cresce sobre árvores e parece uma esponja dura

Na China, a Auricularea fuscosuccinea, fonte de proteína, serve de refeição até crua

Seco e moído, o Pysolithus tinctorius faz as vezes de cicatrizante em Minas Gerais. Daí seu apelido, “pó pra tapar talho”

O Hymnochaetaceae phellinus é uma espécie saprófita, ou seja, que se desenvolve em materiais mortos, como árvores caídas ou madeira exposta à umidade. Sua superfície parece o pêlo de um felino

Abundante nas raízes dos pinheiros, o Scleroderma citrinum provoca distúrbios gastrointestinais, como diarréia. Cuidado

Na Espanha, o Agrocybe aegerita é cultivado como acepipe fino

O Mycena renati tem pouca carne e cheiro de amônia

O saboroso Pleurotos ostreatus é consumido no mundo todo como shimeji, um prato típico japonês

O Coprinus Comatus parece um sino peludo. É um petisco, mas colha rápido, pois ele vive só seis horas

O poder oculto na beleza

Além de belos, úteis. Alguns cogumelos têm enzimas que decompõem resíduos animais, vegetais e sobretudo industriais, quebrando moléculas orgânicas longas em moléculas menores. Isso faz deles aliados poderosos da ciência. Eles se alimentam das substâncias que degradam, devolvendo-as ao solo como elementos mais simples. Assim, promovem a reciclagem e a regeneração do ambiente.

E isso vale ouro.

Os pesquisadores Dácio Matheus e Kátia Machado, do Centro de Ensino e Pesquisas do Litoral Paulista, da Universidade Estadual Paulista, requereram patente para um processo de descontaminação desenvolvido com cogumelos basideomicetos. Três espécies – cujos nomes não revelam para não perder a exclusividade – têm enzimas capazes de “induzir um processo de mineralização”, segundo disse Dácio Matheus à SUPER.

“Elas degradam ao máximo os compostos organoclorados presentes em alguns poluentes químicos, até transformá-los em compostos minerais simples, como gás carbônico (C02), água (H20) e cloro livre.” Decompõem até a lignina – a mais complexa molécula da natureza –, o pesticida DDT e organoclorados tóxicos como HBC (hexaclorobenzeno) e PCP (pentaclorofenol).

Cogumelos também inovam na medicina. O biólogo Shu-Ting Chang, da Universidade Chinesa de Hong Kong, anunciou que o extrato do Lentinus edodes fez regredir completamente os tumores de seis em cada dez ratos testados. No Japão, as proteínas PSK e PSP, extraídas da espécie Coriolus versicolor, estão entre as drogas inibidoras do câncer mais vendidas – e seu potencial está longe de ser esgotado. Nenhuma obra de arte tem tanta aplicação prática.