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Planeta discute seu destino

A conferência sobre meio ambiente e desenvolvimento pretende reunir daqui a um ano, no Rio de Janeiro, todos os chefes de governo do mundo. Deles depende a solução para o dilema que assombra a humanidade: como promover o progresso sem destruir a natureza.

Luiz Weis, Gisela Heymann, Nira Worcman e Suzana Veríssimo

Quando abriu a sessão naquela manhã de fim de inverno europeu, na sala XIX do Palácio das Nações, a majestosa sede da ONU em Genebra, Suíça, o embaixador de Cingapura, Tommy Koh, tinha um grave comunicado a fazer aos representantes diplomáticos e outros enviados oficiais dos 159 países-membros ali reunidos. “Atendendo a insistentes pedidos, ficou resolvido que não se pode fumar nesta sala durante os trabalhos”, decretou. “Mas não vou ficar aborrecido se alguém tiver de sair por alguns minutos para se drogar lá fora”, emendou, com o bom humor pelo qual é conhecido por seus pares. Uma salva de palmas aprovou a decisão—a primeira e incomparavelmente mais fácil de todas quantas haverão de resultar de um espinhoso processo de negociações que está começando a aquecer os motores.

As negociações, assim como a reunião de Genebra presidida pelo alegre diplomata asiático, fazem parte de uma obra de relojoeiro—a montagem do que será com certeza a mais grandiosa e, espera-se, a mais fecunda iniciativa já patrocinada pela Organização das Nações Unidas em seus quatro decênios de vida nem sempre bem-sucedida. Trata-se da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que se realizará exatamente daqui a um ano no Rio de Janeiro. O Brasil ofereceu-se para hospedar a conferência ainda no governo Sarney, o Rio foi escolhido como sede já no governo Collor e, se depender dele, seu símbolo será a Floresta da Tijuca, a única do gênero no mundo, uma ilha verde de 5 quilômetros quadrados, habitada por centenas de espécies de pássaros e milhares de espécies de insetos, cercada de vida urbana por todos os lados.Eco-92 é o nome informal da reunião e megaevento o adjetivo mais usado para qualificá-la. 

Com razão, pois, de 1 a 12 de junho, os pavilhões do Riocentro—um conjunto de dezenas de salões com 90 000 metros quadrados de área, entre Jacarepaguá e o Recreio dos Bandeirantes, na ponta sul da capital— serão tomados por uma legião estrangeira calculada por alto em 3 000 diplomatas e outros graúdos funcionários governamentais, mais 1000 técnicos e burocratas da ONU, mais levas de jornalistas, também na casa dos milhares. A conferência custará ao Brasil 5 milhões de dólares. Não muito longe dali, no Autódromo de Jacarepaguá, uma população cujas medidas são ainda mais difíceis de prever, podendo chegar a 20 000 pessoas, estará fazendo a conferência paralela das chamadas organizações não governamentais (ONGs), designação que recobre, além de entidades ecológicas, uma infinidade de associações civis desejosas de se manifestar sobre o futuro do planeta ou sobre temas menos grandiloqüentes, mas de seu interesse específico, como a situação de grupos indígenas.

Prova definitiva de que a discussão sobre o meio ambiente foi transplantada das barricadas da contracultura para o centro da agenda política internacional, pela primeira vez todos, mas rigorosamente todos os chefes de governo da Terra serão convidados a participar de uma conferência. E de supor que raríssimos deixem escapar a oportunidade de marcar presença naquele que se anuncia como um momento histórico—embora, a um ano de sua realização, ainda existam muitas dúvidas sobre como ele será efetivamente aproveitado. Muitos receiam que, se não forem capazes até lá de se pôr de acordo em relação ao que fazer para melhorar o ambiente global, os governantes não façam nada—a não ser deitar falação. “Essa talvez seja a última chance de garantirmos nossa existência no século XXI”, adverte, por isso mesmo, à maneira de um arrebatado pregador bíblico, o canadense Maurice Strong, o self-made man de 61 anos que ocupa o cargo de subsecretário da ONU e comandará a Eco-92 na condição de seu secretário-geral.Homens do mundo, os diplomatas naturalmente não tomam ao pé da letra as palavras apocalípticas de Strong. Ainda assim, a julgar pelo desenrolar do encontro de Genebra, sob a benevolente tutela do cingapuriano Tommy Koh, parecem estar criando a coreografia apropriada a um entendimento supranacional a respeito do que provavelmente seja o supremo desafio da vida contemporânea. É uma dupla charada: de um lado, consiste em libertar da miséria três quartos da humanidade, sem que parte do resgate continue a ser pago pela natureza; de outro, consiste em preservar a prosperidade ou coisa parecida do quarto restante, desarmando a carga letal ao ambiente da tecnologia que tornou possível essa mesma prosperidade.

O que está em jogo, no limite, é saber se existe passagem para o desenvolvimento sustentável, como amam dizer os ambientalistas quando querem se referir à ainda impalpável, quem sabe utópica ordem econômica que promoveria o bem-estar material do homem sem destruir o patrimônio ecológico do mundo. “Não se trata apenas de salvar árvores, mas de entender que o modelo de desenvolvimento seguido até agora tem de ser revisto”, interpreta Lucas Assunção, um dos 23 especialistas que integram o secretariado da Eco-92, presidido pelo canadense Strong. Mineiro de Belo Horizonte, economista formado nos Estados Unidos, Assunção se faz notar aos 32 anos pela carga de trabalho que acumula. Os colegas se referem a ele como o homem de três chapéus, pois, além das funções que exerce no secretariado, é responsável pela ponte entre este e o governo brasileiro e ainda é conselheiro em economia do meio ambiente na ONU.

A arena onde começa a transcorrer o debate sobre a revisão econômica de que fala Assunção é o Comitê Preparatório da conferência. O PrepCom, no jargão da burocracia internacional, é que ocupou recentemente a sala vedada a fumantes no Palácio das Nações, em Genebra, fincado a dois passos de um cenário em que se combinam jardins floridos, as águas quietas do Lago Léman e montanhas decoradas pela neve— um cartão-postal que parece não pertencer ao mesmo mundo do qual se originam as imagens de pesadelo dos assuntos subjacentes à reunião, como a poluição do ar, o buraco na camada de ozônio, o desflorestamento e a desertificação, para ficar só na pauta imediata do comitê.O encontro foi o terceiro de uma série que começou em Nova York em março do ano passado, continuou em Nairóbi, no Quênia, em agosto, prosseguirá de novo em Genebra daqui a três meses e terminará em Nova York, em fevereiro do próximo ano. As duas rodadas iniciais foram dedicadas, em parte, a dar o tom geral do evento e, em parte, a acertar as regras do jogo. Estabeleceu-se, por exemplo, que a conferência deve trazer ao Rio as mais altas instâncias do poder em cada país.

A partir da terceira rodada, os delegados passaram a encarar o xis da questão—os ferimentos causados ao ambiente em nome do desenvolvimento—e começaram a desenhar sugestões para futuros acordos em torno dos remédios tidos como eficazes. “Essa é a fase mais importante de todo o projeto”, avalia Assunção. “Pois durante a conferência propriamente dita, no Brasil, só vai dar tempo de assinar o que já tiver sido aprovado aqui.” Concorda Jean Claude Faby, diretor do escritório da conferência em Nova York: “Seria impossível em apenas dez dias de trabalho negociar uma agenda tão complexa”. As peças dessa agenda estão sendo encaixadas pelos três grupos de trabalho em que se dividiu o comitê preparatório, enquanto cuida de tecer o mais completo painel dos males ecológicos do globo, com base nos relatórios de cada país.

Aí está a incubadeira dos projetos de decisão que poderão ser oferecidos à caneta dos chefes de governo na Eco-92. A pauta do primeiro grupo abrange as questões ecológicas mais peludas, como a proteção da atmosfera, a gestão dos recursos terrestres, a preservação da biodiversidade e o impacto da biotecnologia. O segundo grupo está imerso nos problemas da defesa dos oceanos, mares e regiões costeiras, proteção dos recursos de água doce e administração dos rejeitos tóxicos e químicos produzidos pelo homem. O terceiro se movimenta no universo enganadoramente rarefeito dos assuntos jurídicos e institucionais. É onde, porém, a conferência pega no nervo das relações entre os países. Pois aqui se vão garimpar os mecanismos legais capazes de pôr em prática as decisões que se espera sejam sacramentadas no Riocentro—o que passa pelo campo minado do confronto entre a noção de soberania nacional e a realidade das calamidades que desconhecem divisões geográficas.

Além disso, o grupo terá de mexer no vespeiro da origem e do trajeto do dinheiro necessário a dar vida àquelas decisões. “Quem paga quanto para quem fazer o quê?” Assim o chileno Bernardo Zentilli, companheiro de Lucas Assunção no secretariado da Eco-92, descreve com exatidão o maior caroço entalado nas boas intenções da reunião do Rio. E é seguramente nele que pensa também o secretário Maurice Strong quando proclama: “Uma das mais importantes tarefas na preparação da conferência consiste em defender, em termos persuasivos mas práticos, novas e inovadoras abordagens capazes de corrigir o desequilíbrio entre países ricos e pobres”.

O que isso tem a ver com a salvação do ambiente é simples: os países rotulados com reconhecida imprecisão “em desenvolvimento” (alguns dos quais, na África e na América Latina, estão na verdade em franco processo de encolhimento) demandam livre acesso a dinheiro e às tecnologias limpas que começam a aparecer no mundo rico para que combatam a pobreza sem deitar a perder a natureza. Strong, um filho de agricultores pobres que diz ter aprendido ambientalismo com os esquimós, fez carreira na empresa privada e no governo do Canadá antes de parar na ONU e é casado com uma ativista verde, apóia a reivindicação. “É evidente”, discursou ele em Nairóbi no ano passado, que os países em desenvolvimento vão precisar de recursos externos “além daqueles que já Ihes são disponíveis”. Mas as rochosas realidades da economia não se dobram facilmente a orações. “Tem havido muita reticência da parte dos países industrializados em admitir que precisarão mobilizar uma considerável quantidade de recursos para esse fim”, atesta Jean Claude Faby, da ONU em Nova York. Parece, mas não é necessariamente, apenas um caso de ganância.

Se é verdade que não falta no Primeiro Mundo quem já esteja farejando novas fornadas de negócios por obra e graça da projetada limpeza do planeta, e por isso não quer doar nem emprestar aquilo que imagina poder vender, tampouco falta quem, conhecendo suficientemente como funciona o mundo, receia que os dólares que vierem a ser transferidos a fundo perdido para a recuperação ambientar dos bairros pobres da Terra acabem muitas vezes tomando outros rumos. Isso bem pode acontecer nas mãos de governos autoritários, de que o Terceiro Mundo por sinal é pródigo, tão ciosos da soberania dos países que controlam quanto pouco propensos a prestar contas dos seus atos.

Presente em Genebra nos últimos dias de trabalho da terceira reunião do comitê preparatório da Eco-92, no início de abril, o chanceler brasileiro Francisco Rezek tocou no ponto inflamado da questão do dinheiro ecológico. “Nesse âmbito gostaríamos de ver abolidas as regras do mercado”, afirmou ele em defesa do ponto de vista de que os critérios comerciais de praxe não podem atravessar o esforço de proteção ao meio ambiente nos países menos desenvolvidos. O ministro Rezek e o secretário da Ciência e Tecnologia, José Goldemberg, advogam a criação de um ou mais fundos internacionais para financiar os projetos de conservação da natureza. “Mas é preciso que cada fundo seja administrado por um secretariado especial”, ressalva Goldemberg, “e não por instituições como o Banco Mundial ou o BID, sujeitas a pressões no contexto do problema do pagamento da dívida externa.” O chanceler e o secretário são os principais mestres-de-obra das posições brasileiras na Eco-92. Já existe um precedente para a sugestão do fundo. 

Em junho do ano passado, uma conferência internacional para apressar as providências de proteção da camada de ozônio aprovou sem meias palavras a idéia de que as nações pobres têm direito a ajuda financeira para pagar os equipamentos e processos industriais que dispensarão até a virada do século o emprego de clorofluorcarbono (CFC), o gás que vem corroendo o escudo de ozônio na alta atmosfera— muito mais depressa, aliás, do que os cientistas previam. Os países industrializados prometeram enviar-lhes um cheque de 240 milhões de dólares para esse fim. De qualquer forma, um pedaço dessa engenharia toda resvala na quina mais áspera das conversas ecológicas entre os dois lados da linha do equador. 

É o problema das culpas e responsabilidades pelos danos ao ambiente. Norte e Sul vêm trocando desaforos por causa disso pelo menos desde 1972, quando a ONU promoveu em Estocolmo, Suécia, a primeira conferência mundial sobre o meio ambiente e o que se viu foram os ricos falando em “limites ao crescimento” e os pobres respondendo que “a pior poluição é a miséria”. No embalo do milagre econômico do regime militar, a delegação brasileira chefiada pelo ministro do Interior, Costa Cavalcanti, chegou a considerar “bem-vinda” a poluição, por ser evidência de progresso econômico. Hoje, quem desfila pelos plenários internacionais com a bandeira do desenvolvimento a todo custo são países como a Índia e a China. Em nome de imperativos econômicos, eles resistem, por exemplo, a pôr em marcha programas destinados a banir as emissões de CFC.

De todo modo, passados vinte anos, fica difícil sustentar, como então, que as pressões ambientalistas escondem uma conspiração costurada pelos ricos para manter os pobres no seu lugar. Aparentemente, o que os ricos querem manter, isto sim, é o seu estilo de vida. Mesmo os simpatizantes das teses terceiro-mundistas apontam que, por maiores que sejam os pecados ambientais dos países industrializados, os outros tampouco podem fingir— apenas porque são pobres—que não têm contas a fazer do mal à natureza que se pratica dentro de suas fronteiras. De seu lado, as elites intelectuais do Primeiro Mundo percebem que também seus países sofrerão se recusarem socorro ecológico aos mais atrasados.

O Brasil, como se sabe, está no centro dessa nova guerra fria, devido à ligação entre as queimadas na Amazônia e o aquecimento do planeta. Brasília não pretende assinar documento algum sobre a transformação do clima da Terra que não consigne a responsabilidade dos países desenvolvidos. Assim, um texto sobre mudanças climáticas, que discrimine causas, conseqüências e soluções, poderá ser rejeitado pelos representantes brasileiros no PrepCom se tratar da redução da área das florestas tropicais de tal modo que deixe o país prensado contra a parede—e não fale das relações entre energia e clima, apontando o dedo acusador para os ricos. “Ora, não há dúvida de que a causa principal do efeito estufa é o aumento das emissões de dióxido de carbono (CO:), cujos maiores índices estão no Norte” assinala Assunção do secretariado da conferência.”As coisas estão bastante difíceis”, preocupa-se Goldemberg. “A conferência pode gerar ou um tratado ou um protocolo ou uma declaração, nessa ordem de importância, sobre a questão do clima”, explica. Um tratado tem praticamente força de lei e prevê penas para quem não cumprir o que nele prometeu. Um protocolo consigna intenções que podem ser descumpridas sem que o mundo venha abaixo. 

E uma declaração talvez acabe não valendo nem o papel em que foi impressa. “O Brasil se opõe em princípio a um tratado sobre florestas tropicais,enquanto os Estados Unidos e o Japão são contra um tratado sobre o excesso de dióxido de carbono”, registra ele, desconsolado. “A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos ainda aceita abordar o problema do CO2, mas a Casa Branca se recusa.”Um exemplo dessa resistência está nos pífios resultados da primeira das quatro sessões previstas para a elaboração de um tratado sobre mudanças climáticas, que correm paralelas às reuniões do comitê preparatório. Depois de onze dias, delegados de 102 países foram para casa de mãos abanando. Os Estados Unidos limitaram-se a prometer que no ano 2000 as emissões do conjunto dos gases causadores do efeito estufa made in USA não serão maiores do que as de 1987. Essa contabilidade, ao incluir a redução de CFC com a qual os Estados Unidos já se haviam comprometido em 1987, autoriza na prática um aumento de 15% das emissões de CO2. 

E os Estados Unidos já são os maiores emitentes do mundo. Um recente estudo da academia americana de ciências (NAS) admitiu que a Terra ficará até 5°C mais quente e alertou pela primeira vez para a necessidade de retardar a mudança climática.Se se chegar a junho de 1992 sem nada mais concreto em relação ao clima do que uma simples declaração”, prevê Goldemberg, “a conferência das ONGs vai azedar.” Na verdade, em matéria de maus modos ecológicos é difícil dizer quem pode atirar a primeira pedra—além de ser um exercício fútil. Primeiro, porque nem o verde mais xiita ousaria sonhar com a instalação, no Riocentro, de um Tribunal de Nuremberg para julgar os crimes contra a biosfera. E segundo, porque os acusados sempre poderiam safar-se graças ao respeitável argumento de que a espécie humana melhorou de vida em razão da mesma revolução industrial que empesteou a natureza.

Dois documentos foram sugeridos ao comitê preparatório pelo incansável Maurice Strong, um veterano das refregas diplomáticas da reunião de Estocolmo, há dezenove anos, realizada sob seu comando, que acumula ainda os méritos de ter sido o primeiro diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e de haver participado da comissão que produziu em 1987 o famoso Relatório Brundtland (em homenagem a sua presidente, a ex-primeira- ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland). Intitulado Nosso futuro comum, é um retrato detalhado e devastador do estado do mundo, emoldurado por propostas de terapia que estão na raiz da Eco-92. Nele, a ONU reconheceu pela primeira vez que ” a pobreza absoluta é incompatível com a preservação do meio ambiente”.Strong deseja um grande acordo em torno de alguns princípios básicos.
 
Esse acordo tomaria a forma de um breve texto, a Carta da Terra, inspirado na Carta da ONU, de 1945, que consagrou a universalidade dos direitos humanos. Para que não venha a ser apenas um aglomerado de belas letras mortas, a carta seria acompanhada de uma Agenda 21—um compromisso dos governos em relação a um conjunto de políticas voltadas para os desafios do próximo século (daí o nome). A agenda definiria um programa de trabalho com instrumentos aceitos por todos, incluindo recursos financeiros, transferência de tecnologia e ainda reformas institucionais. O essencial, para Strong, é que se concorde que o círculo vicioso da pobreza, destrutivo e imoral, precisa ser rompido. E que esse rompimento representa “um necessário investimento no futuro do nosso planeta”.

 

 

 

 

 

Boxes da reportagem

Em Brasília, a precária preparação política

Ao candidatar-se a sede da Eco-92, em fins de 1988, o Brasil provocou alguma excitação nos gabinetes das Nações Unidas. Fustigado de todo lado pelas críticas às queimadas na Amazônia e à situação dos indígenas da região, o governo brasileiro poderia querer tudo—menos trazer para cá um exército multinacional de ecologistas, além de altas autoridades de uma centena e meia de países. Por isso, a oferta de Brasília foi considerada “extremamente importante”, lembra Jean Claude Falby, do escritório nova-iorquino da Eco-92. Agora, o comitê preparatório da ONU acompanha a movimentação do grupo de trabalho chefiado pelo diplomata Carlos Garcia, diretor geral de Administração da Presidência da República, que tem a tarefa nada invejável de cuidar da organização prática da conferência. O “sargento Garcia”, como se referem a ele os amigos, coordena as providências de uma afazia de organismos dos quais depende a infra-estrutura da reunião.O problema que parece existir é a magra preparação política do governo para a conferência. Em matéria de ecologia, ouve- se em Brasília um coro desafinado de poucas vozes. A primeira vítima dessa situação corre o risco de ser o Relatório Nacional, o retrato ecológico do país destinado ao comitê que prepara a Eco- 92. 

Sua elaboração coube a uma comissão interministerial centralizada na Secretaria do Meio Ambiente, dirigida pelo ecologista José Lutzenberger, com a participação de associações ambientalistas. O documento “periga não passar de um muro das lamentações, sem idéias concretas que Ihe dêem um caráter mais sério”, antecipava tempos atrás um funcionário familiarizado com as andanças da comissão.Existe no governo, por sinal, um curioso sentimento em relação ao secretário do Meio Ambiente. “Ele é o nosso trunfo mais ilustre para a conferência”, admite uma autoridade. “O problema é que suas idéias nada têm a ver com as da sociedade em que vivemos.” De fato, Lutzenberger julga pouco produtivo discutir o que considera “a aspirina para a dor de cabeça cada vez mais forte da humanidade”, como designa os “reparos técnicos” à crise ambiental. “Achar que mais desenvolvimento vai resolver os problemas provocados pelo desenvolvimento”, compara, “é o mesmo que tornar a prescrever um remédio que comprovadamente faz mal ao paciente.”Em conseqüência, a roupa com que o Brasil se apresentará à Eco-92 parece estar sendo confeccionada exclusivamente pelos estilistas do Itamaraty e da Secretaria de Ciência e Tecnologia.
 
As primeiras manifestações brasileiras no comitê preparatório da ONU foram desenhadas pelo chanceler Francisco Rezek e pelo chefe da Divisão de Meio Ambiente, embaixador Luís Felipe Macedo Soares, em parceria com o secretário José Goldemberg. Nessa etapa, nem o Congresso Nacional, nem o Palácio do Planalto se envolveram com o assunto.Pode-se dizer que a vestimenta política com a qual os enviados brasileiros apareceram em Genebra ainda guarda vestígios da moda estridente ostentada na primeira grande conferência ecológica da ONU, em 1972. Sobreviveu uma tendência a envergar o vistoso conceito de soberania nacional sempre que entrassem em cena os maus passos do pais no terreno ecológico—notadamente, a questão do desflorestamento da Amazônia, associado ao efeito estufa e às extinções das espécies. O pior é que a recusa dos Estados Unidos em adotar um programa energético que reduza os riscos de uma catástrofe climática nas próximas décadas só estimula aquele tipo de reação—identificado até por um alto funcionário de Brasília como “pura xenofobia”.

 

 

 

 

Ângelo Machado

Espero que surjam medidas concretas capazes de ajudar os países do Terceiro Mundo a cumprir seu dever para com a humanidade. Uma dessas medidas poderia ser a criação de um fundo internacional de proteção ambientar. Espero também que o Brasil compense o fiasco de sua atuação na conferência de Estocolmo, em 1972, onde sustentou que “o Brasil pagaria em poluição o preço de seu desenvolvimento”.O zoólogo Ângelo Machado é vice presidente da Fundação Biodiversitas, de Belo Horizonte, e professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

 

 

Jairo Costa

A conferência é uma enorme oportunidade para que outras nações tomem conhecimento do trabalho que estamos fazendo aqui. Espero que a conferência sirva ainda para integrar o nosso país no contexto das nações ecológicas. Espero também que a partir da conferência as nações mais ricas, que por sinal são as que mais poluem entendam melhor as mais pobres. Não basta cobrar é preciso que nos ajudem mais.O empresário Jairo Costa é presidente da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, do Rio de Janeiro.

 

 

 

Fábio Feldmann

Gostaria que a conferência representasse uma ruptura radical no nosso modo de pensar e de agir, que trouxesse de fato mudanças profundas no que diz respeito à ecologia. No entanto, ela corre o risco de se transformar simplesmente em um evento para os meios de comunicação uma espécie de circo de Fórmula 1, com um cenário hollywoodiano. Estamos trabalhando para que isso não aconteça.O ambientalista Fábio Feldmarm é presidente da Fundação ao Oikos (União dos Defensores da Terra) e deputado federal por São Paulo.

 

 

 

Sílvia Campiglia

Espero que a conferência aponte definições nítidas para os problemas que afetam diretamente o ambiente, como a utilização dos recursos naturais e a expansão urbana. Espero que as propostas e as soluções sejam imediatas. E que as prioridades sejam incrementadas o quanto antes. Ótimo que essa conferência se dê no campo da política, da diplomacia. É urgente que a consciência ecológica seja despertada entre os políticos.A professora Silvia Campiglia, formada em História Natural, é diretora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e coordenadora do curso de pós-graduação em Ciência Ambiental da USP.

 

 

 

Carlos Minc

Espero que sejam estabelecidos princípios para uma nova ética ecológica internacional—incompatível, entre outras coisas. com a venda nos países pobres, de agrotóxicos proibidos nos países onde são produzidos. Essa nova ética impediria que países como os Estados Unidos e a Alemanha, que dizem chorar com as queimadas na Amazônia, comprem ferro-gusa de Carajás, produzido com carvão vegetal das matas nativasO ambientalista Carlos Minc é deputado estadual no Rio de Janeiro.

 

 

 

João Augusto Fortes

Espero a reafirmação da interdependência do homem com a natureza, do Norte com o Sul. Tomara que a Eco-92 marque o começo de uma ecologia no meio humano. Ou seja, do mesmo modo que se reconhece que a força da natureza está na sua biodiversidade, se perceba que a força da sociedade está na diversidade de idéias. Dela extrairemos a força para o trabalho em favor da vida na Terra .O empresário carioca João Augusto Fortes é um das dirigentes do movimento Pró Rio.

 

 

 

Armando de Brito

Espero pouco da conferência em si e mais da repercussão na consciência das pessoas da discussão que acontecerá. A conferência é um encontro de governos, que costumam ser conservadores na promoção do desenvolvimento com cuidados ambientais. O importante, de todo modo, é verificar até que ponto os habitantes do Primeiro Mundo estão dispostos a abrir mão de seus padrões de consumo em favor do meio ambiente.O administrador de empresas Armando de Brito é presidente do Movimento Pró Floresta da Tijuca.

 

 

 

Volker Kirchoff

Espero que a conferência não se transforme numa sucessão de acusações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento sobre a responsabilidade pela crise ambientar mundial. Espero também que a conferência não venha a ser apenas um grande show para a TV. Espero, isso sim, que seja um grande e sério diálogo, capaz de abrir os olhos dos governantes, despertar consciências e o senso de responsabilidade.O engenheiro eletrônico Volker Kirchoff coordenador geral de Ciências Espaciais e Atmosféricas do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos

 

 

 

José Carlos Libânio

Não espero grandes resultados da conferência oficial. O que espero é que as organizações não governamentais presentes ao Rio de Janeiro não percam a chance de dar o seu recado, deixando claro, por exemplo, que a pobreza é uma causa, não uma conseqüência, da poluição ambiental. Será necessário protestar também contra o uso do Terceiro Mundo como lata de lixo dos produtos tóxicos dos países ricos.O antropólogo José Carlos Libânio é diretor no Brasil do movimento internacional Greenpeace.

 

 

 

João Paulo Capobianco

Da conferência propriamente dita não espero muito. Espero mais do que virá antes e depois. A preparação à conferência é um período de muitos debates e alertas. Depois será o tempo de cobrar o cumprimento das resoluções que servirão de base para futuras leis nos países participantes. Isso tudo cabe às organizações não governamentais, as ONGs. Sem essa luta, a conferência corre o risco de ser mais um grande acontecimento para a mídia.O biólogo João Paulo Capobianco é diretor da Fundação S Mata Atlântica, de São Paulo

 

 

 

Na conferência paralela, a vez dos verdes

São dois, a rigor, os megaeventos marcados para junho do ano que vem no Rio de Janeiro. O outro é a conferência informal promovida pelas 133 organizações não governamentais (ONGs) inscritas junto à ONU, que reúnem menos ou mais frouxamente a miríade de entidades ambientalistas (ou não) espalhadas pelo mundo. Ninguém sabe quantas pessoas vão participar dessa colossal assembléia paralela. O certo é que vem gente de todo tipo e de toda parte querendo dar o seu recado particular e se fazer notar aos olhos da multidão. A dinamarquesa Hanne Strong, mulher do secretário geral da conferência, Maurice Strong, por exemplo, está organizando um comitiva de representantes de 1 500 nações indígenas—de pigmeus africanos a aborígenes australianos, passando por sioux americanos. Nos anos recentes, todos eles perceberam que, ao plantar seus problemas em terreno ecológico, alcançam uma audiência que de outro modo Ihes escapava. Os indígenas, por sinal, conseguiram o direito de representação na conferência da ONU.Nem a Prefeitura do Rio nem o governo do Estado têm qualquer compromisso oficial com a conferência paralela. Ainda assim, ambos darão apoio logístico ao evento. Os encontros das ONGs serão realizados no Autódromo de Jacarepaguá, com capacidade para 80 000 pessoas, a menos de 4 quilômetros do Riocentro. 

A idéia inicial dos independentes era reunir-se nos 23 000 metros quadrados de áreas externas do Riocentro, a uma pedrada de distância da conferência oficial. Mas a ONU, preocupada com a segurança dos chefes de Estado, vetou. É sabido que os mais variados matizes de verde cabem na heterogênea vegetação dos agrupamentos dedicados ao resgate da biosfera. Existem aqueles para os quais tudo se resolveria mediante uma boa e consentida reforma da sociedade urbano-industrial. Estes reconhecem que nem tudo nela é um poço de defeitos. Mas existem os fundamentalistas que só enxergam um remédio revolucionário—a completa demolição dos padrões de produção e consumo do mundo atual.” A força do evento paralelo é muito grande”, assinala a canadense Beatriz Olivastri, a sorridente diretora do International Facilitating Committee (IFC) que, como o nome indica, cuida de facilitar a participação dos setores independentes ao lado da Eco-92. De seu lado, a equatoriana Yolanda Kakabadse, responsável em Genebra pela ligação entre a conferência e as ONGs, Iembra com razão que foram elas “as responsáveis por grande parte da tomada de consciência da crise ecológica”. lmpulsionada pelo temperamento latino e pela experiência de doze anos de trabalho na Fundação Natura, a maior organização ambientalista do Equador. Yolanda irrompe numa gloriosa certeza quando Ihe perguntam o que vai acontecer no Rio em junho de 1992: “Vai ser lindo”.