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“Neymar que me perdoe, mas não existe craque burro”

Os melhores jogadores de todos os tempos sempre primaram pela inteligência – dentro e fora de campo. Mas esse não parece ser o caso do nosso maior astro.

Por Marcos Abrúcio - Atualizado em 12 jul 2018, 19h25 - Publicado em 12 jul 2018, 11h49

Sempre fui fã do Neymar. Apesar de ele ser marrento, mimado, mal-assessorado, ególatra. Tudo bem. É que, apesar de disso tudo, ele joga muito. Muito mesmo. Mas nessa Copa, pela primeira vez, peguei raiva do cara. Não porque ele tenha ido tão mal (nem bem). Mas porque ele foi burro.

Burro, burraldaço. E aí dá raiva.

Raiva que não senti nem quando ele deu um chapéu no Chicão com o jogo parado. Ou quando deu um chapéu no Santos e disputou o Mundial de Clubes contra o Barcelona já contratado pelo… Barcelona. Ou quando deu um chapéu na Receita Federal. Ou quando deu um chapéu… 

Não, nada. Cansei de defendê-lo em inúmeras situações. Porque, repito, ele é fera. No começo, havia o medo de o Neymar virar um Robinho, alguém que prometia ser um dos grandes, mas no fim, pfff, não era nada daquilo. Pensar isso hoje é bobagem. Basta lembrar dos títulos que Neymar já ganhou: em todos, ele foi decisivo. Em muitas dessas conquistas, ele fez gol na final (Libertadores-2011 no Santos, Champions-2015 no Barcelona, Olimpíadas-2016 na Seleção, por exemplo).

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Por isso, nunca liguei para os seus penteados, suas tatuagens ou seus tuítes. Pra falar a verdade, nunca me importei nem com a sua fama de cai-cai, piscinero ou diver (dependendo do país onde você está). Afinal, a cada jogo, ele apanha mais que o Rocky Balboa em todos os filmes da série. Apanha mais do que qualquer outro jogador no mundo. Se ele provoca, se chama a falta, aí é outra história. Mas apanha. Os caras pisam no pé dele, no tornozelo, dão cotovelada, o UFC todo. E aí ele desaba no chão e, em seguida, rola, rola feito um pneu. A hipérbole da sua reação era uma maneira de punir quem o surrava. Uma maneira de gritar: manhê, olha o que o meu irmão mais velho fez! 

Só que agora não precisava. E por não ter percebido isso, ele foi burro.

Neymar não sacou que, em uma Copa marcada pela vigilância do VAR e, paradoxalmente, por uma certa complacência à porrada (foram poucos amarelos, parece que a FIFA não queria suspender ninguém), não adiantava nada ele rolar no chão daquele jeito. Quer dizer, só adiantou para melhorar nossos memes.

Não precisava cair como se tivesse levado uma bala perdida. Tava todo mundo vendo, pô. E o artifício, que antes poderia servir como uma defesa, passou a ser prejudicial. Contra a Costa Rica, ele preferiu cavar um pênalti (que foi anulado) a continuar o lance. Contra a Bélgica, a mesma coisa. Nas oitavas de final, o cúmulo: sua reação exagerada impediu a expulsão do mexicano que pisou criminosamente no seu tornozelo. Neymar gritou e rolou – como ele sempre faz. Então não foi nada de mais, pensou o juiz e o mundo inteiro. Não, o açougueiro mexicano tinha que ser expulso!

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Nosso maior ídolo foi burro ao não ver como esse comportamento não fazia mais sentido. Um erro crasso de avaliação das circunstâncias. A opinião pública, do menininho vendo TV em casa aos árbitros de vídeo vendo TV naquela salinha fechada, estava contra ele.

Isso tudo afetou seu rendimento, o rendimento do time e a sua própria imagem. Neymar virou uma piada. O planeta agora o cita mais como mau ator do que como excepcional jogador de futebol. Que burrice.

Claro que ser marrento, mimado, mal-assessorado, ególatra afunda ainda mais a situação.

Difícil dizer quem pode tirar Neymar desse buraco. O pessoal à sua volta o “protege” tanto que ele continua, aos 26 anos e com um filho no colo, sendo chamado de menino. Seu pai continua fazendo tudo para ele — até mesada o jogador mais caro do mundo ainda recebe. Neymar, uma dica: seu brother Lewis Hamilton estourou de vez na F-1 quando o pai parou de acompanha-lo em todas as corridas, negociar com os empresários, gerenciar sua carreira. Hamilton contratou profissionais para isso e, depois, virou gente grande, esportivamente falando.

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Na Copa, até o Tite e toda a comissão técnica, supostamente tão equilibrada e justa, passaram a mão na cabeça (ora loira, ora não) do “menino”. Ele não deu entrevistas, não deu a cara a tapa, assim como nunca soube nada dos seus contratos nem das suas declarações de renda. Vive numa bolha. As críticas são tão filtradas que viram apenas conspirações de quem tem “inveja” dele. Ei, Ney, críticas também servem para a pessoa melhorar. Se você não as ouve, como vai evoluir?

Mas tudo isso eu sempre perdoei. Porque o cara é o cara. Mas burrice, não dá. Não existe craque burro.

Sócrates, Zico, Falcão, Tostão, Cruyff, Beckenbauer, Zidane: todos superdotados com os pés e com a cabeça. Não peço a Neymar a eloquência, a articulação, o pensamento complexo sobre questões existenciais desses caras. Estou falando daquela inteligência que se manifesta entre o apito inicial e o final do juiz. Aquela que o maior crânio de todos, Pelé, cansou de demonstrar.

Garrincha? Um gênio — de um tipo específico de inteligência, a inteligência corporal. Ele foi capaz de enganar dezenas, centenas de zagueiros ao redor do mundo em frações de segundo. Mais: em 1962, com Pelé machucado, teve a percepção profunda de que deveria mudar seu jogo para ganhar a Copa. Deslocou-se para todos os lados, fez gols de direita, esquerda e até de cabeça. Ganhou a Copa praticamente sozinho. Gênio. Neymar não conseguiu ter esse nível de discernimento.

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Por isso, se eu pudesse furar a bolha e dar um conselho de amigo (ou melhor, de parça) a Neymar, pelo bem dele e de todos nós, torcedores, seria esse: fica esperto, mano.

 

Marcos Abrúcio, autor deste texto, é publicitário e editor do site Copawriters 

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