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A mitologia da testosterona

Discurso sobre masculinidade, saúde e hormônios nas redes vende fantasias perigosas para homens ansiosos.

Por André Bacchi, para a Revista Questão de Ciência
11 fev 2026, 13h07 •
  • O homem medieval sempre teve testosterona acima de 1000, hoje em dia os médicos estão normalizando uma testosterona de 400. É inaceitável um homem ter menos de 1000; Jamais vai ter a fúria nos olhos pra defender uma mulher ou saber se defender”. Já há algum tempo tenho me deparado com comentários como este nas redes sociais.

    A afirmação é absurda em tantos níveis que, por um instante, considerei tratar-se de alguma sátira. Infelizmente, o autor estava falando “sério”. E, até o momento da minha visualização, o comentário havia recebido mais de 200 curtidas, sugerindo que teve repercussão em alguma audiência. O que fez essa declaração chamar minha atenção não foram apenas os múltiplos equívocos factuais (como a impossibilidade de medir níveis hormonais de pessoas mortas há séculos, ou a confusão entre aspectos biológicos e virtudes morais), mas principalmente o que revela sobre uma mitologia contemporânea: a ideia de que a masculinidade, a saúde e até mesmo a moral humana podem ser reduzidas a um número em um exame de sangue.

    Essa obsessão não surgiu do nada. É herdeira de uma longa tradição segundo a qual poderia existir um elixir capaz de restaurar ou aumentar a “essência masculina”.

    Testículos, símbolos e ilusões

    Muito antes de Brown-Séquard injetar extratos testiculares em si mesmo ou de Voronoff enxertar gônadas de primatas em homens ricos, a Humanidade já cultivava a crença de que a virilidade poderia ser transferida por meio do consumo ou incorporação de órgãos sexuais. É um exemplo clássico de pensamento por analogia: se os testículos produzem a masculinidade, então consumir testículos deveria amplificar a própria masculinidade.

    Há registros de diversas culturas antigas que atribuíam propriedades afrodisíacas ao consumo de testículos de animais. Na China antiga, testículos de tigre eram considerados estimulantes sexuais, uma crença que persiste até hoje em algumas práticas de medicina tradicional, contribuindo para o tráfico de espécies ameaçadas. Na Roma antiga, gladiadores supostamente consumiam testículos de animais antes do combate, acreditando que isso lhes conferiria força e coragem.

    Não há, contudo, uma base fisiológica adequada para essas crenças. A testosterona é de fato produzida nos testículos, mas os testículos não armazenam o hormônio, que é secretado continuamente na corrente sanguínea. Além disso, qualquer testosterona ingerida por via oral seria metabolizada no fígado antes de exercer efeitos sistêmicos relevantes.

    Ainda assim, a persistência dessas crenças ao longo de milênios ilustra algo importante sobre a a dificuldade de aceitar que características complexas como força, coragem e potência sexual não podem ser reduzidas a um único componente transferível.

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    Do encanto ao charlatanismo

    O século 19 e início do 20 representam um período fascinante e assustador dessa história. Foi nela que pensamento mágico ancestral ganhou uma roupagem pseudocientífica, tornando-se mais perigoso ao conquistar o selo de “aprovação médica”.

    Em 1889, Charles-Édouard Brown-Séquard, um respeitado fisiologista, anunciou à comunidade científica que havia rejuvenescido após injetar em si mesmo extratos de testículos de cães e porquinhos-da-índia. Relatou aumento de vigor físico, melhora na capacidade mental e renovação da função sexual. Análises posteriores mostraram que esses extratos continham apenas traços insignificantes de qualquer substância hormonal ativa. Brown-Séquard havia experimentado o efeito placebo na sua forma mais pura.

    O cirurgião russo Serge Voronoff levou essa tradição a novos patamares de bizarrice. Trabalhando no Egito no início do século 20, Voronoff ficou impressionado com as diferenças físicas que observou em homens eunucos. Sua conclusão foi de que os testículos produzem alguma substância que mantém a juventude e a virilidade. Sendo assim, transplantar testículos deveria restaurar essas qualidades.

    Voronoff começou experimentando com animais, transplantando testículos de carneiros jovens para velhos. Quando declarou sucesso (baseado em critérios que, convenientemente, eram impossíveis de quantificar objetivamente), migrou para humanos. Seu primeiro problema foi logístico: onde conseguir testículos humanos? Tentou, inicialmente, obter gônadas de criminosos executados, mas a demanda superava a oferta. A solução de Voronoff para esse dilema foi criativa: começou a transplantar fatias de testículos de chimpanzés em homens.

    Em 1920, Voronoff realizou seu primeiro transplante símio-humano. Homens ricos e poderosos faziam fila (e pagavam fortunas) para receber fatias de testículos de macaco. Voronoff abriu uma fazenda de primatas na Itália para garantir o suprimento, comprou um castelo, deu palestras para audiências impressionáveis. Em 1923, apresentou seus “resultados” no Congresso Internacional de Cirurgiões em Londres e foi aclamado.

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    É importante notar que os “sucessos” de Voronoff eram baseados em relatos subjetivos de pacientes que pagaram fortunas pelo procedimento e tinham, portanto, todos os incentivos psicológicos para acreditar que aquilo funcionava. Não havia grupo controle, medições objetivas ou acompanhamento sistemático.

    E Voronoff não estava sozinho nesse mercado lucrativo. Nos Estados Unidos, George Frank Lydston havia começado a transplantar testículos de cadáveres humanos já em 1915 (inclusive testando o procedimento em si mesmo, com resultados que ele descreveu como “eufóricos”). Leo Stanley, médico de uma prisão, realizou centenas de transplantes em prisioneiros usando testículos de executados e, quando esses acabavam, de animais. E havia John Brinkley, que, com um diploma médico comprado de uma escola de fachada, realizou mais de 600 transplantes de testículos de cabra antes de ser legalmente impedido.

    A era dos transplantes testiculares terminou abruptamente em meados da década de 1930, quando a testosterona foi isolada e sintetizada. Mas e o pensamento mágico subjacente? Nunca foi embora.

    Panaceia moderna

    Avançamos quase um século, e a obsessão permanece inalterada. A diferença é que agora, em vez de testículos de macaco, temos “protocolos de otimização hormonal”, “terapias de reposição bioidêntica” e uma indústria multibilionária vendendo a mesma fantasia antiga com vocabulário atualizado.

    Basta uma breve incursão pelas redes sociais para encontrar uma avalanche de conteúdo promovendo a testosterona como solução para praticamente todos os males masculinos (e alguns femininos) modernos. Um dos posts que me deparei recentemente afirmava: “Comportamentos típicos de altos níveis de testosterona: Converse com as pessoas como se já as conhecesse; Deixe gorjetas generosas em restaurantes; Faça exercícios e caminhadas; Alimente-se de forma saudável em 90% das vezes; Assuma riscos; Mantenha a calma quando outros entram em pânico; Controle a fome; Sempre faça contato visual; Respire fundo, enchendo os testículos de ar; Ame as mulheres”.

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    Generosidade com gorjetas? A testosterona seria capaz de determinar seus hábitos de gratificação em restaurantes? Ou ser generoso após uma boa refeição é capaz de aumentar a sua testosterona?

    O que vemos aqui é reducionismo biológico levado ao extremo. Traços de caráter distintos são agrupados e correlacionados a “altos níveis de testosterona”. Como se a testosterona fosse um programa completo de personalidade e valores morais, e não um hormônio.

    Outro post listava “10 sinais de que sua testosterona está ALTA” e incluía pérolas como “Calma sob pressão“, “Desejo por confrontos” e “Seus movimentos são mais lentos e firmes“, transmitindo a mensagem de que haveria uma versão “otimizada” de masculinidade a ser perseguida, quantificável por meio de um exame de sangue.

    Essa narrativa torna ainda mais perigosa quando deixa o território pueril dos “coaches de masculinidade” e chega ao campo das recomendações médicas.

    A falácia do colesterol

    Deixando de lado as consequências mais óbvias do uso de hormônios esteroides para fins estéticos e de performance (como supressão testicular, ginecomastia, danos hepáticos, alterações lipídicas, cardiomiopatia e infertilidade, amplamente documentadas na literatura médica), meu enfoque aqui recai sobre uma manifestação aparentemente menos danosa, porém igualmente insidiosa, desse culto hormonal: a promoção de estratégias “naturais” para aumentar testosterona.

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    Nesse sentido, uma das manifestações mais preocupantes é a promoção ativa do consumo excessivo de colesterol e gorduras saturadas, justificada pelo argumento simplista de que o “colesterol é a matéria-prima da testosterona”.

    Posts proliferam com variações da mesma mensagem: “Gorduras saturadas e monoinsaturadas (ovos, carnes, azeite, abacate) aumentam a produção de testosterona ao fornecerem colesterol, que é o precursor direto dos hormônios sexuais“. Outro elabora: “O colesterol desempenha um papel crucial na produção de testosterona. No entanto, o colesterol ainda é considerado o vilão?“.

    Aqui, precisamos fazer uma pausa para analisar essa falácia em suas múltiplas camadas.

    Primeiro, a premissa básica contém uma verdade: sim, a testosterona é sintetizada a partir do colesterol (por isso o nome de hormônio esteroide) através de uma série de reações enzimáticas que ocorrem nos testículos. Mas daí à conclusão de que consumir mais colesterol aumentará seus níveis de testosterona há um abismo lógico.

    O corpo humano é perfeitamente capaz de produzir todo o colesterol necessário para a síntese hormonal. Seu fígado produz aproximadamente 1.000 mg de colesterol por dia (mais do que suficiente para todas as suas necessidades, incluindo a produção de hormônios esteroides). Quando você consome colesterol adicional na dieta, seu corpo não pensa “ótimo, mais matéria-prima para testosterona!”. Em vez disso, simplesmente reduz sua própria produção, para tentar manter o equilíbrio. É um sistema de feedback negativo.

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    Mais importante: o colesterol que você ingere não tem um GPS para suas gônadas. É absorvido no intestino, processado no fígado, empacotado em lipoproteínas (como LDL) e distribuído pelo corpo através da corrente sanguínea. As células de Leydig nos testículos produzem testosterona a partir do colesterol que elas mesmas sintetizam ou que captam de lipoproteínas que não dependem do quanto de colesterol você está ingerindo.

    E aqui chegamos à parte perigosa dessa narrativa: a confusão entre colesterol dietético, LDL sérico e risco cardiovascular. Quando profissionais de saúde falam sobre “colesterol alto” como fator de risco, estão se referindo especificamente a níveis elevados de LDL circulante – a lipoproteína que, em excesso, deposita colesterol nas paredes arteriais, formando placas que podem aumentar o risco de infartos e AVCs.

    Aumentar seu LDL comendo bacon, ovos fritos na banha e outros alimentos ricos em gordura saturada não vai turbinar sua produção de testosterona. O que vai fazer é aumentar o seu risco de doença cardiovascular. Temos evidências sólidas disso: um estudo publicado em 2023 na revista Lipids in Health and Disease analisou dados de 1.996 homens americanos entre 20 e 80 anos e concluiu que não há associação entre consumo dietético de colesterol, ou níveis de colesterol total no sangue, e níveis de testosterona.

    O caso das estatinas

    Essa narrativa falsa sobre colesterol e testosterona tem uma consequência ainda mais sinistra: homens abandonando ou recusando estatinas (medicamentos que salvam vidas) por medo de que reduzam sua testosterona e, por extensão, sua masculinidade.

    A questão sobre se estatinas reduzem testosterona tem sido estudada e a resposta é: se a redução ocorre, é irrelevante. Uma meta-análise publicada em 2013 na BMC Medicine encontrou uma redução minúscula, menor do que as flutuações normais que ocorrem ao longo de um único dia. Uma revisão Cochrane de 2021 sobre atorvastatina não encontrou diferença significativa nos níveis de testosterona entre homens com e sem estatinas.

    Agora, contraste isso com o que as estatinas de fato fazem:

    O estudo 4S (Scandinavian Simvastatin Survival Study), publicado na Lancet em 1994, acompanhou 4.444 pacientes com doença coronariana por uma mediana de 5,4 anos. A sinvastatina reduziu a mortalidade por todas as causas em 30%.

    O WOSCOPS (West of Scotland Coronary Prevention Study), publicado em 1995 no New England Journal of Medicine, demonstrou benefício até em prevenção primária: homens com colesterol alto, mas sem doença cardiovascular prévia, que tomaram pravastatina tiveram redução de 31% no desfecho combinado de morte coronariana ou infarto não fatal.

    A meta-análise do Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration, publicada na Lancet em 2010, sintetizou dados de mais de 170.000 participantes em 26 ensaios randomizados: cada 1,0 mmol/L de redução no LDL resulta em aproximadamente 22% de redução em eventos vasculares maiores.

    Nesse contexto, abandonar o uso de estatinas por medo de “reduzir testosterona” é trocar uma proteção real por uma fantasia sem base.

    Considerações finais

    Voltemos ao comentário inicial sobre o homem medieval com testosterona acima de 1000 que tinha “fúria nos olhos para defender uma mulher”.

    Há algo de triste e melancólico nessa fantasia. Expressa uma ansiedade real sobre a masculinidade contemporânea, uma sensação de que os homens contemporâneos perderam algo, tornaram-se fracos, domesticados, emasculados. Talvez fosse interessante ampliar os espaços de debate sobre essa ansiedade. Mas a “solução” baseada na fantasia da testosterona é simplista e perigosa.

    Mesmo que houvesse correlação entre testosterona e certos comportamentos (e as evidências são muito mais complicadas do que influenciadores de redes sociais sugerem), essa correlação não implicaria que aumentar a testosterona produziria os comportamentos desejados. E, ainda pior, as estratégias sugeridas para promover este “aumento natural” nem sequer funcionam. Ao contrário, essa narrativa pode levar homens a abandonar tratamentos necessários, a fazer escolhas dietéticas prejudiciais, a desenvolver ansiedade ao comparar seus níveis hormonais com padrões arbitrários e a buscar soluções bioquímicas para problemas que são existenciais, psicológicos e sociais.

    A verdadeira “castração” contemporânea não é a diminuição de nanogramas de testosterona por decilitro de sangue, mas a redução da complexidade humana a um biomarcador, como se fôssemos apenas máquinas bioquímicas com características calibradas em laboratório, e não construídas de maneira contextual. A ansiedade em torno do “masculino” não vem dos hormônios, mas da recusa dos homens em lidar com a própria complexidade.

    André Bacchi é professor adjunto de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis. É divulgador científico e autor dos livros “Desafios Toxicológicos: desvendando os casos de óbitos de celebridades” e “50 Casos Clínicos em Farmacologia” (Sanar), “Porque sim não é resposta!” (EdUFABC), “Tarot Cético: Cartomancia Racional” (Clube de Autores) e “Afinal, o que é Ciência?…e o que não é. (Editora Contexto)

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