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Como as astronautas menstruam no espaço?

Se você acha que estar naqueles dias é complicado na Terra, imagine em missões espaciais com meses de duração — e em gravidade zero

Por Helô D'Angelo Atualizado em 16 abr 2018, 13h57 - Publicado em 25 abr 2016, 15h15

Elas estão decolando: em 2015, metade dos astronautas recrutados pela Nasa eram mulheres — o maior número de toda a história da agência, que já colocou em órbita 50 mulheres em 58 anos de existência. Com tantas no espaço, uma pergunta flutua: como lidar com a menstruação em gravidade zero?

Sally Ride, a primeira astronauta mulher dos Estados Unidos, disse que menstruar no espaço é seguro e funciona igualzinho à Terra, só que um pouco mais bagunçado. Ela e outras mulheres provaram que o ciclo menstrual não é alterado, e que não há perigo, por exemplo, de o sangue ficar retido no útero e causar infecções, como era o medo dos médicos até pouco tempo atrás. O problema, na verdade, é outro: a praticidade e a logística da coisa. Sally conta que, em suas primeiras missões, os engenheiros não faziam ideia de quantos absorventes colocar na nave: “Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Queriam mandar 100 absorventes para uma semana de missão, sendo que eu usaria, no máximo, uns 20”, conta ela em um diário de bordo publicado pela Nasa.

  • Sendo um desafio até hoje, a menstruação espacial foi tema de um estudo das Universidades de Baylor e King’s, na Inglaterra, no qual os cientistas levantam as várias dificuldades enfrentadas pelas astronautas. Para começar, os dispositivos que captam a urina nas naves não foram projetados para receber sangue menstrual, que é bem mais denso e pesado— então, fazer xixi no espaço é bastante complicado para quem está naqueles dias.

    Além disso, manter a higiene pessoal das mulheres neste período é praticamente impossível: não há água em abundância a bordo e, durante a troca de absorventes, o sangue se espalha no ar, flutua e faz uma bagunça sangrenta. Sem falar no descarte de lixo, que teria de ser adaptado para os absorventes usados, e em todo o peso extra gerado pelos tampões, pelas embalagens e pela água extra que seria levada para o espaço nesse caso.

    Menstruar em gravidade zero, então, não é uma opção muito prática. Por isso, a recomendação da Nasa é que as mulheres utilizem métodos hormonais para interromper este processo biológico enquanto estiverem em uma missão espacial. Embora a decisão pessoal das astronautas seja sempre respeitada, todas as 50 mulheres que já entraram em órbita até então preferiram a interrupção — inclusive Sally Ride, que escolheu não repetir a experiência.

  • Mesmo sendo a decisão mais prática, interromper a menstruação não é nada simples — e, a longo prazo, pode ter impactos na saúde da mulher. Por exemplo: o método mais usado pelas astronautas atualmente é usar pílulas anticoncepcionais sem pausa, mas alguns médicos têm defendido que os comprimidos aumentam o risco de trombose e que a pílula afeta o cérebro. Os médicos que escreveram o artigo sobre a menstruação espacial também destacam a radiação do espaço como um possível risco à saúde de mulheres que tomam anticoncepcionais — mas, dado o pequeno número de astronautas femininas que passaram mais de três meses no espaço, os estudos ainda são inconclusivos.

    Então, como driblar o problema? É mesmo difícil: a injeção hormonal, que pode ser tomada a cada três meses e tem o mesmo efeito da pílula, pode prejudicar a densidade mineral nos ossos, o que é terrível para quem, como os astronautas, precisa estar em constante movimento. Implantes hormonais subcutâneos e dispositivos intrauterinos hormonais (DIU mirena) também são opções, mas ninguém tem certeza dos efeitos desses dois no espaço, especialmente sob radiação e em gravidade zero. Como eles são feitos de metal, também não se sabe se eles deformariam com a mudança gravitacional, machucando as mulheres, ou se teriam algum efeito no traje ou na própria nave.

    Por enquanto, as astronautas vão continuar interrompendo a menstruação usando a pílula anticoncepcional, exatamente como muitas das mulheres aqui na Terra. Mas a ideia é que estudos como este ajudem a trazer novas soluções para um problema prático — e que criem novos métodos anticoncepcionais para quem fica por aqui também.

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