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Demita seu médico

A ciência descobre que ter saúde é simples erequer pouco esforço. Conheça os truques que garantem uma vida longe das doenças.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h37 - Publicado em 31 out 2002, 22h00

Rafael Kenski

A medicina passou por uma grande revolução na última década. Enquanto o Projeto Genoma, as invenções do Prozac e do Viagra e os transplantes milagrosos preenchiam as manchetes, descobertas simples e de grande impacto transformavam a maneira como os médicos tratavam os problemas de saúde e tentavam evitá-los. Foi preciso que surgissem medicamentos para alguns dos males que mais atacam a humanidade – hipertensão, derrame, diabete, depressão – para perceber que esses problemas podem ser curados antes mesmo que apareçam, e sem precisar de remédio nenhum. “Até então, os médicos esperavam a doença surgir para depois medicá-la. Hoje, os profissionais de saúde estão mais preocupados em promover saúde que em eliminar a doença”, afirma o médico Victor Matsudo, do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), em São Paulo.

O que causou essa mudança? “Foi uma evolução natural da medicina”, diz Michael Pratt, chefe da divisão de atividade física e nutrição do Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos. As doenças que mais preocupavam há 100 anos eram infecções como poliomielite, tétano ou sarampo e foram drasticamente reduzidas com a utilização de vacinas e antibióticos. Por outro lado, doenças decorrentes do estilo de vida atual subiram ao topo do ranking entre os agentes que mais matam, não importa a origem ou a classe social.

“Descobrimos que prevenir as doenças crônicas é muito mais fácil do que imaginávamos”, afirma Pratt. Não é preciso ser nutricionista para ter uma alimentação adequada, nem esportista profissional para ter boa aptidão física. Na verdade, os melhores resultados requerem muito pouco esforço e precisam apenas de medidas que faziam parte do nosso dia-a-dia há algumas décadas, mas que o estilo de vida na sociedade pós-industrial tratou de eliminar. Ao mesmo tempo, a importância da ingestão de remédios está sendo revista. Percebeu-se que utilizar medicamentos, em muitos casos, faz mais mal do que bem.

Nas páginas a seguir você verá qual é esse novo retrato da medicina. Se tudo der certo, é possível que os remédios e curas espetaculares que aparecerão nas próximas décadas não impressionem mais ninguém. O que chamará atenção é o fato de alguém ficar doente.

Remédios – Esqueça a farmácia

O maior difusor dos remédios até hoje, considerado o criador da farmacologia, foi Paracelso, um suíço que viveu no século XVI e que, quase sem nenhum treinamento formal, afirmou que as doenças eram desequilíbrios químicos que com substâncias químicas deveriam ser tratados. Ele defendia que a única forma de descobrir o tratamento correto era pela experimentação. Com esses métodos, aplicava compostos à base de ferro para curar anemias e utilizava soluções de mercúrio como terapia para sífilis. Nos séculos seguintes, cientistas conseguiram, com práticas semelhantes, elaborar uma lista de milhares de compostos capazes de interferir nos mais diversos males.

Apesar da evolução dos medicamentos, existe um outro lado das lições de Paracelso que tem ganhado cada vez mais importância. Ele dizia que a diferença entre um remédio e um veneno é a quantidade que se toma. Pesquisas recentes mostraram o quanto ele estava certo. Descobriu-se, por exemplo, que nosso corpo é muito sensível a alguns metais. Sabe-se agora que o limite de chumbo que uma pessoa pode carregar no corpo humano é quatro vezes menor do que se acreditava há 20 anos. Uma reavaliação drástica ocorreu também com o mercúrio, o que levou à retirada das farmácias de curativos como o Merthiolate e de outros remédios que eram administrados sem critério a crianças até há bem pouco tempo. As descobertas também levaram a uma maior preocupação com a poluição ambiental, uma vez que a absorção desses componentes maléficos ocorre muitas vezes por água contaminada.

Da mesma forma, ficaram cada vez mais claras as conseqüências do uso incorreto de remédios. Uma pesquisa realizada na Universidade do Texas no ano passado com 307 pessoas com danos graves no fígado mostrou que 35% dos casos estavam associados ao uso excessivo de paracetamol, o princípio ativo de analgésicos como o Tylenol.

Os médicos sempre souberam que essa substância libera subprodutos tóxicos que devem ser metabolizados pelo fígado e que, se ingerida em excesso, pode danificar o órgão. O que surpreendeu foi a quantidade de pessoas que a ingeriam sem controle. “Não há remédio que possa ser tomado em grandes doses. Cada um tem seu efeito tóxico”, afirma o clínico geral Flávio Dantas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Analgésicos e antiinflamatórios, tomados em excesso, causam danos renais. Tranqüilizantes, por sua vez, podem gerar dependência.

O uso indiscriminado de medicamentos pode causar danos tão graves quanto os males que eles deveriam prevenir. “Proteger demais o organismo pode desequilibrá-lo”, diz Flávio. Sabe-se, por exemplo, que o uso de antibióticos para tratar infecções durante os primeiros seis meses de vida aumenta a probabilidade de asmas e alergias. Há também evidências de que indivíduos que crescem em ambientes excessivamente higienizados e com pouco contato com outras pessoas têm maior probabilidade de ter asma, diabete tipo 1 e esclerose múltipla.

O que fazer

Usar o mínimo de remédios necessário. “Quanto menos medicamentos tomarmos, melhores serão as implicações para a saúde”, afirma o toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Essa receita vale até para os suplementos vitamínicos. As substâncias que eles contêm são sem dúvida úteis para prevenir centenas de doenças, mas não há comprovação de que uma dose extra seja necessária. “Uma dieta normal é suficiente para suprir todas as necessidades diárias de vitamina”, diz Anthony. Existem pesquisas que indicam que essas pastilhas suprem algumas deficiências e diminuem o risco de doenças cardíacas, mas, do outro lado, estudos apontam que o excesso de vitaminas pode levar a males que variam da anemia até a danificação de genes. Na maioria dos casos, tudo o que os suplementos fazem é encarecer a urina: o rim filtra as substâncias que sobram e as elimina.

“Remédios só devem ser receitados por médicos”, afirma Flávio Dantas. Mesmo assim, deve-se evitar um número enorme de medicamentos. “O médico deve dar chance para a pessoa resolver o próprio problema. Há pacientes que chegam tomando 20 ou 30 pílulas e saem com duas ou três, que resolvem o essencial”, diz Antonio Carlos Lopes, chefe da disciplina de clínica médica da Unifesp. O importante é prestar atenção ao que acontece com seu corpo e não superprotegê-lo. Perceba quais sintomas são normais e procure um médico se sentir uma dor diferente, com duração ou intensidade maiores.

Continua valendo a orientação de check-ups anuais para mulheres acima de 45 anos e homens acima de 40 anos. O que mudou foi a importância que a família tem nessa questão. “A avaliação e a abordagem das doenças mudam de acordo com o histórico de cada um”, afirma Antonio Lopes. Se a família possui uma tradição de problemas como colesterol alto ou alguns tipos de câncer, os testes devem ser feitos ainda antes. A medicina já evoluiu a ponto de ver diretamente no código genético a propensão a determinadas moléstias. “Já foram identificados os genes responsáveis por mais de mil doenças, como cânceres, males neurológicos e psiquiátricos”, afirma a geneticista Cassandra Corvello, coordenadora do centro de genética molecular do laboratório Fleury, em São Paulo.

Existem testes – que ainda custam milhares de reais – que identificam muitos desses males e, dentro de alguns anos, é possível que a lista de doenças com um diagnóstico genético inclua também diabete, problemas cardíacos, mal de Alzheimer, esquizofrenia e depressão. “O teste apenas indica um fator que aumenta certos riscos. O desenvolvimento da doença depende de como a pessoa se comporta ao longo da vida”, diz Cassandra Corvello.

E se nada disso funcionar?

O que fazer com aquela dor de cabeça, insônia ou cólica que aparece todo mês e incomoda, mas não justifica uma ida ao médico ou ao hospital? Para os clínicos, casos como esses são suficientes para que se tome um remédio conhecido – e de venda livre – que resolva o problema, com o cuidado de ler a bula e verificar a freqüência com que ele deve ser ingerido. “A automedicação funciona para problemas crônicos simples, mas deve ser feita de forma consciente, depois que o paciente foi informado que aquela é a solução para seu problema”, diz Flávio Dantas. É evidente que remédios com tarja vermelha só devem ser administrados com orientação profissional.

É recomendável, no entanto, buscar outras soluções. “Às vezes, os remédios só disfarçam os sintomas. Uma água de coco ou uma laranja podem bastar para resolver o problema”, diz Antonio Lopes. A receita varia de acordo com o mal. “Para insônia, por exemplo, o melhor remédio é meditação”, diz Anthony Wong.

Futuro – Um comprimido com o seu nome

A indústria farmacêutica está tentando transformar três dos acontecimentos mais marcantes da última década – a proliferação do vírus da Aids, o mapeamento do genoma humano e o desenvolvimento da informática – em ótimas notícias para os pacientes. A tentativa de eliminar o HIV deu aos cientistas informações detalhadas sobre como funciona o sistema imunológico e novas perspectivas de vacinas. Com isso, é possível que nas próximas décadas surjam formas de se imunizar contra o vírus ebola, a tuberculose, a malária, tumores, alguns tipos de câncer e até doenças cardíacas (o acúmulo de colesterol nas artérias pode ter origem em uma inflamação causada por bactérias).

Já existem empresas que mapeiam o genoma de qualquer pessoa por algumas centenas de milhares de dólares. Quando o método baratear, será possível obter o perfil genético não só de cada paciente como também do vírus ou bactéria que o infectou. “Os medicamentos de hoje são um sucesso para alguns pacientes e um fracasso para outros. No futuro, eles serão projetados de acordo com o perfil do paciente”, diz o clínico geral Antonio Lopes, da Unifesp.

Na hora de ministrar os remédios, chips microscópicos implantados no organismo poderão distribuir os medicamentos na hora, na dose e no local exato em que sejam necessários. Já existem vários protótipos em teste, mas ainda há dificuldades a serem superadas, como a garantia de que eles funcionarão sempre e não serão rejeitados pelo organismo.

Nutrição – Comer bem como antigamente

O Brasil está se tornando muito semelhante aos países desenvolvidos, não na distribuição de renda ou nos serviços sociais, mas nos hábitos alimentares. Além de beliscar salgadinhos diante da televisão e almoçar fora de casa, o brasileiro mudou sua dieta – e para pior. O tradicional prato feito de 10 ou 20 anos atrás – arroz, feijão, carne, ovo e verduras – deu lugar a variações menos saudáveis, como salgadinhos, tortas, biscoitos, frituras, empanados e sanduíches. “As porções de produtos com muita gordura ou açúcar também aumentaram”, afirma a nutricionista Ana Maria Lottemberg, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O saquinho de pipoca da porta do cinema se transformou em um enorme balde e as garrafas de refrigerante dobraram de tamanho. Em São Paulo, por exemplo, a dieta da população é composta de cerca de 40% de gorduras, uma taxa semelhante à dos Estados Unidos e muito acima da recomendada.

“O brasileiro trocou o arroz e feijão – que equilibra as proteínas de origem vegetal e é uma boa fonte de fibras, ferro, minerais e outros nutrientes – por carboidratos simples e gorduras”, afirma a engenheira agrônoma Elizabeth Torres, da Universidade de São Paulo (USP). A troca faz sentido sob o ponto de vista do prazer da refeição: gorduras são mais gostosas e melhoram a textura dos alimentos. O problema é que, assim como as comidas, a barriga do brasileiro também ficou mais adiposa.

“Estamos em uma fase de transição da desnutrição para a obesidade”, afirma Ana Maria Lottemberg. Cerca de 23% das mulheres e 17% dos homens brasileiros já são considerados obesos, e esses índices crescem rapidamente, acompanhando uma tendência internacional. “A obesidade é uma epidemia mundial. Assim como os ricos, há uma enorme massa urbana pobre nos países em desenvolvimento que é obesa”, diz Michael Pratt, do CDC.

Junto com o peso, aumentou a incidência de doenças como hipertensão arterial, excesso de colesterol e diabetes. O que caiu foi o astral dos que se enquadram nesses problemas. Está cada vez mais clara a relação entre obesidade e problemas psicológicos, especialmente em menores de idade. Uma pesquisa realizada esse ano na Unifesp mostrou que 80% dos jovens acima do peso apresentavam sintomas de depressão, contra 21,7% daqueles que tinham o peso normal. “Crianças obesas têm mais vergonha de si mesmas e estão mais sujeitas a gozações por parte de seus colegas. A conseqüência é que elas tendem a se isolar socialmente”, afirma o pediatra Oded Bar-Or, da Universidade de McMaster, no Canadá, considerado um dos maiores especialistas mundiais em atividade física para adolescentes.

O que fazer

Um bom passo é tentar voltar à dieta brasileira tradicional. Se você já esqueceu o que comíamos há duas décadas (ou não consegue mais viver sem biscoitos recheados e nuggets crocantes), equilibre suas refeições da seguinte forma: 55% de carboidratos, 30% de gorduras e 15% de proteínas. “A melhor dieta é a variada, com alimentos de todos os grupos”, diz Elizabeth Torres. Como regra geral, as substâncias vegetais que trazem benefícios à saúde são as mesmas que dão cor aos alimentos, então deixe seu prato tão colorido quanto um destaque de carro alegórico. Tente também diminuir o intervalo entre as refeições. Ao menos em teoria, essa medida faz você comer menos. Outra dica é antecipar as refeições – o organismo gasta menos energia à noite e a acumula na forma de gordura. “O ideal é ter café da manhã de rei, almoço de príncipe e jantar de plebeu”, diz Elizabeth Torres.

A pior heresia alimentar é comer e ver TV ao mesmo tempo. “Pessoas diante da televisão não percebem o que estão comendo e ficam espantadas quando informamos o quanto de alimento elas ingeriram enquanto viam os programas”, afirma Oded Bar-Or. Além de distrair o espectador, a televisão estimula a ingestão dos alimentos errados. Uma pesquisa realizada na USP em setembro mostrou que 25% dos comerciais televisionados eram de produtos alimentícios e, dentre as comidas que eles promoviam, 57% tinham altos teores de gordura ou açúcar. O mal à saúde que esses anúncios causam fez a União Européia estudar restrições – semelhantes às impostas aos cigarros – a propagandas de bebidas açucaradas e de fast-foods dirigidas a crianças.

E se nada disso funcionar?

Apesar de não ser tão difícil manter uma dieta saudável, a correria das cidades nem sempre permite equilibrar os alimentos da forma correta.

A ótima notícia é que explodiram em todo o mundo pesquisas que afirmam que certos alimentos, além dos nutrientes, possuem substâncias especiais capazes de prevenir doenças e melhorar a saúde. Não são capazes de evitar doenças quando elas já se manifestaram, mas se tomadas na dose certa diminuem bastante a chance de que elas apareçam. Veja abaixo alguns desses alimentos:

Tomate – contém licopeno, um poderoso antioxidante que ajuda a combater cânceres como o da próstata. Outra boa fonte desse composto é a melancia.

Óleo de canola – rico em ômega 3, um tipo de gordura que ajuda na coagulação, evita trombose e reduz moderadamente os triglicérides. A substância é também encontrada em peixes de água fria, como o salmão.

Castanha-do-pará – é um dos alimentos mais ricos em selênio, que reduz o risco de cânceres como o do pulmão e o da próstata.

Brócolis – assim como a couve e o repolho, possui um grande estoque de fitoquímicos capazes de diminuir o risco de câncer de cólon e de mama.

Cenoura – contém betacaroteno, que retarda o envelhecimento da pele e reduz o risco de câncer.

Cereais – são riquíssimos em fibras, que melhoram o trânsito intestinal e regulam o colesterol e a glicose, além de dar a impressão de saciedade.

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O essencial é conhecer cada comida e investir naquelas que previnem as doenças que mais atacam na sua família. É preciso, no entanto, ter em mente que nenhuma delas garante sozinha uma boa alimentação. “Não existem alimentos milagrosos. Uma dieta balanceada garante mais benefícios do que qualquer um desses ingredientes”, diz Ana Maria Lottemberg. Além disso, muitos desses alimentos têm gorduras que, em excesso, fazem mais mal do que bem.

Futuro – A pílula antigordura

Um dos sonhos dos cientistas é conseguir fazer com a comida o que os anticoncepcionais fizeram com o sexo: separar o prazer de suas conseqüências biológicas. O objetivo é encontrar compostos capazes de transformar em calor a energia extra adquirida na alimentação e evitar que ela se acumule no organismo. Já foram identificadas algumas substâncias químicas com características promissoras, mas quase todas com graves efeitos colaterais ou impossíveis de serem utilizadas em remédios. Existem, no entanto, alguns medicamentos em teste e não é impossível que essa pílula surja nas próximas décadas. Não saia correndo para o rodízio: mesmo que isso aconteça, ela ficará restrita ao tratamento de obesos mórbidos até que prove ser 100% segura para ser utilizada por qualquer pessoa.

Exercícios – Saúde em atividade mínima

Você faz há 20 anos o mesmo exercício para a melhorar a saúde? Continue fazendo, mas esqueça tudo o que lhe ensinaram naquela época sobre atividade física. Pesquisas feitas nos últimos dez anos revolucionaram todos os conceitos que ligavam os esportes à saúde e trouxeram boas e más notícias. A má é que as doenças causadas pela falta de exercícios são mais graves e mais disseminadas do que imaginávamos. A boa é que preveni-las é extremamente fácil.

Só em 1992, a Organização Mundial de Saúde reconheceu o sedentarismo como um mal em si. Até então, ele era apenas um fator que contribuía para doenças como obesidade, diabete, colesterol alto e hipertensão. Quando a falta de exercício físico foi analisada de forma independente, percebeu-se que ela figurava entre os piores flagelos da humanidade. Um estudo coordenado por Michael Pratt mostrou que as doenças causadas pelo sedentarismo consomem por ano 76 bilhões de dólares, o equivalente a 70% dos gastos hospitalares mundiais. “O prejuízo que a falta de atividade física traz para o Brasil é semelhante ao encontrado nos países desenvolvidos”, diz Pratt.

Em 1995, um estudo feito com mais de 20 mil pessoas mostrou que um obeso que faz exercícios tem uma expectativa de vida maior do que um sedentário com o peso correto. Em seguida, cientistas mostraram que indivíduos com problema de excesso de colesterol, com diabete ou com hipertensão que são ativos morrem menos do que sedentários que não possuem nenhum desses males. O sedentarismo só não mata mais do que o cigarro – quem fuma, mas se exercita, tem a mesma chance de ter doenças crônicas que um não-fumante que fica parado dentro de casa. “A diferença é que o número de pessoas que não fazem atividade física é muito maior que o de fumantes, o que torna o sedentarismo a maior epidemia do mundo”, afirma Victor Matsudo, do Celafiscs.

A lista de enfermidades causadas pela simples preguiça de se movimentar inclui ainda derrames, câncer de cólon, fraturas e artrites. Há também o perigo de doenças mentais. “Além de causar depressão, descobriu-se que o sedentarismo aumenta a probabilidade de a pessoa cometer suicídio”, diz Victor Matsudo.

O que fazer

A descoberta dos malefícios da falta de exercício fez os cientistas esquecerem a idéia de preparo físico e a busca por melhores desempenhos e se perguntarem simplesmente o que é preciso fazer para evitar doenças. A resposta foi surpreendente: bastam 30 minutos de atividade física por dia, cinco vezes por semana. A intensidade não importa. Vale qualquer exercício capaz de fazer o seu metabolismo funcionar mais rápido do que em uma situação de descanso, desde caminhar e jogar futebol até lavar janelas e subir escadas. Fazer sexo também entra na lista.

Essa descoberta já foi o suficiente para aposentar os princípios da “educação física verde-oliva” – a idéia de que exercício bom era aquele que levava o corpo ao limite, tal como a preparação de soldados para a guerra – e diminuir a importância daqueles exercícios sérios e calculados dos anos 70 que deram origem às academias, bicicletas ergométricas e esteiras. O golpe final veio quando se percebeu que os 30 minutos de atividade diária poderiam ser divididos em três sessões de dez minutos, com resultados praticamente iguais. Ou seja, caminhar até a padaria de manhã, até o restaurante na hora do almoço e descer um ponto de ônibus antes ao voltar para casa garantem a saúde de qualquer um. Não é mais preciso pagar academias nem ter um planejamento detalhado de atividades físicas.

Quem optar por exercícios sérios, no entanto, só tem a ganhar. Meia hora de atividade física por dia é o limite a partir do qual surgem os benefícios à saúde, mas quem prolongar ou aumentar a intensidade dos esforços terá mais vantagens. O único problema é que exercícios intensos aumentam a pressão sobre músculos e ossos e podem levar a lesões que afastam a pessoa da atividade física. “Muitas vezes, o benefício à saúde de um treinamento de alta performance é nulo. O atleta ganha preparo físico no mesmo ritmo em que sofre lesões que o paralisam”, diz Victor Matsudo. Como a questão essencial é praticar exercícios de forma constante, atividades intensas nem sempre são uma boa opção. “O importante é fazer atividades físicas com regularidade, não com seriedade”, diz o epidemiologista Adrian Bauman, da Universidade de New South Wales, na Austrália.

E se nada disso funcionar?

Não é preciso muito exercício para ganhar saúde. Mesmo assim, a maioria das pessoas não é suficientemente ativa – só em São Paulo, os sedentários correspondem a 46% da população. Agora, o grande desafio dos médicos é encontrar argumentos para fazer o povo se mexer. Algumas idéias já foram comprovadas.

Em primeiro lugar, caminhe em vez de usar o carro. Em segundo, brinque mais com seus filhos. Além de se exercitar, você estará contribuindo para que eles também não se tornem sedentários (pais pouco ativos têm maior probabilidade de ter filhos obesos). “Crianças têm um instinto natural para o movimento. É só retirá-las da frente da televisão que elas começam a se movimentar e mudar rapidamente de atividade, o que para elas é o melhor tipo de exercício possível”, afirma Oded Bar-Or (se você é daqueles pais que colocam os filhos diante da tela exatamente para eles ficarem quietos, pense de novo).

Passeie com o cachorro. “A presença de um cão na família aumenta em mais de 15% o tempo que ela dedica às atividades físicas”, afirma Adrian Bauman. Só ter o animal, no entanto, não adianta muito se ele não for levado para a rua. Segundo cálculos de Bauman, 9% das doenças cardíacas na Austrália poderiam ser evitadas se todos os donos de cachorros passeassem com seus animais.

Há como se exercitar mesmo onde não há nenhuma área verde. Em regiões de Hong Kong que possuem esse problema, uma campanha obteve sucesso estimulando os idosos a praticar caminhadas nos gigantescos shoppings da cidade. “A vida urbana tirou a atividade física da nossa realidade. Precisamos trazê-la de volta”, diz Bauman. “No Brasil, vi pessoas dançando no ponto de ônibus enquanto esperavam. Em termos de saúde pública, isso é fantástico.”

Futuro – Esporte a toda hora

É possível que, dentro de alguns anos, a atividade física seja apenas uma questão de estilo de vida. Uma pesquisa realizada no Instituto Cooper, em Dallas, Estados Unidos, comparou dois grupos: um fazia atividades físicas de forma organizada, em equipamentos de academias, e outro praticava o mesmo tempo de exercício, mas informalmente, em blocos que variavam entre três e dez minutos. Os dois grupos melhoraram a pressão arterial, a tolerância à glicose e a taxa de gordura de forma idêntica. A única diferença ficou por conta da potência aeróbica, um pouco superior para os adeptos do exercício organizado. “Esses resultados ainda não são conclusivos, mas indicam que pequenos exercícios praticados ao longo do dia trazem quase os mesmos benefícios à saúde que séries mais longas”, afirma Victor Matsudo.

Se a descoberta for confirmada, ela mostrará que usar a escada em vez do elevador, esperar em pé no aeroporto ou estacionar o carro longe da entrada do shopping center podem trazer tantos benefícios quanto a malhação diária na academia.

Atitude – Pense bem

O que é saúde? “É o completo bem -estar físico, mental e social”, afirma Antonio Carlos Lopes, da Unifesp. “Então, por definição, quem ganha salário mínimo não tem saúde”, diz. Para a medicina de hoje, o estilo de vida, o trabalho, a família e a vizinhança são tão importantes quanto o funcionamento de órgãos e hormônios. Principalmente porque cada vez mais se percebe como esses fatores estão interligados.

Por trás da relação entre saúde e comportamento está a forma como lidamos com agentes estressantes. Eles são qualquer estímulo – como uma diminuição de temperatura ou um arranhão na perna – que force o nosso corpo a ter uma reação. Para responder a eles, o organismo libera dois tipos de hormônios. Os primeiros são adrenalina e noradrenalina, que estimulam o sistema cardiovascular e aumentam a pressão arterial. Os segundos são os corticóides, que possuem diversas funções no corpo, entre elas a de evitar inflamações.

O problema é que algumas situações do nosso dia-a-dia – como a falta de dinheiro, uma briga, uma prova ou uma reunião – são às vezes interpretadas como uma ameaça e desencadeiam os mesmos mecanismos. Para piorar, podem se estender durante meses e manter o corpo em constante estado de alerta. Os estragos são grandes. O excesso de adrenalina e noradrenalina faz o corpo funcionar em alta rotação e pode levar à hipertensão e a problemas vasculares. O excesso de corticóides, por sua vez, destrói células do cérebro (em especial do hipocampo, a região associada à formação de memória) e enfraquece o sistema imunológico, reduzindo a resistência a infecções.

“O estresse constante aumenta a probabilidade de problemas crônicos e infecciosos”, diz o psicobiólogo José Roberto Leite, da Unifesp. Na maioria das vezes, os estímulos emocionais, mais do que as pressões objetivas do dia-a-dia, são os responsáveis pelos problemas de saúde. “Um chefe arbitrário é mais perigoso do que uma navalha na mão de uma criança”, diz Antonio Carlos Lopes.

O que fazer

O problema do estresse psicológico é que uma emoção negativa gera no cérebro uma resposta distorcida. A solução, portanto, é mudar a forma de interpretar as adversidades. “Quando você percebe que o problema não é tão ruim, ele deixa de ser estressante”, diz José Roberto. Preocupado com a violência urbana? Tente analisar quais são as chances de você ser assaltado. Acha que sua vida é uma porcaria? Defina o que a faz tão ruim e compare com a situação de outras pessoas – salvo raras exceções, os outros terão dilemas semelhantes. “O essencial é racionalizar a preocupação e se concentrar apenas nos problemas que valem a pena”, diz José Roberto Leite. “Na hora de agir, estabeleça metas, evite exageros e planeje com cuidado o que fazer.”

Como pouquíssimas pessoas têm disciplina para levar uma vida extremamente regrada, uma boa dica é aumentar ao máximo o nível de felicidade na sua vida. Dessa forma, você conseguirá encaixar sem dificuldade hábitos saudáveis em suas atividades diárias e evitar atitudes extremas. Conciliar trabalho com lazer, família e hobbies é a melhor forma de evitar que seu corpo fique sobrecarregado de hormônios decorrentes do estresse.

Pequenos ajustes no dia-a-dia também trazem benefícios extras. Tente, por exemplo, manter uma postura correta. Além disso, respire mais pelo diafragma, logo acima da barriga, do que pelo tórax. “A respiração torácica é muito rápida e não elimina corretamente o gás carbônico”, diz Flávio Dantas.

E se nada disso funcionar?

Se toda a análise e planejamento do mundo não foram suficientes para eliminar o estresse, talvez seja hora de tomar atitudes mais drásticas. “Para todo problema existe um elenco enorme de opções; a questão é escolher qual. Se o ambiente de trabalho é ruim, analise se a melhor opção é agüentar quieto ou simplesmente ir embora dali”, diz Flávio Dantas. Da mesma forma, perceba se a relação com seus amigos é saudável e até se o lugar onde mora permite que você faça exercícios e tenha um bom contato com outras pessoas.

Quando todo o resto falhar, há a opção de rezar. “Estudos mostram que só o fato de se concentrar para orar, não importa para qual religião, melhora a saúde”, afirma José Roberto Leite. O mecanismo ainda é desconhecido – rezar pode dar uma linha de conduta ou ser só um placebo. Mas, ao que indicam as pesquisas, ajuda.

Enfim, ter uma vida longa e saudável é mais fácil e barato do que se costuma acreditar. Você não precisa abandonar todos os prazeres nem mudar radicalmente o seu jeito de ser para ganhar alguns anos a mais de vida. E, uma vez que as atividades saudáveis comecem a mostrar seus benefícios – mais disposição, mais preparo físico e uma melhor auto-imagem –, mais estímulos você terá para seguir em frente. Um brinde à saúde – à sua!

Futuro – Mil e um benefícios

A tentativa de prevenir doenças está ampliando o campo de ação dos médicos. “Há um enorme potencial para que a medicina entre em sinergia com outras ciências, como o urbanismo, a sociologia, as políticas públicas e a indústria tecnológica”, afirma Michael Pratt. Um lugar bom para fazer exercícios, por exemplo, é uma área limpa e segura onde crianças brinquem e adultos possam conversar e montar uma comunidade. “Já existem movimentos políticos que tentam melhorar o ambiente não só por uma questão de conforto e prazer, mas sim para evitar doenças”, diz Pratt. A conclusão a que se chega é que promover saúde traz mais benefícios do que um corpo mais saudável. Ela também estimula a diminuição da criminalidade e da poluição (afinal, as pessoas fazem mais coisas a pé), além de gerar mais contato social e até envolvimento político.

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