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Por que a eficácia da vacina de Oxford varia?

A eficácia média anunciada foi de 70%, mas o número varia entre 62% e 90% dependendo de como as doses são administradas. Entenda.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 23 nov 2020, 20h35 - Publicado em 23 nov 2020, 20h27

A Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca anunciaram nesta segunda-feira (23) que sua candidata a vacina contra a Covid-19 é eficaz em prevenir a doença e oferece um nível de proteção robusto, segundo dados preliminares da terceira fase de testes. Com isso, a ChAdOx1 nCoV-2019, como é chamada, se torna a terceira vacina promissora a ter bons resultados de eficácia, após as desenvolvidas pelas empresas americanas Pfizer e Moderna.

O anúncio da Oxford veio acompanhado de algumas dúvidas quanto aos números divulgados. A eficácia média da vacina anunciada foi de 70,4% – um valor menor do que os imunizantes da Moderna e da Pfizer, que ultrapassam os 90%. Mas o número é apenas uma média: foram testados dois regimes de aplicação da vacina, com doses diferentes. Quando os voluntários receberam duas doses completas da vacina, com um intervalo de um mês, a eficácia foi de apenas 62%. Já no grupo em que as pessoas receberam primeiro uma meia-dose e depois uma dose completa, no mesmo intervalo de tempo, a eficácia aumentou para 90%.

Na prática, isso significa que uma pessoa que recebeu a vacina tem 62% ou 90% menos chance de desenvolver Covid-19, dependendo do regime de aplicação escolhido. A porcentagem é calculada em relação a uma pessoa que não foi vacinada – ou seja, que recebeu um placebo no estudo.

Esses números foram calculados com base em dois grupos: um com 8.895 pessoas que receberam as duas doses completas, e outro com 2.741 que receberam metade de uma dose seguida de uma dose completa. No total, 11.636 voluntários foram considerados, em testes que estão sendo feitos tanto no Brasil como no Reino Unido.

Os resultados não foram publicados em detalhes ou revisados por outros cientistas – tudo o que se sabe foi divulgado em um comunicado da Universidade de Oxford –, e por isso ainda há várias dúvidas sobre os testes, apesar do otimismo com seus resultados. Uma delas é: por que a aplicação de meia dose seguida de uma dose completa foi mais eficaz do que as duas doses completas? Afinal, é contraintuitivo pensar que uma menor quantidade de vacina tenha um resultado melhor.

Sem dados completos divulgados, não há como responder definitivamente a pergunta. O próprio líder líder do Grupo de Vacinas de Oxford e chefe dos estudos, o cientista Andrew Pollard, disse em entrevista à rede britânica BBC que esse resultado é “intrigante” e que precisa ser melhor investigado.

Uma das razões por trás disso pode ter sido uma anomalia estatística: o número de pessoas que recebeu as duas doses completas é três vezes maior do que o grupo de recebeu uma dose e meia. É possível que, com a adição de mais dados de voluntários (algo que a Oxford disse que fará em breve, já que há muitos outros voluntários dos testes pelo mundo), essa distorção seja corrigida.

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Mas a diferença considerável de eficácia entre um método e outro diminui a possibilidade de ser um mero efeito estatístico – é provável que exista um mecanismo biológico por trás. Nesse caso, vários cientistas lembraram que o resultado pode ter a ver com a técnica utilizada para a produção da vacina, os vetores virais.

A vacina de Oxford é feita utilizando um adenovírus isolado de chimpanzés. Em humanos, esse vírus é capaz de causar o resfriado comum, mas, para a produção da vacina, ele foi modificado a fim de não causar nenhum tipo de doença. Além disso, o vírus também é modificado para conter proteínas específicas do SARS-CoV-2, causador da Covid-19. Com isso, quando esse adenovírus modificado entra no corpo, nosso sistema imunológico identifica essas proteínas e cria anticorpos específicos contra elas. Se o novo coronavírus tentar infectar nossas células, o corpo já terá uma arma pronta contra ele – ou seja, a pessoa está imune.

Um dos empecilhos desse tipo de vacina é que o vírus modificado (no caso, o adenovírus do chimpanzé) pode induzir uma resposta imunológica muito forte a ele mesmo, e não apenas ao SARS-Cov-2. Ou seja: ao receber o adenovírus, mesmo que em forma de vacina, o nosso corpo reage e o ataca – afinal, ele não sabe que é um vírus “do bem”, e não é capaz de causar uma doença. Por isso, uma dose inicial alta pode gerar uma resposta imunológica muito forte ao adenovírus e diminuir a resposta ao coronavírus em si, que é o objetivo da vacina. Você confere mais sobre esse processo aqui.

Estudos realizados em camundongos mostram que uma primeira dose mais fraca vacina pode ter melhores resultados. Mas, novamente, não dá para afirmar que é esse o caso enquanto não houver dados oficiais e detalhados, que ainda não foram publicados.

De qualquer forma, a notícia de que uma dose e meia funciona melhor do que duas doses é bastante positiva: significa que mais gente pode ser vacinada com menos quantidade do produto. Além disso, em nenhum dos dois grupos foram registrados casos de Covid-19 que exigiram hospitalização ou efeitos colaterais graves. Isso significa que, independente das doses, a vacina é segura e parece evitar mortes.

Por fim, a Organização Mundial da Saúde, a Anvisa e a FDA, agência reguladora americana, estipulam que uma vacina contra a Covid-19 deve ter no mínimo 50% de eficácia (você pode entender melhor como esse patamar é calculado nesse texto). Por isso, mesmo uma vacina com eficácia de 62% pode ser uma arma crucial para combater a pandemia.

O anúncio de Oxford é especialmente positivo para o Brasil, por uma série de motivos. Primeiro porque a vacina está sendo testada por aqui e há acordo entre as desenvolvedoras e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para distribuir até 130 milhões de doses caso ela seja aprovada (para isso, a Anvisa deverá avaliar os dados dar aval para a distribuição). As outras vacinas com dados de fase 3 divulgados até agora ainda não foram negociadas em território nacional.

O segundo motivo é que, diferentemente de outras vacinas com resultados promissores até agora, as doses da vacina de Oxford podem ser armazenadas em geladeiras convencionais, que ficam entre 2º C e 8º C. As vacinas de mRNA da Moderna e da Pfizer, ambas com dados positivos da fase 3 de estudos, exigem ultracongeladores especiais que mantenham as amostras em temperaturas baixíssimas (até -70º C), que são escassos no Brasil e dificultariam e muito a distribuição e aplicação do imunizante em escala nacional. Além disso, espera-se que a vacina de Oxford seja mais barata para se adquirir, embora os detalhes de preços ainda não estejam estabelecidos.

A Oxford e AstraZeneca anunciaram que já submeteram seus dados de fase 3 para diversas agências regulatórias pelo mundo, incluindo no Reino Unido, na Europa e no Brasil. Não há prazo para que eles sejam analisados e eventualmente aprovados, embora isso possa acontecer mais rápido que o normal dada a urgência da pandemia. 

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