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Vacina russa induziu resposta imune e não teve efeitos adversos graves

Os resultados dos primeiros testes russos foram publicados hoje e são promissores. Entenda como a Sputnik V funciona e quais são os próximos passos.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 4 set 2020, 16h40 - Publicado em 4 set 2020, 14h54

A Sputnik V, produzida pela Rússia, chamou a atenção no mês passado ao se tornar a primeira vacina contra o coronavírus registrada em todo o mundo. A aprovação, no entanto, chegou antes que o laboratório responsável divulgasse os resultados dos primeiros testes clínicos. Ou seja: até agora, não tínhamos informações sobre a segurança e eficácia da vacina.

Esses resultados preliminares saíram nesta sexta-feira (04) no periódico especializado The Lancet. O estudo mostra que a vacina não gerou reações adversas graves até 42 dias após a aplicação. Além disso, ela estimulou a produção de anticorpos contra o Sars-Cov-2 em todos os 76 voluntários testados por um período de até 21 dias.

Toda vacina precisa passar por três fases antes de estar disponível ao público. A fase 1 avalia sua segurança e seus efeitos colaterais em um grupo pequeno de voluntários, com algumas dezenas de pessoas.

A fase 2 verifica se ela induz a resposta imunológica, com produção de anticorpos no indivíduo. Aqui, a amostra já aumenta para uma centena de voluntários ou mais. 

A fase 3 é a última, em que milhares de pessoas são inoculadas com a vacina para confirmar que ela funciona. Geralmente, essa fase é feita com voluntários que estão muito expostas ao patógeno (no caso da covid-19, os profissionais de saúde são as cobaias óbvias).

Os resultados apresentados hoje são referentes às fases 1 e 2 da vacina russa. Idealmente, a fase 2 só seria iniciada após o término da fase 1. Mas, devido à urgência da situação, elas estão sendo conduzidas simultaneamente por diversos laboratórios.

A fase 3 ainda está sendo realizada e deve contar com 40 mil voluntários. O governo do Paraná fez uma parceria com a Rússia, e os testes de terceira fase da Sputnik V em profissionais brasileiros devem começar em um mês.

Segundo os cientistas, a resposta imunológica produzida pela vacina foi maior do que a vista em pacientes que se recuperam da covid-19 naturalmente. Além da produção de anticorpos, a vacina também estimulou a produção de células T em até 28 dias. Essas células estão relacionadas à memória imunológica do corpo, o que indica uma proteção a longo prazo. 

Já se sabe que um indivíduo pode continuar produzindo anticorpos até 4 meses após a infecção pelo coronavírus. Depois disso, o nível de anticorpos cai. As células T são responsáveis por guardar a memória da infecção e liderar um novo ataque contra o vírus (incluindo a produção de novos anticorpos) caso o organismo volta a entrar em contato com ele. Você confere mais detalhes sobre a imunidade ao coronavírus na reportagem de capa da Super.

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  • Como funciona

    A vacina russa usa dois vetores de adenovírus para estimular a imunidade ao coronavírus no corpo. São eles o adenovírus humano recombinante tipo 26 (rAd26-S) e o adenovírus humano recombinante tipo 5 (rAd5-S). Eles são modificados geneticamente para expressar a proteína S (ou spike) do Sars-Cov-2 – é ela que o vírus usa para se ligar às nossas células. 

    Agora vamos traduzir: a ideia é que nossas células de defesa encontrem o adenovírus (que não causa grandes problemas) “disfarçado” com uma proteína do coronavírus. Desta forma, elas aprendem a produzir anticorpos contra o coronavírus. Depois, se o organismo de fato entrar em contato com o coronavírus, ele poderá reconhecer essa proteína e destruir o vírus antes que ele cause a infeção.

    A vacina de Oxford, que já está na fase 3 desde junho, usa essa mesma técnica. A diferença é que ela usa apenas um tipo de adenovírus. Segundo a microbiologista Natalia Pasternak, do ICB-USP, a vantagem de usar dois tipos diferentes é evitar que o paciente monte uma resposta contra o vetor. Afinal queremos uma resposta contra a proteína Spike do coronavírus e não contra o adenovírus, que é só um veículo.

    “É uma estratégia que a gente chama de heteróloga. Quando você faz a primeira dose com um adenovírus, e depois faz a segunda dose, o boost, com outro adenovírus diferente, você impede que a resposta imune priorize o vetor – diminuindo a resposta que a gente realmente quer, que é contra a proteína S. É uma estratégia muito interessante e elegante”, diz a pesquisadora.

    Na primeira fase do estudo, os cientistas testaram os dois adenovírus separadamente, para verificar a segurança dos vetores. Na segunda fase, os voluntários receberam uma dose da vacina com o rAd26-S em um dia, e outra dose com o rAd5-S no dia seguinte.

    O estudo mostra resultados preliminares promissores, mas é importante que a vacina seja testada em um número maior de pessoas antes de ser aprovada. Uma das limitações do estudo apontada por Pasternak é o fato da vacina ter sido testada em um grupo pequeno, majoritariamente de homens jovens. “Seria interessante ver uma fase 2 com uma diversidade maior de pessoas, incluindo outros grupos etários, mais mulheres e pessoas com comorbidades”.

    Lembrando que resultados parecidos de fase 1 e 2 já foram observados também em outras vacinas, com uma amostragem ainda maior de pessoas. É o caso da Moderna Therapeutics, Oxford e Coronavac, sendo que essas duas últimas já estão sendo aplicadas em profissionais de saúde brasileiros nos testes de fase 3. Você confere detalhes sobre as etapas de cada vacina nesta reportagem.

    Os autores do artigo também ressaltam que são necessárias mais pesquisas para verificar a eficácia da vacina em prevenir a Covid-19. “Para um estudo de fase 1, é um trabalho bem feito, e a publicação na Lancet está boa. Isso faz dela uma boa vacina candidata”, diz a pesquisadora. A eficiência dela só poderá ser comprovada com a terceira fase de testes. Atualmente, nove vacinas encontram-se nessa última etapa.

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