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Sem grandes cortes

uma nova técnica de operar vesícula - a laparoscopia

Lúcia Helena de Oliveira

Na penúltima sala à direita do corredor comprido, atravessando o centro cirúrgico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o paciente de meia-idade recebe os últimos preparativos para ser operado, já adormecido pela anestesia. Os médicos precisam extrair-lhe a vesícula doente — a bolsa que armazena a bile secretada pelo fígado, para mais tarde derramar o suco digestivo viscoso no intestino. Mas quem espera, a seguir, a descrição de uma cena repleta de sangue, pode ficar aliviado. Nessa cirurgia, mal se vê uma única gota desse líquido. Trata-se de uma laparoscopia, cujo próprio nome, de origem grega, indica “ver a barriga”, em vez de rasgá-la. Assim, o corte de 7 a 14 centímetros da operação convencional de vesícula é substituído por quatro pequenos furos, cujo diâmetro não ultrapassa 1 centímetro. “Essa técnica pode ser considerada o marco de uma nova tendência: no futuro muitas cirurgias provocarão menos traumas para o organismo”, aponta o gastroenterologista Thomas Szego, pioneiro na laparoscopia de vesícula no país.

Quando a cirurgia se inicia de fato, o médico injeta 3 a 5 litros de gás carbônico pela primeira das pequenas incisões. O abdome, então, incha como o ventre de uma grávida. “Isso serve para separar as estruturas internas uma das outras, deixando os órgãos expostos”, justifica Szego. “O gás, depois, é facilmente absorvido pelo organismo. O único inconveniente é que, durante a cirurgia, ele pressiona o diafragma, músculo que participa dos movimentos respiratórios. A sensação de sufoco, provocada por essa pressão, é o principal motivo para se usar a anestesia geral na laparoscopia.” O próximo passo do cirurgião será furar o abdome com a ajuda de uma agulha, da largura aproximada de uma seringa, criada pelo médico húngaro Janos Veres, ainda em 1923. Thomas Szego, naturalizado brasileiro, também nasceu na Hungria, mas a família fugiu do comunismo em 1957, levando o filho, então com 3 anos, escondido numa mochila. De Veneza, escala italiana da fuga, os Szego pegaram um navio com destino ao porto de Santos, no litoral paulista.

Segundo o cirurgião, a agulha inventada pelo conterrâneo Veres, há quase sete décadas, continua imbatível, por causa de seu mecanismo de proteção: ao terminar a resistência da parede abdominal, desce uma espécie de êmbolo, impulsionado por uma mola, que cobre a ponta afiada do instrumento. “Assim, não corro o risco de furar algum órgão, explica. Nos furos, aliás, está a grande vantagem da laparoscopia como técnica cirúrgica. “Não é mera questão estética, embora seja verdade que as cicatrizes serão quase invisíveis”, diz Szego, enquanto faz a segunda abertura no paciente. “O bisturi corta as fibras musculares; já a agulha simplesmente as separa entre si”. compara.” Essa diferença quase elimina o trauma cirúrgico.” Menor trauma significa menos dor, recuperação rápida, alta antecipada “O paciente sai do hospital no dia seguinte ao da operação. E, quatro dias mais tarde, já estará levando uma vida normal”, garante o gastroenterologista.

Por essa incisão recém-criada, um auxiliar do médico passa uma micro-câmera de vídeo, que transmite a imagem da cavidade abdominal para um aparelho de televisão, ligado ao lado da mesa cirúrgica. À medida que a câmera se move, o que se vê, com nitidez impressionante, lembra uma viagem pelo interior do corpo humano. Um tapete amarelo-vivo de gordura forra o chão escuro ondulado — o intestino, que cedeu para baixo, forçado pela pressão do gás e pela força da gravidade, uma vez que o paciente permanece levemente inclinado para cima. No alto da tela, é possível notar o coração batendo, mas o cameraman da operação prefere enquadrar a superfície vermelha e lisa do fígado, em que se pendura a vesícula esbranquiçada.A partir daí, todos os participantes fixam os olhos na tela, que amplia vinte vezes a imagem real. “O mais difícil, no caso, é que se perde a terceira dimensão, ou seja, a noção de profundidade. Se o médico não se acostuma a trabalhar assim, acaba danificando estruturas vitais”, diz Szego, que treinou o manuseio dos instrumentos cirúrgicos, nessa situação atípica, na Universidade de Maryland e, também, na Clínica Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Nesse país, hoje em dia, a laparoscopia é sempre a primeira opção, ao se operar uma vesícula. Em apenas três em cada cem casos, a técnica é contra-indicada — por exemplo, quando o paciente tem problemas de coagulação sangüínea e corre o risco de fortes hemorragias.

Os instrumentos aplicados na laparoscopia também são diferentes: em um extremo, são minúsculos como a ponta de uma caneta; no outro, em que o cirurgião segura, tem proporções normais. Através da cânula, introduzida em um dos furos, passa uma espécie de pinça, segurada pelo médico auxiliar, com a função de segurar a vesícula sempre na posição desejada pelo cirurgião. Este usa uma série de instrumentos, introduzidos em outra cânula. Com eles, primeiro, Szego rasga eventuais aderências da vesícula em outros órgãos; depois, corta e grampeia a artéria da vesícula e o canal por onde escorria a bile. “Esse suco, a partir da operação, deverá descer do fígado diretamente para o intestino”, descreve o médico. Na etapa final, Szego desgruda a vesícula do fígado com um bisturi de argônio, o sucessor do tradicional bisturi elétrico — “o novo instrumento é muito mais delicado, pois queima apenas 0,1 milímetro de tecido, à medida que vai cortando”. Enfim, totalmente solta, a elástica vesícula se estica, feito uma salsicha, até sair por um dos furos. A operação termina, passados cerca de cinqüenta minutos.Na realidade, a laparoscopia já era usada em cirurgias há quatro décadas, mas sempre na área de Ginecologia, para resolver problemas de ovário. Há nove anos, porém, o ginecologista alemão Kurt Semm resolveu se intrometer em outra especialidade, aplicando a técnica para operar uma paciente com apendicite. Só em 1987, porém, foi realizada a primeira laparoscopia de vesícula. “Hoje, mesmo aqui no Brasil, já estamos operando úlceras e hérnias inguinais dessa maneira”, conta Szego. Alguns médicos, contudo, começam a experimentar a laparoscopia em operações de esôfago e de intestino. “Há quem pense em aplicar a técnica até para extrair tumores de pulmão”. conta Szego. “Tudo é válido para diminuir o impacto de uma cirurgia para o organismo.”

 

 

 

 

Para saber mais:

Força fígado

(SUPER número 6, ano 3 )

 

 

 

 

1 Pela primeira de quatro incisões, passa a câmera, que transmite a imagem do interior do abdome para uma tela

2 Assim, os médicos localizam, sob o fígado, a vesícula redonda e clara

3 O cirurgião corta e grampeia a artéria que irrigava o órgão doente

4 Corta ainda o canal por onde escorria a bile amarela, da vesícula para o intestino

5 0 bisturi de argônio separa, finalmente, a bolsa do fígado

6 Solta, a vesícula pode ser puxada para fora da barriga, por um pequeno furo

7 0 cirurgião Szago: treino para usar os instrumentos da laparoscopia