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Torpor que escraviza

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h38 - Publicado em 31 ago 1998, 22h00

Luciana Garbin

Versão moderna do ópio consumido há milênios no Oriente, a heroína é uma droga exigente e vingativa: seus adeptos ecessitam de doses cada vez maiores e sofrem muito para largar o vício. Ou morrem.

Quando alguém fala em droga pesada, logo se pensa em heroína. Ela é o veneno favorito dos junkies, jovens viciados, com o corpo coberto de picadas, que vivem em função das injeções dessa substância, traficada na forma de um pó branco ou marrom. A heroína é um derivado do ópio, entorpecente usado por diferentes civilizações há mais de 4 000 anos, sobretudo no Oriente. Mais poderosa que o ópio, ela também vicia muito mais depressa. Duas ou três vezes já podem ser o bastante para transformar o curioso em dependente. Seus usuários dizem, no início, experimentar um prazer intenso. Mas se tornam escravos de doses cada vez maiores e de tormentos quase insuportáveis quando tentam parar. Depois de cada picada, os viciados passam horas e horas entorpecidos, como zumbis, indiferentes a tudo o que se passa ao seu redor.

De remédio para tosse a ícone junkie

De aparência inocente, as flores que cobrem a paisagem na foto ao lado não sugerem em nada os estragos que são capazes de causar nos seres humanos. As papoulas fornecem a seiva de onde se extrai o ópio (a palavra vem do grego e significa “seiva”) e seus derivados, como a morfina e a heroína. Desde a Antiguidade, os opiáceos têm sido usados por suas propriedades calmantes, soníferas e anestésicas. Mas essas qualidades escondem um perigo terrível: a dependência, que costuma levar à destruição e à morte.

O ópio já foi uma droga tão popular quanto o álcool, e a morfina era consumida abertamente nos salões elegantes da Europa no século XIX. Hoje o ópio é raríssimo e a morfina está praticamente restrita aos hospitais. O opiáceo da nossa época é a heroína, bem mais poderosa do que sua antecessora. Opção preferencial de quem usa drogas como meio de autodestruição, a heroína era receitada, há um século, como analgésico e remédio contra tosse. O nome foi dado pelos laboratórios Bayer, onde ela foi criada, devido às suas qualidades “heróicas”.

No Brasil, a heroína é uma recém-chegada. O primeiro caso de dependência foi identificado em 1984, em São Paulo. “Na maioria, os viciados são pessoas que viajam para o exterior e experimentam a droga lá”, afirma o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira Filho, do Programa de Orientação e Assistência ao Dependente, da Universidade Federal de São Paulo.

Do pó à seringa

Como os viciados se picam.

1. A heroína é um pó branco ou marrom, dependendo de sua pureza.

2. Para preparar a injeção, o usuário aquece o pó em água.

3. A mistura vai para a seringa ainda quente, é esfriada e aplicada direto na veia.

O tormento da falta

Por que é tão difícil largar o vício.

1. A heroína imita a endorfina, o analgésico natural do cérebro. Ao entrar na sinapse, o espaço entre os neurônios, ela ocupa os receptores de endorfina, dando a ilusão de uma enxurrada de analgésico.

2. Os neurônios, então, cortam a produção de endorfina. Quando o heroinômano fica sem a droga, a baixa quantidade de analgésico no cérebro provoca dores insuportáveis, que só podem ser aplacadas com outra dose.

Ficha técnica

Nome

Heroína.

Classificação

Narcótico com efeito analgésico e relaxante.

De onde se extrai

Seiva da papoula (Papaver somniferum).

Origem

Mediterrâneo.

Formas de uso

Principalmente injetada, embora também possa ser fumada ou inalada.

Tranqüilidade ilusória

Tranqüilidade ilusória Conheça os efeitos da heroína.

Efeitos imediatos

1. Desligamento do mundo exterior acompanhado de um prazer intenso.

2. Redução do número de batidas do coração.

4. Anestesia, perda da sensibilidade.

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5. Prisão de ventre.

6. Diminuição da libido.

Efeitos a longo prazo

1. Indução rápida à dependência. A síndrome de abstinência da heroína é a pior entre todas as drogas.

3. Há uma produção excessiva de noradrenalina na falta da droga. O coração dispara e o usuário corre risco de ataque cardíaco.

4. Na abstinência, o corpo fica incapaz de regular sua temperatura. O viciado sua muito ou tem calafrios, o chamado cold turkey (“peru frio”, em inglês).

5. Cólicas fortes e diarréia.

O mais triste dos parques

O primeiro supermercado de drogas a céu aberto durou quase seis anos. Em 1991, a prefeitura de Zurique, na Suíça, transformou a estação de trens desativada de Letten em “território livre” para o consumo de heroína e cocaína. O lugar logo se tornou conhecido como Parque das Agulhas. Diariamente, centenas de pessoas iam até lá para conseguir a droga e se picar. Nos fins de semana, o número de freqüentadores chegava a 5 000. As seringas eram distribuídas pela própria prefeitura, preocupada com a disseminação do vírus da Aids. Os policiais vistoriavam o centro três vezes por dia, mas não conseguiam inibir o tráfico. Em 1995, a área foi fechada. A experiência havia fracassado. A idéia de liberar as drogas para controlar seu uso resultou no aumento do consumo e da criminalidade. Sobraram as imagens chocantes de gente injetando heroína nos braços, pernas, mãos, axilas e pescoço, em meio a seringas usadas, chumaços de algodão, sangue e excrementos.

Raízes antigas

O homem descobriu a papoula há 7 000 anos.

5 000 antes de Cristo – Na Mesopotâmia, os sumérios tratavam doenças com infusões à base de papoula. Mais tarde, assírios e babilônios passam a fazer remédios com o suco da planta.

1 000 a.C. – Faraós são enterrados com utensílios para o uso do ópio, que os egípcios chamam tebácio, em homenagem a Tebas, cidade onde se cultiva a papoula.

Século V a.C. – O grego Hipócrates, considerado o pai da Medicina, é um dos primeiros a descrever o efeito medicinal do ópio, que receitava para a cura de várias doenças.

312 – Um censo revela a existência, em Roma, de 793 casas dedicadas a distribuir o ópio.

320 – Com a adoção do cristianismo pelo Império Romano, o ópio é proibido, junto com outras “plantas infernais e preparações diabólicas”.

Séc. VII – Os turcos descobrem que efeitos mais poderosos da droga são obtidos pela inalação da fumaça do suco de papoula solidificado. Surge o comércio do ópio no Oriente.

Séc. XVIII – Com a expansão das rotas comerciais, o ópio se torna uma droga universal, amplamente consumida na Europa, onde era considerada um excelente remédio.

Problema moderno

O ópio já causou até guerra. E seus derivados ainda matam.

1803 – O químico alemão Frederick Sertuerner isola a morfina em laboratório. Por seus efeitos anestésicos, ela é chamada de “remédio dos deuses” e logo se torna popular.

1840 – Tropas da Grã-Bretanha invadem a China e obrigam o país a abrir seu mercado aos navios ingleses que fazem comércio com a droga. É a Guerra do Ópio.

1870 – A importação de ópio nos Estados Unidos torna-se vinte vezes maior do que em 1830. Imigrantes chineses levam consigo o hábito da droga. Casas de ópio são instaladas na Califórnia.

1898 – O químico alemão Henrich Dreser, da companhia farmacêutica Bayer, obtém a diacetilmorfina. Mais forte que a morfina e com menos efeitos colaterais, ela ficaria conhecida como heroína. No início, a droga é receitada para aliviar a tosse.

1909 – Na Primeira Conferência Internacional sobre o Consumo de Narcóticos, em Xangai, na China, o ópio é condenado como prejudicial.

1924 – O governo dos Estados Unidos declara ilegal o uso e a venda de heroína. Nos dez anos seguintes, 25 000 médicos e 50 000 viciados são presos. O vício se torna um crime.

1926 – Na Inglaterra, uma comissão conclui que os viciados devem ser considerados doentes.

1939-1945 – Opiáceos são usados como analgésicos na Segunda Guerra Mundial.

1949 – O regime comunista inaugurado por Mao Tsé-tung elimina o ópio na China. Viciados e traficantes são executados.

1967 – O movimento hippie, nos países industrializados, põe as drogas na moda fazendo aumentar o consumo de heroína e de outros derivados do ópio.

1975 – Soldados americanos que voltam aos Estados Unidos após o fim da Guerra do Vietnã ajudam a disseminar a heroína.

1993 – O traficante de heroína birmanês Khun Sa, o “Rei do Ópio”, declara, unilateralmente, a independência do Estado Shan, no território produtor de ópio conhecido como Triângulo de Ouro, entre Mianmar, Tailândia e Laos.

1994 – Descobrem-se as primeiras plantações de papoula nas regiões montanhosas da Colômbia, sob o controle dos mesmos cartéis que traficam a cocaína.

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