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Diabos-da-tasmânia voltam à Austrália continental após 3 mil anos

26 mamíferos agora habitam um santuário no norte de Sydney - uma tentativa de salvar a espécie.

Por Bruno Carbinatto - 8 out 2020, 19h07

Após passarem mais de três mil anos extintos em quase toda a Austrália, os pequenos e frenéticos diabos-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) foram reintroduzidos na área continental do país. A ação é parte de um esforço para a conservação e restauração da espécie na região. Como seu nome adianta, esses marsupiais antes ficavam restritos, anteriormente, ao estado australiano da Tasmânia, uma ilha isolada do resto do país.

Grupos de conservação liberaram 26 diabos-da-tasmânia no Parque Nacional Barrington Tops, um grande santuário de vida selvagem ao norte de Sydney. O primeiro grupo, com 15 bichos, foi devolvido à natureza em março deste ano, como forma de testar a sua adaptação. Como os resultados foram positivos, mais 11 dos mamíferos foram introduzidos em setembro.

Conhecidos pelos seus gritos agudos e comportamento “nervosinho” na hora de se alimentar ou de competir por carcaças de animais, os diabos-da-tasmânia são os maiores marsupiais carnívoros da Terra. A espécie inspirou o personagem Taz, da Warner Bros, que incorpora  seu temperamento mal-humorado.

Segundo especialistas, os animais não apresentam perigo para a fauna e flora locais, nem para os humanos – preocupações que devem ser analisadas antes de se introduzir uma espécie nova a um ambiente. Na verdade, espera-se que eles ajudem a controlar outras espécies de carnívoros invasores na região, como raposas e gatos selvagens. Foram escolhidos indivíduos jovens e saudáveis, na esperança de que eles consigam procriar durante a temporada de reprodução da espécie, que deve acontecer em fevereiro do ano que vem.

Registros fósseis provam que, no passado, esses marsupiais já habitaram a Austrália continental, mas acredita-se que eles tenham sido extintos há 3 mil anos. A principal causa dessa extinção, provavelmente, foi a vinda dos humanos ao continente, trazendo consigo os dingos – espécie de cão selvagem conhecida por ser um grande predador. Com a presença dessa ameaça e a intensificação das mudanças climáticas, os diabos-da-tasmânia ficaram restritos apenas à ilha da Tasmânia, um estado insular que fica ao sul da massa de terra principal da Austrália (e onde os dingos nunca chegaram a ser introduzidos).

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Nas últimas décadas, porém, o número de diabos-da-tasmânia vinha caindo drasticamente em seu habitat natural. Parte disso pode ser explicado por interferência humana (desmatamento, caça, atropelamentos etc.), já que mais de 500 mil australianos vivem na Tasmânia. Porém, grandes populações do mamífero também sumiram por conta de uma misteriosa doença, conhecida como doença do tumor do diabo-da-tasmânia, que causa um câncer mortal nos bichos e é transmissível. Estima-se que até 90% da espécie tenha sido vítima fatal da doença, desde sua identificação, na década de 1990.

Atualmente, acredita-se que haja apenas 25 mil diabos-da-tasmânia na natureza, e por isso a espécie é considerada ameaçada de extinção e alvo de diversas iniciativas para sua preservação. É difícil mantê-los seguros, porém, porque a doença está bem estabelecida na Tasmânia. Dessa forma, introduzir uma população saudável na Austrália continental é uma forma de proteger a espécie do câncer e evitar a sua extinção definitiva.

“Daqui a 100 anos, vamos olhar para este dia como o dia que deu início à restauração ecológica de um país inteiro”, disse em comunicado, Tim Faulkner, presidente da ONG Aussie Ark, que liderou o projeto e documentou a reintrodução em vídeo.

A equipe de conservacionistas planeja mais duas levas de bichos para serem reintegrados à natureza nos próximos dois anos, e também acompanhará os novos habitantes da Austrália continental com radares, câmeras e outras tecnologias. Esse trabalho é especialmente necessário porque a região acaba de passar por uma temporada intensa de incêndios florestais, que causou danos severos à vida selvagem.

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