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EUA X China: a guerra pela vacina

A busca pela vacina contra a Covid-19 lembra os tempos da corrida espacial: duas superpotências numa disputa pesada por hegemonia. E essa é uma boa notícia.

Por Alexandre Carvalho - Atualizado em 24 jun 2020, 17h58 - Publicado em 1 jun 2020, 11h30

Está na história da medicina. Na madrugada de 21 de março de 1963, Jeryl Lynn, uma menininha americana de 5 anos, acordou o pai, reclamando de dor de garganta. Num exame rápido, Dr. Maurice Hilleman logo chegou a um diagnóstico preciso: caxumba. Imediatamente tirou o pijama e dirigiu 20 minutos até o laboratório onde trabalhava – na empresa farmacêutica Merck.

Não tinha ido atrás de um remédio para a pequena – algo que nem existia. O que ele pegou foi cotonete. Então voltou para acordar a filha. Apenas o tempo suficiente para esfregar a garganta da garota com a haste de algodão. Mais 20 minutos de carro, e a amostra de muco já estava no freezer do seu laboratório. Hilleman era um microbiologista, e dedicou todo o seu foco dali em diante a uma preparação biológica que iria mudar o destino de crianças do mundo inteiro. Uma revolução: em 1967, sua vacina contra caxumba estava aprovada pela FDA, a Anvisa dos EUA.

O intervalo entre aquela madrugada de epifania e a aprovação formal da agência de saúde americana foi de quatro anos. Um recorde na criação de uma vacina, jamais batido. Mas que precisa ser superado agora. Ninguém trabalha com a hipótese de que uma vacina para a Covid-19 não surja, no limite, até meados de 2021. Pensar no contrário é gatilho para outra síndrome: a do pânico.

O aumento exponencial de contágio e das mortes pelo Sars-Cov-2, somado à devastação nas economias, estimularam uma corrida sem precedentes para o desenvolvimento de uma vacina. Corrida mesmo. Uma disputa que envolve uma penca de países e parcerias, mas com dois grandes competidores individuais: EUA e China.

O desenvolvimento da vacina para a caxumba levou 4 anos – e esse é o recorde até hoje. Não há como esperar tanto tempo agora.

Os asiáticos, que nunca primaram pela transparência, clausuram seus cientistas em Wuhan e Beijing. Até o fechamento desta edição, três farmacêuticas chinesas já estavam com vacinas em fase de testes em humanos. Já a Casa Branca anunciou uma ação chamada Operation Warp Speed (“Operação Velocidade da Luz”), que evita qualquer tipo de cooperação internacional e almeja ter 300 milhões de doses de uma vacina até janeiro de 2021.

O clima é de filme do James Bond: no dia 13 de maio, o FBI e a Agência Nacional de Segurança Cibernética dos EUA acusaram hackers ligados ao governo chinês de tentar roubar informações dos laboratórios americanos. Os chineses disseram que é mentira, e mais: “A julgar pelo seu histórico, os EUA realizaram as maiores operações de roubo da internet em escala mundial”, retrucou Zhao
Lijan, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Mas por que, em meio a uma tragédia planetária, esses países se isolam e se acusam? É que o vencedor dessa corrida poderá imunizar sua força de trabalho antes, o que significa a dianteira na extinção do isolamento social que paralisa o comércio e a indústria, além de obter uma óbvia vantagem diplomática: poderá barganhar alianças em troca de acesso ao produto ou à tecnologia para produzi-lo. Pode monetizar a vacina e seu processo de fabricação.

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Uma máquina de lavar na Lua

Na essência, esse novo duelo de titãs parece um remake da corrida espacial dos anos 1960 – agora com chineses no papel dos soviéticos. Há mais de 60 anos, desde que a URSS colocou o primeiro satélite na órbita da Terra – o Sputnik 1 –, os antigos comunistas disputavam com os americanos o pioneirismo na exploração do espaço. E os soviéticos tiveram suas vitórias: o primeiro animal em órbita (a cadela Laika), o primeiro homem (Yuri Gagarin) e a primeira mulher (a cosmonauta Valentina Tereshkova).

Só que depois os americanos viraram o jogo, com um supertrunfo: a missão Apollo 11, que pôs americanos caminhando em solo lunar, com direito a transmissão ao vivo para a TV. Foi um abalo psicológico tão potente que a URSS jogou a toalha – e a tal corrida praticamente acabou. Mas não sem deixar legados: a exploração espacial que surgiu dali continua até hoje,
rendendo toda uma enciclopédia de novos conhecimentos.

À época, estava em jogo o simbolismo da vanguarda tecnológica, mas também uma vantagem militar assustadora na Guerra Fria: os adversários temiam que seus oponentes criassem mecanismos de atirar bombas atômicas a partir do espaço. Felizmente, não foi o que aconteceu.

Pelo contrário: a corrida espacial acelerou a evolução da humanidade. A Apolo 11, pelos padrões de hoje, era uma máquina de lavar com uma calculadora embutida. E mesmo assim, graças a um esforço monumental, levou astronautas à Lua e os trouxe de volta.

Boa parte desse esforço moldou o mundo de hoje. As geringonças colossais que eram os computadores ganharam versões em miniatura – bem mais sofisticadas – para equipar as cabines das espaçonaves. O processamento digital de imagens, utilizado para analisar a superfície lunar, foi adaptado para a evolução das tomografias. Uma fibra sintética feita para que os trajes dos astronautas suportassem as temperaturas extremas do espaço foi para o uniforme dos bombeiros.

A corrida espacial, ainda que movida por uma necessidade mais política do que científica, fez com que a humanidade desse um salto temporal em pesquisa e desenvolvimento. Então, que a disputa deste triste 2020 também consolide uma nova aurora tecnológica, agora para tornar a criação de vacinas mais rápida, sem abrir mão da segurança.

Seria melhor se houvesse um espírito de cooperação e solidariedade entre as duas potências. Infelizmente, não há. Mas que da disputa entre os gigantes surja algo bom para o mundo – como aconteceu da última vez. E que, no momento de distribuir a eventual vacina, os líderes se lembrem de que, no fim, estamos todos no mesmo barco, flutuando em torno do Sol numa pequena bola azul.

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