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Imigração: o brilho eterno da grama do vizinho

Um em cada seis adultos do planeta deseja mudar de país. E isso é uma boa notícia.

É provável que você já tenha pensado em sair do Brasil. É muito provável que você conheça pelo menos alguém que tenha saído do Brasil. Não estamos falando sobre política aqui: trata-se de uma tendência que já vem de um bom tempo. Dados da Receita Federal mostram que o número de brasileiros que deram baixa, ou seja, fizeram o informe de saída definitiva do País da última declaração de imposto de renda, no início de 2018, foi de 21,2 mil. Em 2013, quando o número já era considerado alto, foram 9,8 mil.

De acordo com o Itamaraty, hoje 3 milhões de brasileiros vivem em outros países. Quase metade desse total, 1,4 milhão, estão nos Estados Unidos. Na sequência no ranking aparecem Paraguai (com 332 mil brasileiros), Japão (170 mil), Inglaterra (120 mil) e Portugal (116 mil).

Trata-se de um fenômeno global, na verdade. A ONU estima que existam 250 milhões de expatriados no mundo, entre legalizados e ilegais. E, se dependesse apenas da vontade das pessoas, esse número poderia ser ainda maior. Uma pesquisa recém-divulgada pelo Instituto Gallup, dos EUA, indica que 750 milhões de pessoas sonham em morar em um país diferente. Um em cada seis adultos do planeta.

Os EUA são o destino mais desejado. 158 milhões de pessoas gostariam de viver lá, pelas estimativas do instituto. O Canadá vem em segundo lugar, com 47 milhões. Só que mesmo nesses dois países a quantidade de gente a fim de sair tem aumentado. No início da década, 10% dos americanos e canadenses queriam tentar a sorte em outro lugar. Hoje, são 14%, sempre levando em conta apenas a população adulta. Nota: a economia dos dois países está bem melhor hoje do que estava nos idos de 2010.

Mesmo nos EUA e no Canadá, destinos tradicionais de imigrantes, a proporção de gente a fim de tentar a vida em outro país cresceu 40% nesta década.

Na sequência da lista de países dos sonhos aparecem Alemanha (42 milhões), França e Austrália (36 milhões cada). O Brasil, veja só, nem está tão mal na fita. Aparece em 20o lugar, com 6 milhões de estrangeiros querendo viver aqui.

O desejo de imigrar tem crescido não só em todos os países, mas também em todas as faixas de renda. Mas é óbvio que cenários negativos influenciam mais. Quase um terço (27%) dos latino-americanos sonham em trocar de passaporte, diz o Gallup.

O instituto não divulgou os dados isolados do Brasil. Mas outro levantamento dá uma ideia do tamanho dessa tendência por aqui. Segundo uma pesquisa divulgada pelo Datafolha em junho de 2018, 43% da população brasileira adulta gostaria de tentar a vida no exterior. Considerando apenas os que têm curso superior, a cifra salta para 56%. Entre os jovens de 16 a 24 anos, o número é de impressionantes 62%. A pesquisa concluiu que o brasileiro estava insatisfeito basicamente porque o País não lhe entregou aquilo que prometia no início do século 21, aqueles anos de bonança econômica.

Mas trata-se de uma análise simplista. A União Europeia “entregou o que prometia”. Crises do Euro e DRs com o Reino Unido à parte, ela segue entregando os maiores IDHs (1) do planeta. Mesmo assim, 21% gostariam de sair de seus países de origem – uma proporção, pelos números do Gallup, quase tão alta quanto a América Latina e da África subsaariana (33%).

A explicação, então, não está só na busca por mais qualidade de vida. Está nos nossos instintos. A ilusão de que a grama do vizinho é mais verde, de que a felicidade está “lá fora”, foi impressa em nosso DNA ao longo da evolução. A espécie de hominídeo mais bem-sucedida entre todas foi o Homo erectus, nosso antepassado direto. Trata-se da única que durou mais de 1 milhão de anos. Nós, Homo sapiens, mal chegamos aos 300 mil e já estamos a perigo. Bom, o erectus, que não detinha muito mais tecnologia que um chimpanzé, saiu de sua terra natal, a África, e colonizou a Europa e a Ásia bem antes de o primeiro Homo sapiens ter nascido (a partir de descendentes do erectus que tinham ficado na África). Somos uma espécie migratória.

E, apesar do muro do Trump e do Brexit, a verdade é que os últimos anos foram extremamente amigos da imigração. Países mais desenvolvidos tornaram a entrada de imigrantes menos complicada. A justificativa está na economia. Com populações envelhecidas e uma taxa de natalidade baixa, esses países precisam da mão de obra jovem. Se for qualificada, melhor ainda.

É o que aconteceu em Portugal. O país incentivou fortemente a ida de brasileiros para lá como uma tática para tirar sua economia da recessão. Desde 2012 o governo português passou a emitir vistos de residência para investidores. O resultado está no último balanço divulgado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras do país – quase 90 mil brasileiros legalizados no país e o número de pedidos de residência aumentando 50% de um ano para o outro.

O Brasil mesmo criou seu programa de residência permanente. Desde 2017, qualquer estrangeiro que investir R$ 500 mil em um negócio aqui, ou que gastar a partir de R$ 1 milhão na compra um imóvel urbano para uso próprio, pode morar aqui para sempre, sem burocracia. Mais de 100 países têm programas parecidos. Pelo menos para o topo da pirâmide, o sonho que John Lennon cantou na letra de Imagine se tornou realidade: não existem mais fronteiras (a não ser que o sonho da vida do sujeito seja viver na Coreia do Norte).

Outro fator que ajuda é o boom no turismo global. Nada atiça mais o bichinho da imigração do que conhecer outro país. E viajar nunca foi tão barato, não importa em que país você viva. Para ilustrar, tomemos como base o tradicional voo Nova York – Londres. Nos anos 1970, custava US$ 3 mil dólares – em valores atuais, corrigidos pela inflação. Hoje sai por menos de US$ 1 mil. A proliferação dos hostels e a chegada do AirBnB também ajudaram a baixar os preços das viagens, e a tornar as experiências mais intensas (num hostel você conhece gente de todo canto; num AirBnB, sente como é viver de fato no lugar, sem a intermediação dos serviços de um hotel).

Por essas, a atual geração de jovens adultos brasileiros é a primeira em que uma boa parcela das pessoas incorporou à rotina o hábito de viajar para o exterior. Dados da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo mostram que 1,2 milhão de brasileiros fizeram turismo fora do País em 2017; 25% mais do que no ano anterior, com crise e tudo.

Nos andares de baixo as coisas são diferentes. O aumento de imigrantes nos países ricos, ao mesmo tempo em que a economia global passa por uma reinvenção em que, por enquanto, não há empregos para todos, tem funcionado como combustível para manifestantes xenófobos, e para a ascensão de líderes de extrema-direita. Ou seja: a porteira para a imigração começa a se tornar mais estreita. Que esse retrocesso dure pouco. O nacionalismo exacerbado, afinal, só serviu mesmo para jogar a humanidade em duas guerras mundiais.