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Caitlin Doughty, a youtuber funerária

Ela foi trabalhar num crematório aos 23 anos e, não largou mais os cadáveres. Agora, dedica a vida a convencer famílias a passar mais tempo com seus mortos.

A maioria das pessoas nunca viu um cadáver em seu estado natural. Normalmente, quando pensamos em um morto, nos vem à cabeça a imagem de um corpo digno dos funerais de cinema: uma pessoa deitada, de olhos e boca fechados, mãos entrelaçadas sobre a barriga, maquiada e com uma roupa formal. Mas a morte não costuma ser assim tão agradável à vista.

Para chegar ao velório em um estado apresentável, o corpo costuma receber os cuidados de uma pessoa de fora da família, acostumada a passar muito tempo entre cadáveres. Esse é o trabalho de Caitlin Doughty, agente funerária e empresária do ramo que, nas horas vagas, é famosa por fazer vídeos para o YouTube sobre o assunto.

O interesse pelos cadáveres despontou quando Doughty começou a estudar história medieval na faculdade. Aos 23 anos, ela encontrou emprego em um crematório e passou a conviver com a morte de perto. Sua primeira tarefa na função foi barbear um defunto. Estranho? Não para ela: passado o estranhamento inicial, Caitlin percebeu que o trabalho era parecido com o de depilar as próprias pernas. A americana relata toda a experiência em seu primeiro livro, Confissões do Crematório.

 (CSA Images/DarkSide Books)

Agora, ela trabalha na divulgação de seu segundo livro: Para Toda a Eternidade, que foi lançado no Brasil em junho de 2019. A obra reúne descrições de rituais funerários em diferentes países e culturas, recolhidos durante viagens que fez pelo mundo todo. Hoje, Doughty tenta usar essa experiência para modificar a cultura (e, principalmente, a indústria) funerária nos Estados Unidos.

Para a autora, o cuidado de corpos sem vida foi totalmente terceirizado – e deixou de lado a função que já teve no processo de luto. “Na medida em que as cidades cresceram, ficou claro que as pessoas poderiam ganhar dinheiro fazendo isso, criando grande empresas que fazem tudo por você”, disse, em entrevista à SUPER.

Antigamente, sem todo um mercado para cuidar do transporte, preparação e sepultamento, as próprias famílias se encarregavam de cuidar do corpo de entes queridos. Mas essa prática, cada vez mais, tem se tornado rara. O mais comum, principalmente em culturas ocidentais, é que parentes paguem uma empresa para se encarregar do corpo do momento em que a pessoa morre até o enterro. “Isso acontece há tanto tempo que as pessoas esqueceram do poder que elas tinham sobre o corpo de seus familiares”. 

A principal ideia defendida por Caitlin Doughty é que as famílias recuperem esse “poder”. Ela acredita que passar mais tempo com o morto, quem diria, pode ser extremamente benéfico para familiares e amigos. Fazer isso, de acordo com o autora, intensifica o momento do luto e dá tempo para a pessoa perceber que aquele ente querido não vai voltar – e que a vida será diferente a partir daquele momento. 

“É quase como uma terapia. É como ficar de frente para o espelho e se perguntar como você esteve vivendo a sua vida”, diz Doughty. E não estamos falando, aqui, de passar algumas horas em um funeral, cercado de coroas de flores. Mas sim, de ajudar a preparar o corpo depois da morte, respeitando as vontades do morto e normas de direitos sobre o corpo.

Essa era a forma como funcionava a Undertaking LA, funerária fundada por Doughty em Los Angeles, EUA. A empresa fechou as portas em junho de 2019, mas Caitlin pretende voltar ao ramo ainda em agosto deste ano – à frente de uma funerária com outro nome, mas que manterá a mesma proposta.

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A maioria das pessoas, principalmente as que sempre passaram longe de um corpo morto em seu estado natural, costumam achar a ideia estranha. E isso, para Doughty, tem a ver com a imagem que costumamos ter do momento da morte.

Em funerais, corpos são maquiados ao extremo para dar a impressão que a pessoa dentro do caixão está apenas dormindo – vestida em trajes de gala. A agente funerária acredita que essa preparação ao extremo é feita justamente porque as pessoas não querem ter que encarar o óbito. “Você deveria estar com o corpo e aceitar que ele está morto. Esse é o momento para perceber isso”, diz Doughty. “Não estou falando que ele deveria estar de boca e olhos abertos, todo decadente, mas sim de uma simples preparação do corpo. As pessoas que optam por fazer isso acabam achando o resultado muito bonito”.

Lidar com cadáveres não significa estar de bem com a própria morte. A ideia do próprio fim continua sendo assustadora, mas Caitlin conta que aprendeu a lidar com ele de uma maneira diferente. “É uma jornada. Tem dias em que eu estou tranquila com isso, e em outros, nem tanto. Só porque alguém tem medo de morrer não significa que ela não esteja bem resolvida”. O segredo, diz, é lidar com a ansiedade para evitar que isso se torne um medo contínuo – a ponto de que o temor pelo fim da linha impeça alguém de aproveitar os últimos instantes ao lado de quem mais ama.

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