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Bolha de plasma envolve o sistema solar

Como e por que o Sol está dentro de uma grande bolha de gases ionizados.

A última janela para ver o céu foi aberta pelo EUVE – sigla inglesa para Explorador do Ultravioleta Extremo. Esse satélite “vê” luz entre os raios X e ultravioleta. Todo o resto do espectro eletromagnético (ou outras formas de luz) já vinha sendo explorado amplamente. Na década de 30 nasceu a radioastronomia; na de 70, foi a vez dos raios X; na de 80, surgiram satélites que vêem raios ultravioleta, infravermelho e microondas; na de 90, enfim, vieram os raios gama. A vez do ultravioleta extremo (UVE) demorou a chegar porque parecia ainda mais complicado que os outros que são barrados pela atmosfera.

Nesse caso, basta ir ao espaço para escapar ao bloqueio, mas o UVE também era absorvido pelo oceano de hidrogênio e hélio neutros que enchem o meio interestelar. Aqueles raios pareciam, assim, definitivamente fechados à investigação. Outro fenômeno desanimador foi descoberto na Lua pelos astronautas da Apolo 16: em 1972, eles tiraram fotos da Terra, mas em vez de luz comum captaram a imagem em UVE. Viu-se então que nosso planeta está mergulhado numa nuvem brilhante de hélio, chamada geocorona. Um satélite a 550 quilômetros de altura que enxergasse no UVE teria à volta uma névoa e ao longe, negras nuvens interestelares.

Enfim, em 1975, apareceu uma pequena luz no fim do túnel. Inconformados com a situação, astrônomos como Stuart Bowyer, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, colocaram um detector de UVE em um vôo da nave soviética Apolo-Soyuz. O resultado foi uma enorme surpresa: viram quatro estrelas, o que se poderia explicar se houvesse furos nas nuvens interestelares, ou janelas de transparência. Estas seriam formadas por tubos ou bolhas de hidrogênio e hélio ionizados – ao lado do hidrogênio e hélio eletricamente neutros. Nesse estado, chamado plasma, aqueles gases não absorvem os raios UVE. A idéia dos furos, mais tarde, revelou-se correta.

Missões espaciais mostraram que o Sol está dentro de uma grande bolha de gases ionizados. Ela tem a forma de um amendoim cujo comprimento chega a 1 200 anos luz (o ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros), e a largura, 300 anos-luz. O Sol e a estrela Mirzam estão situados em lados opostos e a 300 anos-luz de cada extremidade do amendoim. Visto no ultravioleta extremo, o céu tem aspecto completamente diferente do que vemos na faixa visível. A área rica em estrelas na direção de Orion e Escorpião torna-se bem pobre, pois contém grandes concentrações de gás neutro.

Em áreas diferentes, a bolha parece ligar-se a outras, o que permite ver o espaço exterior à nossa galáxia. São pequenas janelas – cobrindo não mais que 10% do espaço extragaláctico -, mas já suficientes para dar uma idéia da fauna de objetos quentes que o habita. As primeiras imagens do EUVE mostram aglomerados de estrelas gigantes azuis, em especial a Tarântula, na galáxia Grande Nuvem de Magalhães. Espera-se ver comportamento semelhante ao da Tarântula em galáxias onde há estrelas recém-formadas. São as galáxias de núcleo ativo (designadas pela sigla AGN) e as que estão em colisão, dois casos em que há domínio de estrelas gigantes azuis. Os corpos que emitem UVE têm temperatura muito elevada.

As estrelas anãs brancas, por exemplo, tão fracas à luz visível, são muito brilhantes na faixa do UVE. Tanto que a apagada HZ43 torna-se, em UVE, o objeto celeste mais brilhante do céu depois do Sol. O EUVE também está estudando Júpiter e Saturno em busca de suas auroras polares, assim como um tubo de gases eletrificados que acompanha a órbita do satélite jupiteriano 10. Após a fase de levantamento completo do céu, em andamento, o EUVE passa a operar como observatório comum, apontando para alvos selecionados. Nessa segunda etapa, ele estará aberto a pesquisadores de todo o mundo, inclusive a astrônomos amadores. As propostas serão analisadas pela NASA e os autores selecionados trabalharão como convidados no EUVE Science Operation Center, situado em Berkeley, Califórnia.