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Estrela partida

Flávio Dieguez

O brasileiro Augusto Damineli revela que sob a nuvem de gás e poeira que envolve a gigantesca Eta Carina não existe apenas uma, mas duas estrelas. É a dupla estelar mais poderosa já vista no Cosmo.

Monstros como a Eta Carina não se acham todos os dias no céu. Apesar de ser invisível a olho nu, pois está a 72 quatrilhões de quilômetros da Terra, ela emite, sozinha, tanta luz quanto 5 milhões de estrelas como o Sol. Foi isso que fez dela um prato cheio para o astrofísico Augusto Damineli – que vem estudando as estrelas gigantes desde que se formou, em 1973, pela Universidade de São Paulo.

Ele conta que começou a observar a Eta Carina em 1989, três anos antes de começar a escrever a seção Universo na SUPER, para a qual colaborou até sua ida para a Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, em 1996 (veja na página 54). Nesse meio tempo, Damineli encontrou a chave para desvendar a estrela: ele notou que ela estava piscando. “De uma hora para outra, ela perdeu o equivalente à luz de 3 000 sóis e depois voltou ao normal”, contou ele à SUPER.

Intrigado, o cientista vasculhou dados antigos do astro e percebeu que seu escurecimento era repetia-se a cada 2 017 dias. Previu, então, que o blecaute tornaria a acontecer agora, na virada do ano. E acertou na mosca. Para ele, o acende-apaga se deve ao fato de que a Eta Carina não é uma, mas duas estrelas em órbita. O ciclo de 2 017 corresponde ao tempo que uma leva para completar a órbita e passar perto da outra. Nesse momento, um mecanismo ainda desconhecido reduz a luz dos astros, como se o encontro criasse uma sombra. Que, ao ser registrada pelo brasileiro, iluminou o nosso conhecimento sobre a Eta Carina.

Envolvidas no casulo

Uma imensa nuvem de gás e poeira normalmente esconde o par de astros da vista dos telescópios

No mundo dos astros, o tamanho define o futuro

Segundo o astrofísico Augusto Damineli, as duas estrelas da Eta Carina nasceram há 2,5 milhões de anos e já vieram ao mundo condenadas a uma existência atribulada. O motivo é que elas eram muito grandes: a maior tinha 114 vezes mais massa que o Sol e a menor, 88 vezes mais, o que criava uma pressão imensa sobre o coração dos astros. Com isso, as reações nucleares lá dentro ocorriam em ritmo acelerado e geravam uma quantidade avassaladora de luz – capaz de, volta e meia, dilacerar o corpo das estrelas, mandando para o espaço boa parte de suas camadas externas.

A mais recente erupção da dupla aconteceu há 7 655 anos e fez as estrelas perderem muita massa: a que era maior ficou “apenas” 66 vezes mais pesada que o Sol e a que era menor, 68 vezes. Assim surgiu uma nuvem de poeira e gás que cobre inteiramente as estrelas e que durante décadas desafiou o esforço de grandes astrônomos para deduzir o que estava acontecendo lá dentro.

Charada secular

Coube ao astrofísico brasileiro encontrar a chave, ajudado por Dalton Lopes, da USP, Francisco Xavier, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, e Peter Conti, da Universidade do Colorado. As observações da equipe mostraram que a luz da Eta Carina fica mais fraca a cada 2 017 dias. Esse fato sugere que há dois corpos em órbita dentro da nuvem de matéria, e sempre que um passa na frente do outro, o brilho cai. “Damineli matou uma charada secular”, disse à SUPER Kris Davidson, da Universidade de Minnesota, o maior especialista no assunto. Ele diz que ainda tem dúvida sobre a existência da dupla na Eta Carina. Mas reconhece que vai ser difícil achar outro jeito de explicar o ciclo de 2 017 dias.

Ou seja, ainda há trabalho à frente. Mas, com um grande número de astrônomos já convencidos de que a interpretação de Damineli está correta, ele marca um ponto definitivo em sua carreira. O reconhecimento é um prêmio justo para quem sempre gostou dos astros gigantes. E, daqui para a frente, passa a ser conhecido como o descobridor da dupla mais portentosa até hoje encontrada no Universo.

A anatomia da Eta Carina

Veja como a violência dos astros duplos causa turbulências no espaço à sua volta.

Raios de gás

São criados pela matéria que evapora continuamente das estrelas. Para se ter uma idéia, elas ejetam gás a um ritmo 100 milhões de vezes maior do que o do Sol.

Números monumentais

De uma ponta à outra, os lóbulos do homúnculo medem 5 trilhões de quilômetros. Ou seja, já são 500 vezes maiores que o Sistema Solar. E ainda estão em expansão, crescendo à taxa de 180 000 quilômetros por hora.

Nebulosa externa

Esta massa informe de gás e poeira espalhada no vácuo interestelar contém restos de explosões que as estrelas sofreram há muitos milhares de anos.

Contorno do homúnculo

É o nome destes dois lóbulos de gás e poeira, nascidos durante a mais recente erupção das estrelas, há 7 655 anos. Sua imagem chegou à Terra em 1843 devido à distância de Eta Carina, de 7 500 anos-luz (1 ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros).

Roteiro orbital

A estrela menor leva 2 017 dias para dar uma volta completa em torno da maior. Na virada do ano, a menor passou por um ponto em que, devido a um mecanismo ainda desconhecido, parte de sua luz foi bloqueada pela maior.